Saúde sexual: informação de adolescente para adolescente

Em Urbano Santos (MA), os integrantes do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA) se reuniram para falar de igual para igual sobre saúde sexual com meninas e meninos do município

UNICEF Brasil
UNICEF/BRZ/Taciano Brito

04 fevereiro 2020

Caixinhas espalhadas durante algumas semanas em diversas escolas do município de Urbano Santos, no Maranhão, foram o ponto de partida para debater com os adolescentes um tema às vezes encoberto pela vergonha: saúde sexual e saúde reprodutiva. Em cada caixinha, os estudantes podiam depositar, anonimamente, qualquer dúvida que tivessem relacionadas a assuntos como métodos contraceptivos, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez na adolescência, entre outros.

A dinâmica foi organizada pelos integrantes do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCAs), estratégia do Selo UNICEF para efetivar o direito de adolescentes à participação. Na cidade maranhense, os integrantes do grupo decidiram entrar com tudo na ação. “A gente teve a ideia de criar uma caixa surpresa porque esse tema é difícil, muitos adolescentes se sentem presos para falar sobre isso”, explica a mobilizadora de adolescentes Kelly Correia.

Para muitas meninas e muitos meninos, saúde sexual e saúde reprodutiva são tópicos que não aparecem com frequência nas conversas com a família. Fabricio Sousa, 18 anos, membro do NUCA, acredita que a conversa deveria ser comum desde a infância, mas, muitas vezes, a vergonha e a falta de abertura para tratar do assunto com os pais impedem que isso aconteça. “Esse tema é mais conversado na roda de amigos, até como uma forma de brincadeira, não vem como algo tão sério. E isso não é saudável”, opina o adolescente.

Conversa de igual para igual
Com base nessas vivências, os integrantes do NUCA decidiram mudar a realidade de Urbano Santos e falar sobre saúde sexual e saúde reprodutiva de uma forma diferente: de adolescente para adolescente. A ideia era promover o diálogo sobre o tema, trazendo as dúvidas à tona, ajudando a saná-las e abrindo espaços de conversa e troca.

Para que a ação desse certo, os membros do NUCA começaram buscando informação. Com as perguntas das caixas em mãos, organizaram as dúvidas e convidaram um profissional de saúde para uma roda de conversa. “Percebemos que as perguntas eram muito parecidas, a maioria dos adolescentes tinha as mesmas dúvidas” conta Fabricio. Junto com o profissional, organizaram as respostas para cada pergunta – e aproveitaram para tirar as próprias dúvidas.

Com todos mais informados, era hora de reunir as meninas e os meninos do município. Buscando que o diálogo alcançasse o maior número de pessoas, o NUCA organizou um evento no ginásio da cidade e convidou todas as escolas da região a participar.

Lá, abriram a caixa com as perguntas selecionadas e contaram com a presença de enfermeiros para responder às dúvidas. “Por conta do assunto tratado, pensamos que a ação não teria sucesso. Mas, quando fizemos, ficamos maravilhados”, relembra Kelly. Com o ginásio lotado, adolescentes de todas as escolas do município puderam conversar sobre saúde sexual e saúde reprodutiva, e tirar dúvidas, em um ambiente de troca e educação de adolescente para adolescente.

UNICEF/BRZ/Taciano Brito

Mais informação para cuidar de si
Membro do NUCA, Sanaeli de Medeiros ficou muito feliz em ver o tema discutido entre os adolescentes. Aos 17 anos, a menina conta que saúde sexual é um tema sensível no município. “Urbano Santos tem um fluxo muito grande de adolescentes grávidas. A minha mãe, por exemplo, me teve aos 18 anos”, diz ela.

Sandra Carvalho, mãe de Sanaeli, quer uma história diferente para a filha. “Eu não quero ter filhos agora e minha mãe me apoia. Estou focada nos meus estudos, e na faculdade que vai vir no próximo ano”. Desde que entrou no NUCA, a adolescente conta que tem mais abertura para falar sobre o assunto, o que a ajuda a cuidar de si e compartilhar informação com seus amigos e amigas.

Para Fabricio, esse é o principal fator de sucesso da mobilização: abrir as portas para uma conversa de igual para igual sobre saúde sexual e saúde reprodutiva no município. “O legal disso tudo não foi envolver só adolescentes, mas também crianças que não conversavam com seus pais sobre o tema e se abriram para nós, jovens”, diz. A ação foi tão positiva que, pouco depois, o grupo decidiu repetir a dose e criar uma feira cultural sobre gravidez na adolescência, inserindo outros temas pouco discutidos com os adolescentes do município, como drogas.

Mariana Rodrigues, 17 anos, integrante do NUCA, acredita que diálogo e informação são elementos-chave para ajudar outros adolescentes a que se cuidem e não tenham vergonha de falar sobre determinados temas. Para ela, o NUCA é o espaço em que podem fazer isso, unir vozes e se tornar multiplicadores. “Nós somos o futuro, e a nossa conscientização desde agora vai refletir no que vamos ser amanhã. É um protagonismo jovem. Agora, a gente tem voz e vez”, sorri.