“As pessoas que moram aqui acham que não têm direitos”

Com o projeto Geração que Move, a adolescente Milena do Carmo descobriu o valor do ativismo social em seu território, na Zona Norte do Rio

UNICEF Brasil
25 maio 2021
Com o projeto Geração que Move, a adolescente Milena do Carmo descobriu o valor do ativismo social em seu território, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na foto, que mostra só o rosto da adolescente, Milena está sorrindo.
Arquivo pessoal – Milena do Carmo

Aos 17 anos, Milena do Carmo tem uma certeza: quer ajudar as pessoas. Foi esse o motivo que a levou a participar do projeto Geração que Move. Ela conta que a atividade que mais a tocou nos vários meses do projeto foi a distribuição de cestas básicas e kits de higiene e limpeza às famílias na região onde vive, Honório Gurgel, Zona Norte do Rio de Janeiro, nos primeiros meses da pandemia ainda em 2020. “Eu não ia pra rua, ficava mais em casa ligando para as famílias, mas só de fazer isso eu ficava muito feliz. A gente sentia a felicidade na voz das pessoas”, diz. Uma iniciativa do UNICEF, Fundação Abertis e Arteris, em parceria técnica com a Agência de Redes para Juventude, no Rio de Janeiro, o projeto Geração que Move mobilizou os jovens para se expressar e atuar em suas comunidades ante a pandemia.

Milena conta que o projeto também lhe trouxe aprendizados inéditos sobre os direitos de crianças e adolescentes, bem como a oportunidade de falar sobre isso em sua comunidade. “As pessoas que moram aqui acham que não têm direitos, que só quem mora em Copacabana têm direitos”, conta Milena. E completa: “decidimos levar para rua e para as redes sociais a divulgação sobre cada lugar de efetivação dos nossos direitos, explicar pra que serve, o que significa”. Milena se refere à ação “Direito não é Favor”, que incluiu a produção e fixação de lambes nos territórios, já no início de 2021.

Ela conta dos vários desafios para um acesso pleno a seus direitos no seu território. Em relação à pandemia, por exemplo, Milena aponta a precária estrutura de serviços de saúde – há apenas duas unidades de pronto atendimento (UPAs) na região, com falta de profissionais – e o descaso da população em relação aos cuidados para evitar a propagação do vírus. “No começo fiquei receosa de sair de casa, vi que muita gente se descuidava, não usava máscara, e que muita gente que ficou desempregada estava na rua passando dificuldades”, lamenta.

A falta de mobilidade decorrente das condições de segurança pública e de transporte também marcam seu dia a dia. “Quando eu saía pra ir pra escola, estava escuro ainda, ficava muito receosa no caminho até o ponto”, relembra a jovem. Já quanto à barreira da mobilidade, Milena destaca o valor da passagem como principal ponto. “É um transporte público, mas não é público, tem que tirar um monte de dinheiro do bolso pra ter acesso. É um absurdo ter que pagar cinco reais para ter acesso a outros lugares”, afirma com indignação.

A pandemia levou Milena a começar a produzir a própria renda. Ao ver a mãe, profissional de administração, e o padrasto, taxista, terem suas rendas abaladas, a jovem começou a pensar estratégias para comprar suas coisas. E conta que encontrou na produção de trufas de chocolate um caminho para fazer o dinheiro que precisa.

Estudante do ensino médio, a adolescente sonha em graduar-se em Medicina – projeto que só vê possibilidade de realizar mais adiante, já que acredita precisar de mais alguns anos de estudo para conseguir ingressar numa universidade pública. Milena fez o ensino fundamental em escolas particulares, com grande esforço da mãe, cujo intuito sempre foi criar condições de a filha ingressar em um escola técnica da rede pública. E deu certo: Milena logo se formará na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), em técnica de telecomunicações.

O ensino remoto forçado pela pandemia foi particularmente desafiador para o aprendizado das matérias técnicas. Depois de muita dificuldade em se organizar na nova rotina escolar, hoje Milena tem como principal meta “acabar meu ensino médio tranquila”. Além disso, vai seguir atuando com outros adolescentes, jovens e suas famílias na sua comunidade.

O ativismo despertado no Geração que Move estimulou Milena e seus amigos a criarem um coletivo voltado para doações às famílias de Honório Gurgel. “Mesmo quando as atividades do projeto se encerrem, o Coletivo Criação segue o trabalho social”, afirma com orgulho.