Mulher lidera comunidade para que todos tenham saneamento

Regedora de uma aldeia na província do Moxico, Maria Mukanda está a lutar pela implantação de um projecto de saneamento para permitir que as crianças e os adultos vivam com mais saúde

Heitor Lourenço, Oficial de Comunicação
Maria Mukanda, regedora desde 2016 da aldeia de Chinhemba, no município do Luau, província do Moxico, mostra a sua latrina, que contém material para lavar as mãos
UNICEF Angola/2018/Marco Prates

14 Maio 2019

Moxico, 14 de Maio de 2019 - Os regedores e regedoras são conhecidos por serem a autoridade tradicional em muitas regiões de Angola. A semelhança dos sobas, eles são símbolos de conhecimento, sabedoria e maturidade, com a responsabilidade de velar pelo bem-estar da população.

Embora seja uma função desempenhada maioritariamente por homens, existem muitas mulheres nesta posição. Um exemplo é Maria Mukanda, regedora há mais de dois anos da aldeia de Chinhemba, que fica no município do Luau, província do Moxico.

Actualmente, uma das suas mais importantes missões é livrar a sua aldeia da defecação a céu aberto. Segundo dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos e de Saúde (IIMS 2015-2016), 30% dos agregados familiares em Angola não possuem instalação sanitária, o que os deixa vulneráveis a doenças como a cólera e a diarreia. Mas a tarefa não é fácil.

A aldeia de Maria foi incluída no programa de Saneamento Total Liderado pela Comunidade (STLC) desenvolvido pela Direcção Provincial do Ambiente do Moxico com o apoio do UNICEF e da Federação Luterana. São um total de 71 aldeias abrangidas naquela província com um total de 49.526 pessoas, sendo que mais de 17 mil agora vivem livre da defecação ao ar Livre.

“Nós costumávamos ir às matas para as nossas necessidades. Nem as mãos lavávamos! Não havia higiene”, conta a regedora. “Na época das chuvas, as fezes e o lixo invadiam a aldeia, causando mau cheiro”, acrescenta.

A aldeia de Chinhemba começou o processo para se tornar livre da defecação a céu aberto em 2017, com a visita dos mobilizadores que chamaram a atenção da comunidade para o problema.

Comunidade da aldeia de Chinhemba, na província do Moxico, posa ao lado da regedora Maria Mukanda
UNICEF Angola/2018/Marco Prates
Comunidade da aldeia de Chinhemba junto a parceiros do projecto: aldeia tem cerca de 350 famílias e já foram construídas 76 latrinas. A meta é que todas os lares tenham a sua.

A estratégia de saneamento

O trabalho de sensibilização começa com a fase denominada “despertar”, onde a comunidade é ajudada a analisar a situação na sua área e a identificar os perigos da defecação ao ar livre.  

A experiência em várias aldeias demonstra que uma comunidade só se envolve quando começa a ter noção dos perigos da falta de higiene e de como a defecação ao ar livre afecta a saúde dos habitantes.

Líderes comunitários como a regedora Maria Mukanda têm um papel decisivo, pois para além de serem uma referência para todos, ajudam na sensibilização das famílias e facilitam o trabalho dos mobilizadores.

Na aldeia de Chinhemba, a regedora conta que aquilo que parecia impossível no início hoje já se tornou mais fácil. Actualmente, já é visível na aldeia a limpeza, os aterros sanitários, os estendais para a roupa e as latrinas, a maior parte delas feitas de barro.

Após mais de 1 ano do início dos trabalhos com a comunidade, a aldeia tem cerca de 350 famílias e já foram construídas mais de 76 latrinas. A meta é que todas as famílias tenham a sua. “Nós ajudamos as famílias a construir as latrinas, os aterros sanitários e os estendais para a loiça, e também pedimos para que as famílias limpem os seus quintais”, explicou a mobilizadora Marilena Cabala, pertencente a Federação Luterana.

A abordagem do Saneamento Total Liderado pela Comunidade é desenvolvida em quatro províncias (Bié, Cunene, Huíla e Moxico) e conta com o apoio do UNICEF. Até Setembro de 2018, cerca de 162 aldeias das 4 províncias, já haviam sido certificadas como livres de defecação ao ar livre, beneficiando mais de 170 mil pessoas. Das aldeias certificadas, 48 estão localizadas na província do Moxico.

A primeira comuna sem defecação ao ar livre em Angola é a de Nhârea, na Província do Bié.  

A aldeia da regedora Maria caminha para a certificação de forma a reduzir as doenças causadas pela falta de saneamento do meio. A semelhança de muitos outros regedores e regedoras no país, a luta pelo bem-estar da comunidade não fica apenas pela higiene e saneamento: Maria Mukanda procura garantir que as suas crianças também estejam na escola e sejam registadas.