Sistema de alertas fortalece proteção de comunidades Yanomami na Amazônia
Oficina realizada em São Gabriel da Cachoeira formou novos monitores indígenas para registrar alertas relacionados à saúde, meio ambiente e proteção territorial na Terra Indígena Yanomami
Amazonas, 30 de abril de 2026 - Um grupo de 18 indígenas Yanomami participou de uma nova oficina de formação para uso do Sistema de Alertas, em São Gabriel da Cachoeira (AM). O encontro, realizado entre os dias 23 e 26 de março, teve como objetivo formar novos monitores indígenas para utilizar a ferramenta desenvolvida para fortalecer respostas rápidas e articuladas a situações de risco relacionadas à proteção territorial, saúde, nutrição, água, saneamento e proteção de crianças e adolescentes na Terra Indígena Yanomami.
Realizada em um sítio na região de São Gabriel da Cachoeira, a formação reuniu participantes de diferentes localidades do território para uma imersão sobre o uso da ferramenta, permitindo troca de experiências e aprendizado coletivo entre os monitores indígenas.
Os participantes de diferentes regiões da Terra Indígena Yanomami aprenderam a utilizar celulares e aplicativos para registrar ocorrências relacionadas a invasões, queimadas, problemas de acesso à água, doenças e outras emergências que impactam diretamente a vida nas comunidades.
A iniciativa é realizada pelo Instituto Socioambiental (ISA), com apoio do UNICEF, da Hutukara Associação Yanomami (HAY) e financiamento do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO, na sigla em inglês). A atividade contou com participação e apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Além da formação, os participantes receberam kits com celular, mochila, manual de instruções e camisas com proteção UV para apoiar o trabalho de monitoramento nos territórios.
“O que eu acho mais importante é que os próprios moradores estejam monitorando o território”, afirma Clara Santos Goes, jovem Yanomami da comunidade Maturaka e participante da formação. “Muitas vezes a gente não vê quando os invasores estão chegando. Então eu acho que esse sistema vai facilitar muito a vida do povo Yanomami.”
Para Gustavo Pereira Lins, também da comunidade Maturaka, o sistema representa uma forma de fortalecer a proteção das comunidades e do território. “Quando eu era criança, a gente ouvia muito sobre o medo dos garimpeiros. Agora a gente pode ajudar a monitorar e proteger nossa terra”, diz.
Tecnologia para fortalecer a proteção territorial
O Sistema de Alertas foi desenvolvido para auxiliar organizações indígenas a registrar e organizar denúncias e informações produzidas dentro do território, permitindo que situações de risco cheguem de forma mais rápida e estruturada aos órgãos responsáveis.
Os alertas incluem questões ambientais, territoriais e de saúde, como invasões de garimpo, queimadas, surtos de doenças, desnutrição e problemas relacionados ao acesso à água potável e saneamento.
Construído a partir das demandas das próprias comunidades e organizações indígenas, o sistema busca fortalecer mecanismos locais de monitoramento e resposta, valorizando o conhecimento territorial dos monitores comunitários e ampliando a capacidade das comunidades de comunicar situações de risco às redes de proteção e aos órgãos públicos.
O sistema funciona mesmo em áreas sem conexão contínua com a internet. Os monitores podem registrar informações por meio de fotos, áudios, localização por GPS e descrições dos acontecimentos. Quando conseguem acesso à internet, os dados são enviados para uma central de monitoramento.
“O sistema de alertas é uma ferramenta de monitoramento colaborativo desenvolvida para que as próprias comunidades possam enviar informações sobre riscos no território”, explica Estevão Benfica Senra, analista do Instituto Socioambiental e facilitador da oficina. “A ideia é fortalecer a comunicação e permitir respostas mais rápidas e articuladas.”
Desde o início do projeto, em agosto de 2023, mais de 180 monitores indígenas já foram formados em diferentes regiões da Terra Indígena Yanomami.
Respostas mais rápidas em um território de grandes dimensões
Com quase 10 milhões de hectares entre os estados do Amazonas e Roraima, a Terra Indígena Yanomami é o maior território indígena do Brasil. Mais de 33 mil indígenas vivem em 417 comunidades espalhadas pela região.
As longas distâncias, a dificuldade de acesso e a limitação de infraestrutura tornam o monitoramento territorial um grande desafio para as instituições que atuam na região.
“Hoje nós temos uma capacidade limitada de recursos humanos, logísticos e financeiros para atuar efetivamente em todo o território”, explica Jeisiane Rocha, analista ambiental do ICMBio e chefe substituta do Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio Pico da Neblina. “O sistema de alertas é importante para apoiar essa vigilância territorial e nos ajudar a entender onde acontecem os principais problemas.”
Segundo ela, antes da ferramenta, as informações chegavam de forma fragmentada, por diferentes canais e muitas vezes sem dados suficientes para permitir respostas rápidas. “As informações vinham pulverizadas, por WhatsApp, ligação, recados e até bilhetes em língua Yanomami”, afirma. “Agora esperamos receber informações mais precisas, com coordenadas geográficas, fotografias e dados que ajudem a direcionar melhor nossa atuação.”
A ferramenta também ajuda a compreender como diferentes situações de vulnerabilidade estão conectadas no território. “Um alerta de desnutrição, por exemplo, pode estar relacionado a uma seca extrema, mudanças climáticas ou a uma invasão de garimpo”, explica Jeisiane.
Protagonismo indígena no monitoramento do território
Para a Funai, a participação direta das comunidades indígenas é uma das principais fortalezas do sistema. “O governo não está o tempo todo no território, mas os indígenas estão”, afirma Marcelo Tadvald, antropólogo da Funai e chefe do Serviço de Gestão Ambiental e Territorial da Coordenação Regional do Rio Negro. “Eles vivem lá, conhecem o território e conseguem identificar rapidamente o que está acontecendo.”
Segundo ele, o sistema fortalece a comunicação entre comunidades e órgãos públicos e ajuda a reduzir um dos maiores desafios enfrentados pelas instituições na região: o acesso à informação. “Informação é essencial. Muitas vezes os problemas existem no território, mas não conseguem chegar até nós de forma estruturada”, diz.
Marcelo também destaca a importância de adaptar as ferramentas às realidades culturais e linguísticas dos povos indígenas. “A gente trabalha com muitas línguas, diferentes formas de comunicação e diferentes formas de compreender o território. O sistema ajuda a criar pontes entre essas realidades.”
A oficina realizada em São Gabriel da Cachoeira também contou com a participação de jovens e mulheres indígenas, fortalecendo a atuação comunitária na proteção territorial e ampliando o alcance do sistema nas comunidades.
Proteção de crianças e adolescentes
Além da proteção territorial e ambiental, o Sistema de Alertas fortalece redes locais de proteção de crianças e adolescentes em contextos de maior vulnerabilidade. O UNICEF apoia a implementação da iniciativa na Amazônia com foco no fortalecimento de respostas rápidas e articuladas para situações de risco, especialmente em territórios remotos e de difícil acesso.
No âmbito do sistema, alertas relacionados à água, saneamento e higiene (WASH) são encaminhados diretamente ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY). Para apoiar a organização das respostas, foi desenvolvido um fluxograma que ajuda a definir prioridades e orientar ações em campo.
Os alertas são classificados em níveis de prioridade de acordo com a gravidade das situações identificadas, permitindo respostas mais rápidas para surtos de doenças, problemas de abastecimento de água e outras emergências relacionadas à saúde e ao saneamento.
Entre as ações apoiadas pelo UNICEF estão assistência técnica para estruturação do fluxo de resposta aos alertas, visitas de campo para diagnóstico, incentivo a boas práticas de higiene e apoio a melhorias em sistemas de abastecimento de água e estruturas sanitárias.
Parcerias para fortalecer a rede de proteção
A atuação conjunta entre organizações indígenas, instituições públicas e parceiros técnicos é considerada fundamental para o funcionamento do sistema em uma região marcada por desafios logísticos e grandes distâncias.
Desde o início da construção do Sistema de Alertas participam a Hutukara Associação Yanomami (HAY), a Urihi Associação Yanomami de Roraima e a Associação Wanasseduume Ye'kwana (SEDUUME). Com a ampliação da iniciativa, também passaram a integrar o projeto a Associação dos Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA), a Associação das Mulheres Indígenas Kumirayoma, a Associação Kurikama Yanomami e a Parawamë Associação Yanomami.
As organizações indígenas têm papel central na construção e implementação do sistema, contribuindo para definir prioridades, fortalecer o monitoramento comunitário e articular respostas nos territórios.
O Instituto Socioambiental (ISA) apoia a implementação técnica da iniciativa e a formação dos monitores indígenas. O UNICEF atua no fortalecimento das redes de proteção de crianças e adolescentes e no apoio a respostas rápidas em contextos de vulnerabilidade. A Funai contribui na articulação com as comunidades e no fortalecimento das ações de proteção territorial. O ICMBio apoia a atuação em áreas protegidas e em territórios de difícil acesso.
A Casa de Governo e o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY) também atuam como parceiros estratégicos no fluxo de respostas aos alertas, especialmente em ações relacionadas à saúde, nutrição, água, saneamento e atendimento emergencial nas comunidades.
Para Jeisiane Rocha, do ICMBio, a experiência também mostra como a tecnologia pode ser apropriada pelas próprias comunidades em favor da proteção territorial. “Hoje a comunicação já chegou às aldeias. Antenas, internet, celulares. E agora a gente vê que isso também pode ser usado de forma positiva, para servir a um propósito maior, que é a proteção do território”, afirma.
A expectativa dos parceiros é que o modelo continue sendo ampliado nos próximos anos e possa inspirar iniciativas semelhantes em outros territórios indígenas da Amazônia e do Brasil.
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