A Primeira Infância na Maré
Impactos da violência armada na saúde e imunização de crianças até 6 anos de vida
Highlights
Crianças de 0 a 6 anos e gestantes do Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio, têm o direito à saúde e à imunização ameaçado pela rotina de violência armada, que interrompe o funcionamento dos serviços de saúde e gera medo e restrição de circulação para famílias e profissionais em dias de operações policiais. O estudo “A Primeira Infância na Maré: impactos da violência armada na saúde e imunização de crianças até 6 anos de vida”, realizado pela Redes da Maré e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), revela que a violência armada tem triplo impacto: compromete o acesso contínuo à saúde, perpetua desigualdades estruturais e ameaça o direito à vida plena na primeira infância.
Ao analisar o período de 2024 e primeiro semestre de 2025, a pesquisa mostra que as taxas de vacinação na primeira infância sofreram quedas significativas, de mais de 90%, em dias que há operação policial em alguma das 15 favelas que compõem o conjunto. Os resultados foram obtidos a partir do cruzamento de dados de vacinação do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) e registro de operações policiais do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, da Redes da Maré, que há dez anos acompanha e coleta dados durante as operações policiais no território.
Em 2024, foram 43 dias com operações policiais e, em 22 desses dias, ao menos uma das seis unidades de saúde do território precisou fechar. Os números revelam ainda uma redução preocupante: em dias sem operações policiais e com funcionamento normal das unidades, são aplicadas, em média, 187,3 doses, vacinando 89 crianças em todo o território. Nos 22 dias de operação policial em que ao menos uma unidade fechou, esse número despencou para 20 doses aplicadas e um total de 9 crianças vacinadas. Isso representa uma redução de cerca de 90% no número de crianças vacinadas e doses aplicadas por dia. Uma redução média de 167,3 doses e 80 crianças não vacinadas no dia.
O estudo também demonstrou uma redução no número de crianças vacinadas mesmo nos 14 dias em que houve fechamento apenas parcial das unidades de saúde (queda de 62% na aplicação de doses e de 64% no número de crianças vacinadas) ou os 10 dias em que elas funcionaram normalmente, apesar das operações policiais (queda de 82% tanto no número de doses, quanto de crianças vacinadas).