A história de superação de uma mãe com deficiência

Ancha Matamo quer mostrar que apesar da deficiência, também é capaz de trabalhar e ajudar o próximo

Damien Hazard
Ancha Pilale Matamo, 27 anos, é residente do Distrito de Dondo, nas proximidades da Beira, província de Sofala.  Ancha tem deficiência física e cuida sozinha dos seus três filhos, dos quais um tem igualmente deficiência.
UNICEF Moçambique/2019/Damien Hazard

10 Julho 2019

BEIRA, Moçambique - Ancha Pilale Matamo, de 27 anos de idade, é residente do distrito de Dondo, nas proximidades da Cidade da Beira, província de Sofala. Ancha tem deficiência física e cuida sozinha dos seus três filhos, dos quais um também tem uma deficiência.

A deficiência física da jovem mãe não a impede de ajudar o próximo, ela é activista de Reabilitação Baseada na Comunidade, programa conhecido como RBC, que promove o apoio e reabilitação de pessoas com deficiência.

Ancha faz parte do grupo de 20 activistas de RBC formados pela International Child Development Programe, num workshop organizado pela Light for the World, através de fundos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), no âmbito do projecto de apoio a inclusão e alívio para raparigas, rapazes, mulheres e homens com deficiência em resposta ao ciclone Idai.

A formação visava dar capacitação técnica aos activistas, para que possam prestar apoio psicossocial nas comunidades onde trabalham, nomeadamente Beira, Dondo e Búzi, e poderá beneficiar directamente perto de 3 mil pessoas com deficiência, afectadas pelo ciclone Idai.

Para Ancha esta formação é uma grande oportunidade não só para expandir os seus conhecimentos, mas igualmente para superar alguns medos e dificuldades que enfrentava, como mulher e pessoa com deficiência.

"Gostei muito desta formação sobre apoio psicossocial. Ganhei nova informação para que possa apoiar as famílias e as pessoas com deficiência. Com os novos conhecimentos que adquiri quero ajudar a reabilitar e construir novos pensamentos na comunidade, e vai ajudar-me a lidar melhor com meu próprio filho que é uma criança com deficiência e seus medos depois da passagem do ciclone aqui na nossa província," disse Ancha.

Gostei muito desta formação sobre apoio psicossocial. Aprendi muitas coisas novas que vão me ajudar a apoiar as famílias e as pessoas com deficiência, e vai ajudar-me também a cuidar melhor do meu filho que é uma criança com deficiência.

Ancha Pilale Matamo.

O impacto psicológico e social na emergência é geralmente muito profundo e que pode minar a saúde mental e o bem-estar da população afectada a longo prazo, por isso é tão importante suprir estas necessidades tanto quanto satisfazer necessidades óbvias como acesso a água potável, alimento, assistência médica e acomodação.

 

Ancha faz parte do grupo de 20 activistas de RBC formados pela International Child Development Programe, num workshop organizado pela Light for the World, através de fundos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), no âmbito do projecto de apoio a inclusão e alívio para raparigas, rapazes, mulheres e homens com deficiência em resposta ao ciclone Idai.
UNICEF Moçambique/2019/Damien Hazard
Ancha faz parte do grupo de 20 activistas de RBC formados pela International Child Development Programe, num workshop organizado pela Light for the World, com apoio do UNICEF, no âmbito do projecto de apoio a inclusão e alívio para raparigas, rapazes, mulheres e homens com deficiência em resposta ao ciclone Idai.

Deficiência versus Descriminação

A história de Ancha é muito triste, e de muita dor. A sua deficiência física foi causado pelo seu próprio marido, agora fugitivo, que causou a amputação do seu braço esquerdo, numa tentativa de assassinato em 2012.

"Fui traída, espancada e meu esposo ainda me tentou matar. Ele cortou-me o braço com uma catana para se vingar por eu ter descoberto sua traição com uma prima minha. Foi muito duro e difícil de superar, principalmente por que na altura estava grávida. Esta situação afectou igualmente o meu filho que acabou nascendo com hidrocefalia e epilepsia, que os médicos acreditam que tenha sido causada pelo tipo e quantidade de medicamento que tomava para alivar as dores por que naquela altura nem sabia que estava grávida".

Hoje, Ancha acredita que é uma bênção ter conseguido ser activista de RBC, por que antes ela tinha muita vergonha de ser pessoa com deficiência.

"Eu sentia muita vergonha por causa da minha deficiência. Me trancava e me cobria para esconder minha deficiência. Mas depois apercebi-me que não devia me esconder e nem deixar de ser quem eu sou," no entanto, a descriminação que Ancha sentia começava mesmo no seio familiar. "Sofria muita humilhação e descriminação em casa. Meus pais diziam que todo meu esforço é nulo, e que meus certificados de nada valiam por que era uma pessoa com deficiência e isso me afectava muito. Mas hoje não baixo a cabeça e mostro que posso servir de exemplo vivo na minha comunidade. Não quero nem vou pedir esmola na rua só por que sou pessoa com deficiência. Quero mostrar que apesar da deficiência, também sou capaz."

Segundo Ancha, o Programa de Reabilitação Baseada na Comunidade serve de inspiração para querer ser uma pessoa melhor todos os dias e a ajudar outras pessoas com deficiência a superarem suas dificuldades.

"Fazer parte do RBC mudou muita coisa na minha vida. Tenho um filho com deficiência em casa e há muitas coisas que fazia e não sabia que era errado. Mudou minha forma de olhar a deficiência, de cuidar do mim e do meu filho," concluí Ancha.

O UNICEF criou uma parceria com a Light for the World em Moçambique para proporcionar inclusão e ajuda a crianças, adolescentes, mulheres e homens com deficiência que foram afectados pelo ciclone Idai, na província de Sofala.

A Light for the World estima que cerca de 111,000 meninas, meninos, mulheres e homens com deficiência foram diretamente afetados pelo ciclone Iday.