“Sem as mulheres que vieram antes de mim, eu não seria nada”
Ludimila Carvalho dos Santos usa a poesia para celebrar sua ancestralidade e lembrar cada menina de sua potência e de seus direitos.
“Falar de consciência negra é lembrar da resistência passada, é celebrar Dandara e Zumbi dos Palmares, e lembrar que, hoje, a gente é que está aqui, transmitindo conhecimento para que as meninas negras não desistam dos seus sonhos”.
Ludimila Carvalho dos Santos, 17 anos, mora no Quilombo Dona Jucelina, em Muricilândia, Tocantins, e leva a voz da sua comunidade para o mundo por meio da poesia. Com um texto de sua autoria, inspirado na força de uma mulher que questiona as desigualdades e se engaja na política e na causa ambiental, ela ficou em primeiro lugar no Festival Flow Delas: celebrando a potência de meninas negras e indígenas, realizado pelo UNICEF para marcar o Dia Internacional da Menina, 11 de outubro.
“A representatividade das meninas e mulheres negras, dos territórios tradicionais, em espaços como o UNICEF, é necessária”, diz ela, explicando a motivação para participar do festival.
“As meninas precisam ocupar espaços de liderança o quanto antes. Aqui no Quilombo Dona Jucelina, existe um conselho de Griôs (que têm por vocação preservar e transmitir os saberes do seu povo pela tradição oral) responsável por engajar as meninas nos espaços de liderança”.
Ludimila respira arte. A fotografia e a poesia sempre fizeram parte de sua vida. Desde cedo, ela acompanha o pai, que é fotógrafo, em coberturas documentais da tradição do povo quilombola. A fotografia acabou servindo como passaporte para que Ludimila tivesse acesso a rezas particulares de sua matriarca e às mais diversas expressões culturais do seu povo: a dança, o batuque, as cantorias, a arte falada, as rezas cantadas, chamadas de bendito. “Isso me trouxe uma responsabilidade a mais. Eu comecei a fazer fotografias documentais e acabei ocupando espaços dentro e fora do meu povo”.
Nas comunidades tradicionais, as crianças levam essa cultura adiante. “É um conhecimento gigantesco que a gente recebe. A gente precisa extrair esse conhecimento popular, valorizar as pessoas que estão contando a história dos nossos ancestrais há mais tempo. É necessário que nasçam novas flores, novas esperanças todos os dias, principalmente em tempos difíceis”. Com a pandemia de Covid-19, Ludimila não pode se envolver em atividades presenciais. “Eu gostaria de falar de antirracismo no olho no olho, mas o que estamos vivendo não nos permite isso”. Então, ela usa as redes sociais para reafirmar a importância da história das mulheres negras da sua comunidade. “Sabemos que a mulher negra é alvo triplicado de perseguições. Sem as mulheres que vieram antes de mim, eu não seria nada, não ocuparia os espaços que ocupo hoje”. E deixa a sua mensagem: “Peço para que nossas meninas não desistam de seus sonhos. Aí está nossa maior arma. Que não abram mão do seus desejos e continuem brigando por suas causas coletivas, principalmente que dizem respeito ao povo negro do Brasil e afrodescendente”.
ELOS (S)EM CHAVES
Bem perto daqui,
Ali no mundo dos sonhos
Voa longe do chão
Chaves sem elos
Que pairam sobre uma singular paixão.
No belo castelo, onde os preciosos pés alcançam o solo,
Chaves juntam os pedaços perdidos
Do pergaminho escrito pelas próprias mãos, os põem no colo,
Promete a deus recomeço
E à provisão roga, que dela nunca tire o sossego da visão.
Agora de pé, apreciando a vista,
Do nunca visto aos olhos cegos
Renova o olhar paralelo
Que ver na liberdade a única saída
Da prisão que acordada limita
Os horizontes que trazem verdade,
E Justiça, poder e opinião,
E a todas que cegas assistem, serve de lição.
Na mesma posição, com o poder da imaginação,
Segue quebrando grilhão, que um a um destrói o flagelo,
Com a fórmula despedaçada reatada
Torna inteira a dama, Chaves que em pedaços estava,
Atada, reatada, atada, sem trapos,
Ao oponente encara, a companheira direciona,
E ao donzelo em elo questiona:
“Você come farelo?”
Observando na sua criação, a ave que se alimenta,
Do triturado milho-amarelo,
Em sequência deve a ela toda reverência
O mundo, que é seu pertence, onde ela é dona,
No perdão repense, e use como solução,
O respeito como bordão.
De frente ao combate, nos duelos travados,
Nos ares ou em terra,
Na guerra, quem manda é ela,
Sem intervalos, os cavalos sela,
Cavalga até a vitória, escreve seu nome na história,
Conquista toda a glória, e sozinha sonha,
O lugar onde suas chaves tranquem a vergonha
E deixe para sempre livre a pressa em prece
Que guarda no coração: “Eu sou minha própria inspiração”.