Seca no sul de Angola: atendimento atempado na comunidade salva crianças desnutridas

A abordagem de gestão de casos de desnutrição na comunidade permite que os voluntários da comunidade identifiquem e iniciem o tratamento de crianças com desnutrição aguda antes que adoeçam gravemente.

Heitor Lourenço
Medicao perimetro braquial
UNICEF/ANG-2021/Luis Nicolau
29 Setembro 2021

Passavam das 7 horas da manhã, Cristina Feliciano, preparava-se para deixar a sua Ombala e começar mais uma jornada de trabalho na comunidade de Cambu, município da Cahama, na provincia do Cunene. Ela é bastante conhecida nas diferentes Ombalas onde acompanha várias crianças menores de cincos anos e mulheres grávidas.

Todos os dias com o seu bloco de notas, o caderno de informação, Cristina e o seu companheiro de equipa, percorrem as aldeias de moto, ou a pe, para identificar crianças com casos de desnutrição e encaminha-las quanto antes para as unidades de saúde.

Em todas as visitas Cristina transporta também a fita colorida para medir o braço das criança e verificar o grau de desnutrição. Para  crianças que estejam no vermelho passamos o papel e encaminhamos para o Centro de Saúde. Aquelas que estão no verde nós aconselhamos a mãe a manter a alimentação.

Trabalho todos os dias com a fita para medir o braço da criança. Aquela que a fita está amarela encaminho para o posto de saúde, se estiver verde dou apenas conselhos sobre alimentação. Quanto está no vermelho é sinal de que está em perigo e tenho que enviar para o hospital” descreve Cristina.

Cristina explica a comunidade os sinais apresentados por crianças desnutridas
UNICEF/ANG-2021/Luis Nicolau
Cristina explica a comunidade os sinais apresentados por crianças desnutridas

A abordagem de gestão de casos de desnutrição na comunidade permite que os voluntários da comunidade identifiquem e iniciem o tratamento de crianças com desnutrição aguda antes que adoeçam gravemente. Os cuidadores fornecem tratamento para a maioria das crianças com desnutrição aguda grave em casa, usando Alimentos Terapêuticos Prontos a Usar (RUTF) e cuidados médicos de rotina.

Quando necessário, crianças gravemente desnutridas que apresentam complicações médicas ou falta de apetite são encaminhadas para internamento e tratamento mais intensivo.

A maior parte dos casos de desnutrição na comunidade de Cambú, devem-se ao desmame precoce e a fome, lamenta Cristina.

O sul de Angola continua a experimentar um dos piores choques climáticos em 40 anos, levando a severas secas, exacerbando a desnutrição aguda. De acordo com o WFP, pelo menos 3,8 milhões de pessoas em Angola enfrentam um consumo insuficiente de alimentos. O número de crianças com desnutrição severa nas províncias do sul aumentou; entre 2018 e 2020, houve um aumento de 55% no número de crianças internadas para tratamento de emaciação grave.

Na localidade onde vive Cristina várias crianças foram afectadas pela falta de alimento e muitas delas acabam por perder a vida nas comunidades por falta de assistência ou acompanhamento. 

Uma das crianças acompanhadas por Cristina, e que felizmente já recupera é Vihita, de 4 anos de idade. Depois de recuperar das desnutrição, verificou-se, numa das visitas, que a mesma já não tinha suplementos nutricionais para dar continuidade ao tratamento. Como recomendação Cristina passou uma nota para que pudesse ser atendida no posto de saúde.

Vihita, de 4 anos de idade consome o suplemento nutricional ajudada pela mãe
UNICEF/ANG-2021/Luis Nicolau
Vihita, de 4 anos de idade consome o suplemento nutricional ajudada pela mãe

 “Quando a criança sai do hospital nós fazemos o acompanhamento na comunidade porque algumas vezes basta receberem a papa, uns não conseguem dar adequadamente as crianças, nós temos que estar a par e passo para fazer o seguimento casa-a-casa para certificar que as crianças recebem os suplementos adequadamente”. Explica Cristina.

Cristina lamenta o facto de algumas mães serem obrigadas a repartir com outras crianças os suplementos nutricionais disponibilizados pela Unidade de Saúde fazendo com que nem sempre o tratamento seja cumprido na integra.  

Com o apoio do UNICEF e o financiamento da USAID, as autoridades tentam suprir a escassez com a disponibilização de mais suplementos nutricionais para as unidades de saúde e minimizar as necessidades, mas a demanda é ainda muito maior que a oferta e precisa-se de mais suplementos, como diz a enfermeira do posto de saúde de Cambu onde são encaminhados vários casos identificados pelos agentes comunitários da localidade.

A gestão dos casos de desnutrição na comunidade faz parte do programa integrado de resposta a desnutrição e já permitiu alcançar mais de 6.500 mães com mensagens sobre nutrição e cuidados com as crianças.

Para alem da gestão comunitária o programa integrado de gestão da malnutrição inclui o reforço dos atendimento nas Unidades de Saúde, tanto no ambulatório como no internamento, por meio da disponibilização de suplementos nutricionais e outros materiais, e também com a capacitação dos técnicos.

Graças ao trabalho de Cristina várias crianças com desnutrição podem ser identificadas nas comunidades e encaminhadas a tempo para a Unidade de Saúde mais próxima.

O apoio da USAID  e do UNICEF têm sido importantes para que mais suplementos nutricionais sejam disponibilizados, mais técnicos de saúde sejam formados e mais agentes comunitários como a Cristina, continuem a salvar  vida de crianças desnutridas.