Encontro em Roraima debate desafios e soluções para a proteção de crianças, adolescentes, jovens e mulheres indígenas
Iniciativa consulta lideranças de 10 regiões sobre situações de risco e as práticas de proteção nos territórios indígenas
Boa Vista, 23 de junho de 2026 - Roraima tem a maior proporção de população indígena do Brasil, com mais de 15% de seus habitantes autodeclarados indígenas, segundo o Censo 2022. Ao mesmo tempo, o estado registra a maior taxa de homicídios de crianças da região Norte, a maior taxa de suicídios de jovens do país, segundo o Atlas da Violência 2026, e um aumento de 331% de medidas protetivas de urgência outorgadas a mulheres indígenas, nos últimos cinco anos, segundo o Tribunal de Justiça de Roraima. É nesse contexto que fortalecer a proteção de crianças, adolescentes, jovens e mulheres indígenas se torna ainda mais importante, visando a garantia de direitos, a prevenção de violências e a promoção do bem-estar das comunidades.
Com esse objetivo, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR), com apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), realizaram, ao longo de dois dias, uma consulta que reuniu 89 lideranças de 10 regiões do Estado, na comunidade indígena Tabalascada, no município do Cantá, em Roraima. A atividade reuniu coordenadores regionais de juventude, coordenadoras regionais de mulheres indígenas da organização e lideranças comunitárias para dialogar sobre estratégias de prevenção e enfrentamento das violências que afetam crianças, adolescentes, jovens e mulheres indígenas no estado. A oficina contou com a presença de representantes de órgãos do Estado, como Tribunal de Justiça, Ministério Público, Fundação Nacional dos Povos Indígenas e o Ministério da Saúde por meio do Distrito Sanitário Indígena Leste.
A consulta foi feita visando a promoção da Convenção No. 169 da OIT, sobre Povos Indígenas e Tribais, no âmbito do projeto de “Proteção e promoção integral dos direitos de crianças, adolescentes e jovens indígenas na bacia amazônica brasileira", financiado pelo Fundo Fiduciário Multiparceiros para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal Brasileira. A iniciativa parte da necessidade de escuta e construção de conhecimentos que reflitam as percepções, experiências e prioridades no enfrentamento à violência contra os povos indígenas, visando, também, esclarecer falsas crenças atribuídas às populações. A chefe do escritório do UNICEF em Roraima, Tâmara Simão, destaca que só é possível construir respostas efetivas quando as populações são ouvidas e envolvidas.
“A abordagem adotada considera o que cada povo entende por bem-estar, proteção e situações que afetam suas comunidades, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias específicas e diferenciadas, alinhadas ao contexto indígena. Não é possível construir respostas para a proteção de crianças indígenas sem ouvir o que os próprios povos entendem por proteção", afirma.
O encarregado do Escritório de Projetos da OIT para a Amazônia, Raoní do Vale, destaca que a participação e consulta aos povos indígenas é um direito estabelecido pela Convenção nº 169, ratificada pelo Brasil em 2002.
“Todas as medidas legislativas e administrativas que os afetam diretamente devem ser consultadas de maneira livre, prévia e informada, por meio das instituições representativas dos povos indígenas, como o CIR. Políticas públicas de prevenção e medidas protetivas, por exemplo, devem ser culturalmente apropriadas. Não é o mesmo proteger pessoas em territórios indígenas que em grandes centros urbanos”.
O Tuxaua Geral do CIR, Amarildo Macuxi, destaca que a iniciativa faz parte dos esforços do Conselho na defesa dos direitos dos povos indígenas, principalmente os das mulheres e da juventude.
“Esse trabalho reforça nossa coletividade e o enfrentamento das violências que atingem nossa comunidade, nosso povo. Estamos aqui em defesa da liberdade, principalmente da juventude e das mulheres”, explicou.
A Tuxaua Geral do Movimento das Mulheres Indígenas e coordenadora do Departamento de Mulheres do CIR, Kelliane Wapichana, enfatiza que a temática da escuta é importante para o enfrentamento da violência na comunidade.
“O que estamos debatendo é muito importante para as crianças, adolescentes, jovens e mulheres indígenas. O estado de Roraima ocupa o primeiro lugar em feminicídios, em estatísticas graves de violência, e isso, enquanto povos indígenas, mostra o quanto é importante estarmos aqui debatendo essa temática dentro dos nossos territórios, principalmente para buscar estratégias para esse enfrentamento”, disse.
A iniciativa apresenta o que já existe no Sistema de Garantia de Direitos, mas também mapeia os recursos já existentes nos territórios, como regimentos internos, práticas culturais, figuras de confiança e dinâmicas comunitárias que já funcionam como mecanismos de proteção para crianças e jovens, possibilitando o fortalecimento da comunidade para acessar a rede de proteção. Esse mapeamento, de como famílias e comunidades que protegem as crianças, adolescentes, jovens e mulheres, mesmo diante de adversidades, é parte central da metodologia.
O coordenador da juventude indígena da região de Itacutu, Cauã Wapichana, tem apenas 16 anos e já participa dos debates de enfrentamento da violência. O adolescente ressalta que a juventude indígena está enfrentando um momento difícil.
“Que o trabalho que estamos realizando aqui produza resultados concretos, porque a base dessa transformação somos nós: a juventude, as mulheres e as lideranças indígenas. Que os jovens aqui presentes possam compartilhar os aprendizados de hoje com outros jovens, com suas famílias e comunidades, para que juntos possamos fortalecer e melhorar o nosso bem-viver”, disse.
Ao final do processo, as respostas e propostas coletadas serão sistematizadas, culminando na construção de materiais orientativos e informativos com recomendações para lideranças, comunidades e o poder público.
A Oficina de Prevenção e Enfrentamento das Violências Contra Crianças, Adolescentes, Jovens e Mulheres Indígenas de Roraima foi realizada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Ford Foundation, International Indigenous Woman’s Forum (FIMI), Fundo-Brasil ONU, Nações Unidas e Canadá.
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