Uma nova forma de fortalecer o desenvolvimento infantil durante a pandemia

A pandemia de Covid-19 fez com que visitadores e famílias participantes do Programa Criança Feliz (PCF) precisassem se readaptar para não deixar nenhuma criança para trás

UNICEF Brasil
09 setembro 2020
duas mulheres estão na cerca de entrada de uma propriedade rural
Arquivo pessoal – Silmara Bezerra

A rotina já era estabelecida. Em diversos municípios do Brasil, todos os dias, de manhã bem cedo, visitadores e visitadoras do Programa Criança Feliz – do Ministério da Cidadania e que vem recebendo apoio das Nações Unidas a partir da assinatura do Programa Conjunto Fundo ODS (Joint Programme SDG Fund) entre a ONU e o governo brasileiro, em dezembro de 2019 – partiam para começar as visitas domiciliares nas casas das famílias que acompanham. Ao longo do dia, atendiam várias famílias, que os recebiam para realizar atividades de desenvolvimento com crianças de até 6 anos de idade. Quando a pandemia de Covid-19 chegou, novos desafios surgiram. Sem poder ir até as famílias, visitadores e visitadoras criaram novas formas de manter contato e de seguir trabalhando pelo desenvolvimento integral das crianças.

Desde o início do período de isolamento social, as visitas domiciliares estão suspensas em diversos municípios. Em Rondon do Pará, no estado do Pará, no Norte do Brasil, a rotina de visita às famílias ganhou uma adaptação: virou uma rotina de gravação de vídeos e ligações. Toda semana, visitadores e visitadoras, em dupla, realizam a gravação de vídeos com as atividades da semana, divididas por faixa etária, para as famílias.

Para isso, a visitadora Clea Nascimento criou um grupo de WhatsApp com as mães das famílias que acompanha, pelo qual repassa os vídeos que grava toda semana. “As famílias gostaram da ideia, porque não ficamos parados. Elas interagem bem, estão sempre atentas, mandam fotos e vídeos das crianças fazendo as atividades da semana, e a gente segue sempre incentivando”, conta Clea.

Pollyanna Silva é mãe de Anna Vitoria, acompanhada pela visitadora Clea, e tem recebido as atividades para fazer em casa com a filha. A menina, de 2 anos, tem sido acompanhada pelo programa desde os seis meses. Para a mãe, é claro o desenvolvimento da pequena, que, com as atividades, já aprendeu as cores e palavras novas. “Fizemos uma atividade legal de pegar um pedaço de papelão, pintar e pendurar para ensinar as cores para a criança. Agora, quando ela pega objetos com cor, ela já sabe e fica nos perguntando quais são as cores certas”, diz a mãe, orgulhosa.

Essa é apenas uma das atividade que reflete bem o que o Programa propõe. Todas são feitas assim: com materiais que a família tem na própria casa, como caixas de ovos, garrafas pet, papelão e outros recicláveis. A partir disso, os visitadores criam atividades sensoriais, que estimulam o desenvolvimento de equilíbrio, coordenação motora e cognitiva a depender das necessidades de cada criança. Durante a pandemia, esse método ajudou ainda mais a manter as famílias realizando as atividades.

foto de diversos brinquedos educativos
Arquivo pessoal – Silmara Bezerra

Superando dificuldades
Mesmo com os esforços, um desafio importante a ser enfrentado surgiu nos municípios: muitas famílias não têm acesso à internet ou um celular, e não podem receber as atividades dessa forma. Por isso, para garantir que ninguém fique para trás, o programa precisou se reinventar, e visitadoras e visitadores criaram mais formas de se adaptar a cada contexto.

Em Iguaracy, no estado do Pernambuco, no Nordeste do Brasil, a equipe começou a desenvolver um caderno de atividades, que contém diversas brincadeiras e incentivos que a família pode realizar em casa com a criança, e que entregam nas casas ao final de cada mês. Durante a entrega, aproveitam para conversar com as famílias e saber como tem sido realizar as atividades, além de orientar os próximos passos.

Com todos os equipamentos de proteção individual, como máscaras, luvas e usando o álcool em gel, visitadoras e visitadores respeitam a distância de 1,5 metro e não entram nas casas. “Essa é uma forma de manter as crianças sem acesso à internet se desenvolvendo e realizando as atividades. A gente tenta fazer com que o isolamento social não impacte no desenvolvimento da criança e nem no vínculo que fizemos com elas”, conta a visitadora Silmara Bezerra, que já trabalha no PCF há três anos.

A mãe de Karen Araújo, de 5 anos, tem recebido as atividades em casa. Recebe apoio do Programa Criança Feliz desde a sua gestação. Mesmo com acesso à internet, tem enfrentando outros desafios. A gestação de Aline Araújo foi complicada. Desde o início, sofreu com uma gravidez de risco e, aos três meses, descobriu que estava com zika. Naquele momento, ainda não se sabia muito sobre o vírus, nem sobre suas consequências. Foi apenas depois do nascimento de Karen que veio o diagnóstico: a pequena nasceu com microcefalia.

Agora, Karen já é acompanhada pelo Programa Criança Feliz há três anos. Antes da pandemia, as visitas domiciliares aconteciam quinzenalmente. A microcefalia e a paralisia cerebral fazem com que Karen tenha certa dificuldade motora e cognitiva, o que é sempre trabalhado durante as atividades. Mas, neste momento de pandemia, ela não pôde seguir com seus acompanhamentos de saúde rotineiros, como fisioterapia e fonoaudiologia.

Por isso, para a mãe, as atividades do programa têm sido importantes para estimular a menina, para que ela continue com seu desenvolvimento, que já mostra resultados. “Com as atividades do programa a gente consegue estimular, sem ela ficar parada. Tem que ter criatividade para as atividades e, na correria do dia a dia, falta criatividade para saber o que fazer pra poder suprir as necessidades de uma atividade diferente”, conta Aline.

Participando do PCF e com as atividades em mãos, mesmo em meio a pandemia, o desenvolvimento de Karen é notável. Em uma das atividades, a mãe montou um pequeno varal com brinquedos pendurados, para que a menina tirasse um a um. “No início ela tinha muita dificuldade, mas hoje ela já levanta os braços pra pegar os brinquedos”, comemora Aline. “Foi uma gestação conturbada e só de Karen ter nascido é uma vitória grande”.

Sobre o Fundo ODS
Para que mais crianças tenham oportunidades como as de Anna Vitória e Karen, o UNICEF está liderando um conjunto de agências das Nações Unidas no Brasil para fortalecer os serviços públicos direcionados à primeira infância. Esse trabalho conjunto ocorre no contexto do Programa Conjunto Fundo ODS (Joint Programme SDG Fund), que tem como objetivo incentivar os países a acelerar o alcance dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de uma maneira integrada, com o apoio do Sistema ONU. No Brasil, cerca de 1 milhão de famílias e cuidadoras e cuidadores de crianças de até 6 anos devem ser beneficiados pela ação em dois anos.

O Programa Conjunto Fundo SDG tem como meta aumentar a participação e retenção dos municípios elegíveis ao Programa Criança Feliz, aumentando o número de beneficiários do programa, além de fortalecer as capacidades dos profissionais do PCF e a qualidade das intervenções multissetoriais, apoiando o Ministério da Cidadania a fortalecer as intervenções e ações voltadas às crianças e gestantes.