De jornais usados à Prémio Revelação: a arte de Larah inspira soluções para o ambiente
Moçambique gera cerca de 4.2 milhões de toneladas de resíduos por ano. As baixas taxas de reciclagem agravam a poluição do solo e da água, obstroem sistemas de drenagem e aumentam riscos ambientais e de saúde pública.
O que muitos viam como lixo, Larah Mustafa Catopola viu como possibilidade. Com jornais usados, restos de capulana, cascas de coqueiro, palhinhas e latas de refresco usadas e outros materiais reaproveitados, a adolescente moçambicana transformou num ponto de partida para criar arte, proteger o ambiente e inspirar outros jovens. Essa criatividade levou-a a destacar-se no Prémio Jovem Criativo, onde venceu a categoria de Criação Artística, tendo adquirido o Prémio Revelação Nacional com o projecto “Do Jornal a Obra de Arte”.
Aos 16 anos, Larah frequenta a 12.ª classe na Escola Secundária Josina Machel, em Maputo, e apresenta-se com orgulho como artista plástica. O seu projecto nasceu no final de 2022, com o apoio do pai, que lhe mostrou que materiais simples, muitas vezes descartados, que podiam ser transformados em arte.
“Comecei a produzir as peças com o meu pai. Ele mostrou-me a arte como alternativa para que não ficássemos em casa sem fazer nada no período de isolamento na pandemia da COVID-19”.
O que começou como uma actividade em família tornou-se uma rotina de criação artística: depois das aulas e aos fins-de-semana, Larah recorta, enrola, cola, pinta e organiza cada detalhe para as suas obras que também já são uma fonte de renda para a adolescente.
Uma família que apoia e participa
Dentro de casa, jornais que antes poderiam ser deitados fora passaram a ser guardados. Restos de tecido ganharam uma nova utilidade. Alguns alfaiates da comunidade também contribuem, oferecendo sobras de capulana sempre que possível. Aos poucos, o projecto de Larah passou a envolver além da família, a comunidade à sua volta. Até agora, Larah já produziu cerca de 200 peças de arte com materiais reaproveitados, contribuindo para reduzir o volume de resíduos descartados e mostrando, na prática, como a criatividade pode apoiar a protecção ambiental. Materiais antes destinados ao descarte continuam em circulação e ganham nova vida nas suas obras, num exemplo de economia circular.
O pai apoia nas pinturas e na organização das obras. A mãe ajuda no recorte dos tecidos, dá sugestões sobre as cores e incentiva a filha a continuar. As irmãs mais novas participam na recolha de jornais e outros materiais.
Em família, Larah encontrou segurança e apoio para desenvolver o seu talento. A mãe de Larah lembra que a iniciativa surgiu num período difícil, mas abriu uma oportunidade importante de aprendizagem.
“Foi uma forma de ocupar as crianças. No início era só para entreter, mas a Larah levou a sério. Foi descobrindo que podia dedicar-se a algo que poderia melhorar a sua vida e o seu dia-a-dia”, conta.
O reconhecimento no Prémio Jovem Criativo
O reconhecimento veio através da XI edição do Prémio Jovem Criativo 2025, uma iniciativa nacional apoiada pelo UNICEF, em parceria com o Ministério da Juventude e Desporto, com financiamento do Ministério Federal Alemão para a Cooperação Económica e Desenvolvimento (BMZ). O prémio reconhece e promove a inovação, o empreendedorismo e a criatividade juvenil em Moçambique, incluindo soluções ligadas às mudanças climáticas, reciclagem, economia circular e ambiente.
Para Larah, participar no Prémio Jovem Criativo foi mais do que uma oportunidade de expor as suas peças. Foi uma confirmação de que a sua ideia tinha valor e podia inspirar outras crianças e adolescentes a olhar para os resíduos de forma diferente. “Quem mais se beneficia da minha arte é o meio ambiente”, diz Larah. A vitória como Revelação Nacional deu-lhe mais confiança para continuar a criar, aprender e sonhar mais alto.
A participação no Prémio Jovem Criativo marcou um momento importante no percurso de Larah. Ao apresentar o seu projecto “Do Jornal a Obra de Arte”, focado na reciclagem de jornais, tecidos e outros materiais para produção artística, a adolescente mostrou como jornais, tecidos, cartão e outros materiais descartados podem ser transformados em obras de arte com maior valor cultural e económico. Larah venceu a etapa provincial, como também foi distinguida como vencedora na categoria Revelação ao nível nacional.
O reconhecimento reforça o papel do Prémio Jovem Criativo como uma plataforma que dá visibilidade ao talento dos jovens e incentiva soluções criativas para desafios reais nas comunidades. Para o UNICEF e os seus parceiros, iniciativas como esta mostram como adolescentes e jovens podem desenvolver soluções locais para reduzir o desperdício, promover a reutilização de materiais e fortalecer a educação ambiental.
“As minhas obras representam Moçambique através das mulheres. Representam a força da mulher moçambicana e o seu dia-a-dia: as mulheres que carregam lenha, que vivem e trabalham nas suas comunidades. As comunidades que represento mostram a mulher moçambicana e a mulher africana”, explica Larah.
Ao representá-las no seu dia-a-dia, Larah valoriza a identidade cultural à sua volta e demonstra como adolescentes podem contribuir para comunidades mais conscientes e sustentáveis em relação ao clima.
O processo criativo começa com uma base de cartão, muitas vezes reaproveitada de caixas de papelão. Depois, o jornal é cortado e enrolado em canudos, que servem para formar o corpo das figuras. Por fim, Larah acrescenta detalhes como capulanas, lenços, chapéus e pedaços de lenha, dando identidade e estética a cada obra.
O impacto do seu percurso já desperta interesse em algumas escolas, onde Larah poderá partilhar a sua experiência com outros alunos, especialmente raparigas da sua idade.
“Gostaria de representar o nosso país a nível internacional, mostrando a moçambicanidade”, diz Larah. “O meu sonho é ter um ateliê próprio, onde possa expor, vender e ensinar outras crianças e adolescentes a transformar materiais simples em arte”.
Larah também sonha em ser engenheira informática. Para ela, a tecnologia pode ajudar a divulgar a sua arte, criar novas oportunidades e aproximá-la de pessoas dentro e fora de Moçambique. No futuro, imagina unir arte e tecnologia para inspirar outros jovens a acreditarem no seu potencial.
A história de Larah mostra que, quando crianças e adolescentes recebem apoio, espaço e encorajamento, podem desenvolver soluções criativas para os desafios à sua volta. Com o apoio de iniciativas como o Prémio Jovem Criativo, apoiado pelo UNICEF e financiado pelo BMZ, adolescentes como Larah transformam resíduos em arte, ideias em oportunidades e talento em inspiração para um futuro mais sustentável.