A jornada de Abel Voabil com o UNICEF

A minha história começou com um simples convite. Hoje continua a ser escrita graças a uma decisão que finalmente aceitei: não ficar em silêncio.

Abel Voabil
Abel Voabil ajoelha-se ao lado de quatro crianças.
UNICEF/MOZA2026-00768/Voabil
22 Julho 2026

Durante muito tempo, fui apenas um rapaz do bairro de Sinacura, na província da Zambézia. Um jovem com sonhos, mas sem imaginar que a sua voz poderia um dia influenciar decisões, inspirar outros jovens e levá-lo a integrar a equipa do UNICEF.

Curiosamente, a minha história começou com um "não".

Por volta de 2015, dois amigos convidaram-me para fazer parte do Parlamento Infantil. Recusei. Durante quase dois anos continuei a dizer que não, simplesmente porque não compreendia o que era aquele movimento. Para mim, os direitos da criança resumiam-se ao mais básico: brincar, correr e comer.

Foi apenas em 2016 que aceitei o convite. E essa decisão mudou completamente o rumo da minha vida.

Abel Voabil e a delegação de Moçambique no RCOY 2024.
UNICEF Moçambique/2024/Voabil

Quando um compromisso muda uma vida

No Parlamento Infantil comecei a descobrir um mundo que desconhecia. No início, aprendíamos fazendo. Nem sempre sabíamos exatamente como agir, mas havia vontade de aprender e de fazer a diferença.

Foi ali que assumi aquele que considero o primeiro grande compromisso da minha vida: promover, proteger, defender e fiscalizar o cumprimento dos direitos da criança.

Na altura acreditava que estava apenas a trabalhar para melhorar a vida de outras crianças. Hoje percebo que esse compromisso estava, ao mesmo tempo, a transformar a minha própria vida.

A participação ensinou-me que uma criança ou um adolescente não precisa de esperar pela idade adulta para contribuir para a sociedade. A nossa voz tem valor quando encontra espaço para ser ouvida.

Abel Voabil fazendo um discurso no Parlamento de Moçambique
UNICEF Moçambique/2026/Voabil

Quando a voz se transforma em responsabilidade

À medida que fui crescendo dentro do Parlamento Infantil, cresceu também o sentido de responsabilidade.

Mais tarde fui eleito Presidente Provincial do Parlamento Infantil da Zambézia, uma função que desempenhei com enorme orgulho e sentido de missão.

Naquele momento compreendi que a minha voz já não representava apenas as minhas ideias.

Representava milhões de crianças que enfrentavam diariamente desafios relacionados com educação, proteção, saúde, participação e igualdade de oportunidades.

Percebi que liderar significava, acima de tudo, escutar.

Os desafios de ser um jovem líder

Ser jovem líder nunca foi um caminho fácil.

Em muitos momentos senti que a idade era vista como uma limitação. Houve ocasiões em que a opinião dos jovens era desvalorizada simplesmente porque éramos jovens.

Também enfrentei dúvidas e momentos em que parecia mais fácil desistir.

Mas bastava regressar às comunidades, conversar com outras crianças e adolescentes e ouvir as suas histórias para recuperar a motivação.

Via esperança onde muitos viam dificuldades.

Via potencial onde outros viam apenas limitações.

E isso lembrava-me diariamente porque tinha escolhido este caminho.

regressar às comunidades, conversar com outras crianças e adolescentes e ouvir as suas histórias para recuperar a motivação.
UNICEF/MOZA2023-00951/Matos

Solidariedade, acção e compromisso

Ao longo dos anos comecei a mobilizar outros jovens para iniciativas comunitárias de solidariedade, apoio a crianças em situação de vulnerabilidade e promoção dos direitos da criança.

Mais tarde envolvi-me também em iniciativas ligadas ao desenvolvimento comunitário, à participação juvenil e à acção climática, reconhecendo que as alterações climáticas afetam profundamente o presente e o futuro das crianças e dos jovens em Moçambique.

Aprendi que não basta criar políticas para os jovens.

É preciso construir essas políticas com os jovens.

O UNICEF é uma nova etapa

Em 2022 surgiu uma oportunidade que marcou profundamente o meu percurso: fui nomeado Jovem Advogado do UNICEF.

Com essa nomeação nasceu o meu segundo grande compromisso: amplificar a voz de outras crianças, adolescentes e jovens, garantindo que as suas preocupações, ideias e soluções chegassem aos espaços onde são tomadas decisões.

Entre novembro de 2022 e fevereiro de 2026, tive o privilégio de colaborar lado a lado com o UNICEF, apoiando iniciativas de participação de adolescentes, proteção da criança, ação climática e mobilização juvenil.

O UNICEF não me ofereceu apenas oportunidades.

Ofereceu-me confiança.

Mostrou-me que os jovens não são apenas beneficiários dos programas de desenvolvimento.

São parceiros fundamentais na construção de soluções.

Durante este percurso tive também a oportunidade de representar jovens moçambicanos em diferentes espaços nacionais e internacionais, dialogando com parceiros, governos e organizações sobre os desafios e as prioridades da nossa geração.

Foi uma experiência que me fez perceber que, independentemente do lugar de onde viemos, uma voz preparada e apoiada pode chegar muito longe.

Abel Voabil e a Representante do UNICEF Moçambique.
UNICEF/MOZA2026-00951/Assane

Construindo juntos uma participação mais forte

Ao longo desta caminhada compreendi também que nenhum jovem transforma a realidade sozinho.

Por isso, tive o privilégio de integrar e apoiar a Plataforma de Participação dos Adolescentes e Jovens, reforçando o trabalho conjunto entre diferentes movimentos juvenis.

Através desta plataforma aprendemos que trabalhar em rede torna a nossa voz mais forte, reduz esforços duplicados e cria oportunidades para que mais jovens participem de forma organizada e significativa nas decisões que afetam as suas vidas.

De jovem advogado a profissional do UNICEF

Embora seja um grande sonhador, nunca imaginei que o percurso iniciado no Parlamento Infantil me levaria a integrar profissionalmente a equipa do UNICEF.

Hoje tenho a honra de trabalhar como UNV na organização que, durante tantos anos, acreditou no potencial da juventude moçambicana e investiu na sua participação.

Ao entrar para esta equipa, não deixei de ser aquele jovem.

Continuo a ser a mesma pessoa que acreditava que todas as crianças mereciam ser ouvidas.

A diferença é que agora disponho de mais ferramentas, mais experiência e uma maior responsabilidade para transformar essa convicção em resultados concretos.

Abel Voabil
UNICEF/MOZA2023-00921/Matos

Gratidão a quem acreditou

Nenhuma caminhada se faz sozinha.

Ao olhar para trás, reconheço que muitas pessoas abriram portas para que eu pudesse crescer.

Educadores, colegas, líderes comunitários, parceiros, amigos e profissionais do UNICEF acreditaram em mim quando eu ainda estava a descobrir o meu próprio potencial.

A todos eles deixo a minha profunda gratidão.

O investimento que fizeram num jovem da Zambézia não mudou apenas uma vida.

Criou condições para que esse jovem pudesse contribuir para mudar muitas outras.

Abel Voabil, Jovem Advogado do UNICEF Moçambique.
UNICEF Moçambique/2026/Voabil

Levar outras vozes mais longe

Hoje, uma das maiores motivações do meu trabalho é criar oportunidades para que outros adolescentes e jovens também encontrem o seu espaço.

Quero que a minha história não seja uma exceção.

Quero que seja uma entre milhares.

Porque sei, por experiência própria, o impacto que uma oportunidade pode ter quando chega no momento certo.

Uma mensagem para o futuro

Se há uma lição que esta jornada me ensinou, é que ninguém é demasiado jovem para fazer a diferença.

O futuro não começa amanhã.

Constrói-se hoje, através de cada ideia, de cada iniciativa e de cada compromisso assumido.

Aos jovens deixo esta mensagem:

Não tenham medo de levantar a vossa voz. Mesmo quando parece pequena. Mesmo quando pensam que ninguém está a ouvir. Uma única decisão pode mudar o rumo da vossa vida, tal como aconteceu comigo.

Às instituições, aos parceiros e à sociedade deixo um apelo:

Continuem a acreditar nos jovens. Criem espaços de participação genuína. Abram portas. Invistam no seu potencial.

Porque quando damos voz aos jovens, não estamos apenas a ouvir uma nova geração.

Estamos a formar os líderes que irão transformar Moçambique.

A minha história começou com um simples convite que recusei.

Hoje continua a ser escrita graças a uma decisão que finalmente aceitei: não ficar em silêncio.

Jovens Advogados do UNICEF Moçambique
UNICEF/MOZA2026-00921/Assane