“Aprendi que o lugar da mulher é onde ela quiser”

Aos 16 anos, Nívia teve contato pela primeira vez com questões de gênero e raça em um projeto apoiado pelo UNICEF. Hoje ela é um exemplo para meninas que vivem uma realidade muitas vezes distante de seus direitos.

UNICEF Brasil
Nívia sorri para a foto e levanta o braço esquerdo em sinal de luta
UNICEF/BRZ/Danielle Pereira

10 Outubro 2019

“Meu nome é Nívia Maria de Lima, tenho 18 anos, e sou monitora do projeto “Hoje menina, amanhã mulher”, iniciativa de empoderamento de meninas no município do Recife, implementada pela Secretaria da Mulher da Prefeitura do Recife, com o apoio do UNICEF e em parceria com o Centro das Mulheres do Cabo. Mas meu envolvimento com o tema começou aos 16 anos, quando participei dessa iniciativa ainda como estudante.

Hoje, eu facilito o aprendizado de outras meninas (e também meninos) sobre igualdade de gênero, direitos sexuais e direitos reprodutivos, enfrentamento do racismo, respeito à diversidade, liderança, poder e enfrentamento da violência contra meninas e mulheres. Minha trajetória é um exemplo de como o conhecimento e acesso aos direitos fazem a diferença na vida das pessoas. Eu conduzo rodas de debate e oficinas com adolescentes e faço relatórios para a prefeitura levar em consideração a opinião das meninas e, assim, implementar políticas públicas com mais qualidade. Também participo de fóruns públicos sobre direitos das meninas, nos quais represento a voz de outras “Nívias” que, como eu, vivem em comunidades de baixa renda, sem acesso a direitos básicos e achando muito natural ter seus direitos violados.

A participação nessa iniciativa como estudante, em atividades na escola e centros comunitários, foi fundamental para a construção e o fortalecimento da minha identidade como mulher negra da periferia. Eu aprendi que o lugar da mulher é onde ela quiser, inclusive dirigindo uma grande empresa ou presidindo um país, por exemplo. Antes eu estava acostumada com a ideia de que o lugar da mulher era dentro de casa, cuidando dos filhos. Temos que desconstruir essa ideia em nossa sociedade para que homens e mulheres, meninos e meninas aprendam o respeito e a igualdade entre os gêneros, eliminando o assédio e a violência sexual. Tenho certeza de que o projeto do qual faço parte contribui para a construção dessa sociedade justa e igualitária.

Durante o projeto, fui contratada como estagiária na Secretaria da Mulher da Prefeitura do Recife para trabalhar na iniciativa “Maria da Penha vai à escola”. Minha função era ensinar a estudantes do ensino fundamental, ensino médio ou educação de jovens e adultos qual a história e como implementar a Lei Maria da Penha, uma lei federal brasileira, cujo objetivo principal é estipular punição adequada e coibir atos de violência doméstica contra a mulher.

Eu vivo com uma tia que tem deficiência. Minha mãe vive na mesma rua com meus quatro irmãos. Nos finais de semana, eu trabalho numa loja de conveniência para ajudar minha tia com as despesas domésticas. E também ajudo a preparar alguns doces que são vendidos em casa. No tempo livre, eu adoro ler, ver documentários e outros filmes com minhas amigas.

O “Hoje Menina, Amanhã Mulher” foi de imensa relevância na minha vida. A realidade na minha comunidade é muito diferente do que a gente vê fora daqui. Descobri que algumas coisas que eram normais não eram, e passei a identificar o que é um assédio, e que é crime. Antes eu via como um elogio. E vejo que muitas meninas veem isso como elogio. O projeto me ajudou a me reconhecer como mulher negra e meus direitos. A mulher é autossuficiente para decidir o que quer vestir, para onde quer ir. A roupa não é um convite, é preciso aprender a respeitar. Eu sei que isso pode ter um impacto na vida de outras meninas. Antes eu não sabia de nada disso, hoje eu sei sentar, conversar, sei diferenciar assédio, exploração sexual, sei que existe uma lei a meu favor.

O projeto fala sobre o cuidado que as meninas e mulheres têm que ter consigo mesmas, direitos reprodutivos. São coisas que a gente não vê. É nosso direito e a gente não sabe. Garanto que, se homens e mulheres tiverem contato com esse conteúdo, teremos uma sociedade bem menos machista.”

Sobre o Hoje Menina, Amanhã Mulher
O Hoje Menina, Amanhã Mulher é um projeto do UNICEF em parceria com a Embaixada Americana para o empoderamento de meninas. No Recife, é desenvolvido com a Secretaria Municipal da Mulher e com o apoio técnico do Centro de Mulheres do Cabo. Cerca de 80 meninas de 13 a 18 anos participam da iniciativa, que teve início em 2017 na capital pernambucana. Após receberem formação em gênero, cidadania e construção de identidade, espera-se que as meninas se tornem multiplicadoras de cidadania em seus territórios.

O projeto integra as ações da Plataforma dos Centros Urbanos 2017-2020, uma iniciativa do UNICEF e parceiros com o objetivo de promover os direitos de cada criança e cada adolescente, especialmente os mais afetados pelas desigualdades existentes dentro de cada cidade.