UNICEF e UNODC entregam Sala de Geomonitoramento para fortalecer a vigilância territorial do povo Munduruku
Iniciativa integra o projeto SAR-TI, apoiado pela União Europeia por meio do ECHO, e apoia a prevenção aos crimes ambientais e à mineração ilegal no território indígena do Alto Tapajós (PA)
Aldeia Nova Trairão, Munduruku (PA), 9 de agosto de 2025 – No Dia Internacional dos Povos Indígenas, foi realizada a entrega oficial da Sala de Geomonitoramento Munduruku, espaço estruturado para apoiar atividades de monitoramento, vigilância e proteção territorial, contribuindo para a prevenção aos crimes que afetam o meio ambiente no território do povo Munduruku, no Alto Tapajós, no Pará. A iniciativa integra o projeto SAR-TI – Fortalecimento de Sistemas de Alerta Rápido e Resposta a Crimes Ambientais relacionados à Mineração Ilegal do Ouro em Territórios Indígenas, implementado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em conjunto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com apoio da União Europeia, por meio do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (Echo, na sigla em inglês).
“A parceria entre UNODC e UNICEF reflete a complementaridade de mandatos que o Sistema ONU pode oferecer a territórios indígenas na Amazônia. Como guardião da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (UNTOC), o UNODC contribui com sua expertise no fortalecimento de capacidades de prevenção, monitoramento e resposta a crimes que afetam o meio ambiente — como a mineração ilegal do ouro e o desmatamento —, atividades ilícitas que impactam de forma desproporcional os povos indígenas e seus territórios. Nesse contexto a entrega da sala de geomonitoramento representa um componente estratégico, fortalecendo mecanismos de proteção territorial do povo Munduruku do Alto Tapajós na tomada de decisões e incidências baseadas em evidências”, explica Elisangela Sousa, Gestora de Projetos do UNODC.
“O UNICEF agrega a essa iniciativa seu mandato de proteção dos direitos de crianças e adolescentes, ampliando o olhar sobre os impactos socioambientais desses crimes na infância e nas comunidades do Alto Tapajós. Juntas, as duas agências constroem uma resposta que une segurança territorial e proteção social em torno de um mesmo objetivo: o bem-estar do povo Munduruku. A proteção do território é também uma forma de proteger as crianças e adolescentes que vivem nele e garantir seus direitos e seu desenvolvimento”, afirma Gregory Bulit, chefe do Programa de Água, Saneamento e Higiene, Clima, Meio Ambiente e Desastres (WASH/CEED) do UNICEF Brasil.
Localizada na Aldeia Nova Trairão, centro de articulação política e organizacional do povo Munduruku do Alto Tapajós, a Sala de Geomonitoramento representa um marco importante no fortalecimento das capacidades do povo Munduruku para a prevenção das ameaças decorrentes da mineração ilegal, do desmatamento e de outros ilícitos que impactam o território Munduruku. Concebida para fortalecer o monitoramento, a vigilância e a gestão de informações estratégicas, a sala permite que lideranças e monitores indígenas das organizações do Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ atuem de forma mais coordenada na proteção de seu território, ampliando também a autonomia dessas organizações na produção e no uso de dados voltados a denúncias em defesa de seus direitos.
Além dos impactos diretos sobre a floresta, os rios e os modos de vida tradicionais, a expansão da mineração ilegal tem agravado a contaminação por mercúrio nos rios da região, comprometendo a segurança alimentar e a saúde das comunidades Munduruku, com impacto particular sobre mulheres e meninas: a exposição ao mercúrio durante a gestação pode causar danos ao desenvolvimento dos bebês, enquanto a contaminação crônica impacta a saúde física, reprodutiva e o bem-estar das mulheres.
“Essas ameaças podem comprometer sua alimentação, sua saúde, sua circulação, as possibilidades de brincar e até seus processos de aprendizagem. Para crianças e adolescentes indígenas, o território é muito mais do que o lugar onde vivem: é espaço de aprendizagem, memória, cultura e construção de uma identidade coletiva. Proteger o território é também garantir que essas crianças e adolescentes possam crescer, se desenvolver e sonhar”, afirma Aylla Silveira, especialista de Água, Saneamento e Higiene (WASH) do UNICEF.
Espaços como esse integram uma estratégia mais ampla que vem sendo desenvolvida em diferentes territórios indígenas da Amazônia, combinando conhecimentos tradicionais e ferramentas tecnológicas, como imagens de satélite, aplicativos de coleta de dados e georreferenciamento, para fortalecer a autonomia dos povos indígenas na detecção precoce de ilícitos ambientais e na produção de informações próprias sobre seus territórios. Ao consolidar dados e rotinas de vigilância em um espaço físico de referência, a iniciativa amplia a capacidade do povo Munduruku do Alto Tapajós de identificar, registrar e comunicar ameaças, além de facilitar a interlocução com órgãos governamentais responsáveis pela fiscalização e proteção territorial indígena.
“Vivemos um período muito difícil com a entrada do garimpo. O garimpo adoece a vida, adoece o território e destrói as formas de vida das comunidades, afetando também as crianças, tanto física quanto mentalmente. Por isso, esperamos que nossos parceiros continuem fortalecendo nossa luta e nossa resistência na defesa do território”, afirma Ediene Kirixi, coordenadora da Associação de Mulheres Wakoborun.
A entrega da Sala de Geomonitoramento Munduruku responde a uma demanda das lideranças Munduruku, com quem o UNODC desenvolve atividades desde 2023, inicialmente com o diálogo com a Associação das Mulheres Munduruku Wakoborun. Sua construção é resultado do projeto executivo concluído em maio de 2026, no âmbito do projeto Tapajós do UNODC Brasil. Durante a cerimônia de entrega, lideranças Munduruku destacaram a importância do espaço para a proteção do território e para o fortalecimento das estratégias de vigilância e monitoramento e destacaram também como o espaço apoiará a formação dos monitores do coletivo de monitoramento, unindo conhecimentos tradicionais e ferramentas tecnológicas contemporâneas.
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