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Agosto Dourado: como Alice transformou leite materno em solidariedade

Com apoio da rede municipal de saúde do Rio de Janeiro, mãe de primeira viagem passou a doar leite e ajudar bebês prematuros e recém-nascidos

UNICEF
montagem de duas fotos de mãe segurando bebê no colo
UNICEF/BRZ/Caravana Filmes
05 agosto 2026

Quando o pequeno Ramon nasceu, Alice Carolina da Silva, de 33 anos, descobriu que a amamentação exige mais do que instinto. Nos primeiros dias após a cesariana, precisou superar a preocupação com a demora da chegada do leite e aprender, com apoio de profissionais de saúde e de outras mães, os caminhos para que a amamentação acontecesse da melhor forma possível. Aos poucos, as dúvidas deram lugar à confiança. Hoje, Ramon, de quatro meses, é alimentado exclusivamente com leite materno, como recomendado.

Mas há mais na história de Alice e Ramon. Ela conta que durante sua passagem pela maternidade, uma cena ficou marcada em sua memória: um bebê que chorava de fome enquanto a mãe enfrentava dificuldades para alimentá-lo. A experiência a comoveu profundamente e a lembrança daquele bebê permaneceu com ela mesmo depois da alta. Enquanto aprendia a amamentar o próprio filho e recebia apoio da equipe da Clínica da Família Sergio Vieira de Melo, na região do Catumbi (RJ), passou a pensar em outras mães que enfrentavam dificuldades para alimentar seus bebês. Quando descobriu que podia doar parte do leite excedente, não teve dúvidas, e transformou a própria jornada de amamentação em um gesto de solidariedade. Hoje ajuda outros bebês a terem um começo de vida mais saudável

“Eu tenho que doar, eu tenho que doar, porque é muito importante, as crianças precisam”, lembra Alice. Para ela, a doação é uma forma de transformar a experiência da maternidade em cuidado com outras famílias. 

Alice sabe que a doação é um gesto que salva vidas. O leite doado  é enviado ao Banco de Leite Humano, onde é processado e distribuído aos recém-nascidos de baixo peso que estão internados em unidades neonatais e que não podem ser amamentados pelas próprias mães. 

A história de Alice é única, mas os desafios que enfrentou na sua própria experiência da amamentação estão longe de ser exceção. No Brasil, apenas 45,8% dos bebês menores de seis meses recebem aleitamento materno exclusivo. Para Priscila Heusner, especialista em saúde e primeira infância do UNICEF, ampliar esse indicador passa necessariamente pelo fortalecimento das redes de apoio às famílias. “O aleitamento materno não depende apenas da decisão da mulher. Ele depende de uma rede de apoio preparada, de serviços qualificados e de políticas que considerem as diferentes realidades das famílias”, afirma. Segundo ela, o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde por iniciativas como a Unidade Amig a da Primeira Infância (UAPI), e a qualificação do trabalho dos profissionais de saúde e Agentes Comunitários de Saúde ajudam a criar condições concretas para que mais mulheres consigam iniciar e manter a amamentação.

Uma infraestrutura invisível de cuidado

Existe uma ampla rede de apoio, muitas vezes invisível, que começa muito antes da doação e envolve profissionais de saúde, agentes comunitários, salas de coleta e bancos de leite humano espalhados pela cidade. 

médica pinta desenho em barriga de grávida
UNICEF/BRZ/Caravana Filmes

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, a orientação sobre aleitamento materno e doação de leite começa ainda durante o pré-natal. As gestantes recebem informações sobre os benefícios da amamentação, conhecem os serviços disponíveis em suas unidades de saúde e são apresentadas à possibilidade de se tornarem doadoras caso produzam leite excedente. 

Depois do nascimento, a rede continua presente no apoio à amamentação e doação. As unidades fornecem recipientes esterilizados, materiais para garantir a coleta segura e orientações sobre como realizar a ordenha e armazenar o leite em casa. Na avaliação de Gustavo Alexandre, gestor da Clínica da Família São Sebastião, no bairro do Caju, o sucesso dessas iniciativas está na continuidade do cuidado. “A gente trabalha o aleitamento materno do pré-natal até o puerpério. Além das consultas, o acompanhamento inclui grupos educativos, visitas domiciliares e espaços dedicados ao apoio à amamentação”, afirma. 

Esse acompanhamento faz parte de uma estratégia que vem sendo desenvolvida na cidade há alguns anos. Hoje, o Rio de Janeiro conta com 38 unidades de Atenção Primária que possuem Salas de Apoio à Amamentação e trabalham a captação de leite humano. O leite doado é, então, encaminhado a dois Postos de Coleta credenciados na Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano e, dali, segue para as maternidades municipais. Mais de 2 mil profissionais já foram capacitados para atuar na promoção, proteção e apoio à amamentação.

A estrutura construída nos últimos anos também inclui 33 unidades certificadas pela Iniciativa Unidade Básica Amiga da Amamentação (IUBAAM) e 12 Salas de Apoio à Mulher Trabalhadora que Amamenta, destinadas a mulheres que precisam conciliar a amamentação com a rotina profissional.

Um dos diferenciais da estratégia adotada no município é que a responsabilidade pela logística não recai apenas sobre as mães. Após receberem orientação sobre a coleta e o armazenamento do leite, as doadoras contam com o apoio de agentes comunitários de saúde (ACS), que acompanham as famílias e recolhem semanalmente os frascos armazenados nos domicílios. O leite segue então para as unidades de saúde, onde é armazenado antes de ser encaminhado aos bancos de leite das maternidades da rede municipal.

profissional de saúde posa para foto em frente a unidade de saúde
UNICEF/BRZ/Caravana Filmes

Atuando na região do Caju, a agente comunitária de saúde Maísa Torres acompanha de perto esse trabalho. Além de orientar as mães sobre a doação, ela ajuda a esclarecer dúvidas e mostrar o impacto que cada contribuição pode ter. “A gente explica que uma gotinha é muito importante”, conta. Segundo ela, muitas mulheres se emocionam ao perceber que o leite excedente pode ajudar bebês que enfrentam os primeiros dias de vida em condições mais delicadas.

Um litro de leite pode alimentar até 10 recém-nascidos

O leite recolhido passa por processos rigorosos de análise e controle de qualidade antes de ser destinado aos bebês que precisam dele. Todo o percurso é pensado para garantir segurança e preservar as propriedades nutricionais e imunológicas do leite humano. 

funcionária de banco de leite olha para estoque em geladeira
UNICER/BRZ/Caravana Filmes

No dia em que a equipe do UNICEF acompanhou essa trajetória, os frascos recebidos na Clínica da Família São Sebastião, um dos dois Postos de Coleta do município, seguiram para uma maternidade da rede municipal. Muitos deles passaram pelas mãos da agente comunitária de saúde Maísa Torres antes de chegar ao destino final. Ali, sete bebês estavam sendo alimentados com leite humano doado por mães como a Alice. 

Os principais beneficiados por essa rede são recém-nascidos internados em unidades neonatais, especialmente prematuros extremos. Segundo Zilda Santos, apoiadora técnica da Secretária Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, o leite humano representa muito mais do que alimentação nesses casos. "Ele atua não só como nutrição, mas também como uma medicação potente", explica. 

Algumas dessas crianças nasceram com poucas semanas de gestação e pesando apenas algumas centenas de gramas. Para elas, o leite humano ajuda a proteger contra infecções e fortalecer um organismo ainda em desenvolvimento. Por isso, cada frasco coletado pela rede pode representar uma oportunidade a mais de recuperação e crescimento.

Histórias como a de Alice ajudam a mostrar que a doação de leite humano não depende apenas da boa vontade das mães. Ela depende de informação, apoio e de uma rede preparada para acolher as famílias desde a gestação até os primeiros anos de vida. É essa combinação que permite que um gesto individual se transforme em uma corrente de cuidado capaz de alcançar bebês que a doadora talvez nunca venha a conhecer.

Enquanto Alice acompanha o crescimento de Ramon, ela gosta de imaginar que parte daquilo que produz também está ajudando a salvar outras crianças. Afinal, como ela própria resume: "a gente está ajudando outro filho fora da nossa barriga", finaliza.

Para implementar a UAPI, o UNICEF no Brasil conta com a parceria estratégica de Roche, Huggies, Pfizer e MSD, por meio do programa global MSD para mãe.

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