Adolescentes líderes e na ativa

No projeto Ativa 027, em Vitória, no Espírito Santo, Anne e Kauã aprenderam a importância de discutir direitos do seu dia a dia, entre eles o da alimentação saudável

UNICEF Brasil
30 junho 2021

Anne Karolyne Saldanha tem 17 anos, e Kauã Vacileski tem 15. Os dois moram em bairros da periferia de Vitória, no Espírito Santo, e cresceram com muitas questões sobre a sociedade em que vivem. Ao se encontrarem no projeto Ativa 027 – uma iniciativa do UNICEF em parceria técnica com o Centro de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds) –, descobriram que têm muito em comum.

Anne e Kauã já eram engajados em projetos em suas comunidades, mas foi no Ativa 027 que encontraram uma rede de apoio emocional com outros adolescentes da região, bem como a oportunidade de debater e explorar temas como equidade e diversidade de gênero, identidade étnica e racial, saúde mental em tempos de pandemia, além de amamentação e alimentação saudável.

Esse é justamente um dos temas que mais chamou atenção dos adolescentes durante o projeto e os fez mudar seus hábitos. Kauã conta que, para ele, a pandemia foi um momento de desafio para a sua saúde física e mental. Sem poder sair de casa ou ir para a escola, ele, que era ativo e gostava de praticar luta e jogar bola, acabou deixando de cuidar do seu corpo, deixando de lado a prática de atividade física e os cuidados com a sua alimentação.

Foi então que participou da oficina "Alimentação Saudável e Nutrição" no Ativa 027, com mais 230 adolescentes e jovens. Lá, Kauã aprendeu que poderia melhorar sua alimentação aos poucos, provando novos alimentos, e acrescentando alimentos saudáveis no seu dia a dia. Antes, ele tinha a impressão de que para ter uma alimentação saudável era necessário restringir certos alimentos e cortá-los de vez. “A gente aprendeu que, para ter uma alimentação saudável, não precisa ser uma ‘pessoa fitness’, basta balancear a alimentação”, conta.

Uma adolescente e sua filha bebê fazem pose para a foto.
Arquivo pessoal
A adolescente Anne Karolyne Saldanha com a filha, Mariah, de 1 ano e 8 meses.

O benefício se estendeu para a família inteira. “Aqui em casa mudou bastante. Comíamos lasanha, coisas congeladas. Eu comentei com minha mãe o que aprendi no projeto: que essas comidas congeladas são muito processadas, e fazem mal para a saúde. Então ela começou a comprar mais fruta, verdura”, conta.

Na casa de Anne não foi diferente. A adolescente, que era seletiva na hora de escolher os alimentos, aprendeu a provar pouco a pouco novos sabores. “Depois que participei da oficina, comentei com todo mundo em casa e nossa alimentação mudou: diminuímos fritura, comemos mais verduras, tomamos mais suco da fruta”. E logo completa: “Agora estou comendo verdura todo dia no almoço, na janta. Como uma fruta de manhã, bato um suco e tomo”.

Se a família toda saiu ganhando, os novos hábitos estão sendo comemorados especialmente na vida das crianças. Anne é mãe de Mariah, de 1 ano e 8 meses, e Kauã é pai de Lunna, de apenas 4 meses. Na oficina, os adolescentes também aprenderam sobre alimentação para crianças de até 5 anos, e contam que buscam implementar os conhecimentos na vida das filhas. Mariah foi amamentada por Anne que, mesmo com dificuldades no processo, conseguiu seguir amamentando até hoje, complementando a alimentação dela com outros alimentos. Lunna, filha de Kauã, apesar de ainda ter 4 meses, já vai se beneficiar dos princípios que o pai aprendeu enquanto for crescendo: “Dar uma frutinha, evitar açúcar e refrigerante”, explicou o adolescente.

Direito a ter direitos

Para além da alimentação saudável, os adolescentes tiveram espaço para discutir outros temas do cotidiano durante o Ativa 027. Equidade e diversidade de gênero é um dos que chamou a atenção de Anne, e o racismo estrutural foi mais um tópico que Kauã pôde levar para dentro de sua casa, com o objetivo de compartilhar o que tinha aprendido com a sua família.

“Existem coisas que a gente acha que são normais, mas interferem no nosso dia a dia. Por exemplo, quando aparecia uma mulher negra de cabelos naturais na televisão, minha mãe criticava. E eu fui explicando que era uma forma de resistência e de luta. Eram questões que eu já vinha pensando, mas o Ativa 027 fortaleceu mais”, comenta o pai da Lunna.

Na verdade, o projeto permitiu a descoberta do direito de ter direitos. Ambos contam que o contato com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por exemplo, veio a partir do Ativa 027. Para eles, ter agora a noção acerca dos seus direitos e das leis que os contemplam é fundamental. “Temos muitos direitos e não sabíamos, até mesmo dentro da escola”, pontua Kauã.

Ter este espaço de fala também tem ajudado a fortalecer a participação e confiança dos adolescentes. “Agora consigo falar com as pessoas, não guardo mais as coisas pra mim mesma”, diz Anne. “Me deu até uma animada a mais depois que entrei no projeto, porque você conhece pessoas parecidas com você e que, às vezes, nem saberia que são”, completa Kauã.

O adolescente Kauã com a filha, Lunna, no colo olha para a câmera.
Arquivo pessoal
O adolescente Kauã Vacileski, 15 anos, com a filha Lunna, de 4 meses.

Agora, os dois esperam passar esses conhecimentos para as filhas, para que possam crescer se alimentando de forma saudável, entendendo o respeito ao próximo e os seus direitos na sociedade. “Quero ensinar a respeitar todo mundo, não fazer brincadeiras de mau gosto e ensinar que ela tem os direitos dela”, diz Kauã. “Ensinar a nunca julgar as pessoas, nunca julgar sem conhecer ou simplesmente pela cor, e fazer ela saber que tem os direitos dela também”, completa Anne.

Parceria pela alimentação saudável

Para que mais mães, pais, famílias, adolescente e jovens tenham acesso à informação como Kauã e Anne, o UNICEF, em parceria com a empresa de seguros Axa, atua para promover a alimentação saudável em diferentes espaços. No projeto Ativa 027, os adolescentes já participaram de três formações sobre "Alimentação Saudável e Nutrição". Entre os temas incluídos, estão alimentação saudável de acordo com o guia alimentar da população brasileira, grupos alimentares, leitura de rótulos, gestação saudável, aleitamento materno e introdução alimentar.

Foram mais de 230 adolescentes e jovens entre 12 e 24 anos participando das formações sobre alimentação saudável, incluindo 68 gestantes ou pais e mães de crianças de até 5 anos que também passaram pela formação sobre Aleitamento Materno e Cuidados com Crianças de até 5 anos.