Saúde mental sem tabu

Rebecca Basi, de 18 anos, decidiu se dedicar a descomplicar o tema para adolescentes e jovens

UNICEF Brasil
Foto mostra uma jovem sentada na frente de um computador. Ela está olhando para a câmera. Na tela do computador está o logo do projeto Movimento Saber Lidar Jovem
Arquivo pessoal
14 outubro 2021

Ano de vestibular. Coração apertado, com dúvidas sobre o futuro, muito estudo e poucas horas de lazer. E ainda, em meio a tudo isso, a pandemia da covid-19, sem poder aproveitar o último ano de escola com os amigos e usar a tão sonhada beca de formatura. Esse foi o terceiro ano do ensino médio para Rebecca Bassi, de 18 anos, que se sentia exausta.

Moradora da Vila Kosmos, na periferia do Rio de Janeiro, por diversas vezes a falta dos aparelhos adequados e da internet para manter o estudo remoto durante o isolamento social dificultaram ainda mais a rotina. “Eu era Jovem Aprendiz, de manhã ia para o trabalho, de tarde ficava vendo aulas no YouTube e de noite fazia as atividades da escola. Eu não tinha notebook na época, não tinha nada, então era tudo pelo celular”, conta. Por causa dos desafios diários, o medo de não alcançar o sonho de cursar a faculdade de Jornalismo ia aumentando. “Foi horrível, eu não via uma perspectiva de que seria aprovada, achei que estava tudo perdido”, relembra. “Todo mundo virava e falava que era besteira. Eu acabei indo parar no hospital por exaustão, e foi aí que eu vi que alguma coisa eu tinha que fazer para ajudar”, recorda.

Naquele momento estava chegando o Setembro Amarelo, e após a sua própria experiência, o tema da saúde mental de adolescentes e jovens começou a chamar a atenção de Rebecca. “Fui me aprofundando no assunto e querendo levar para os meus amigos da escola, porque também estavam passando pela mesma coisa”, conta. “Muitos desistiram do vestibular, sentiram que não era possível para eles; outros estavam ficando muito irritados, estavam querendo sair logo disso. Vi muitos amigos largando a escola porque achavam que eles não tinham mais esperança”, completa.

Desde então, a adolescente começou a pesquisar sobre o tema e querer saber cada vez mais como reverter esse cenário. Foi por isso também que, buscando uma oportunidade como Jovem Aprendiz, Rebecca se deparou com a plataforma 1 Milhão de Oportunidades, iniciativa do UNICEF e parceiros que busca gerar oportunidades para adolescentes em situação de vulnerabilidade. Lá, ela encontrou uma vaga de estágio na Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec), e, por conta do crescente interesse no tema, decidiu tentar a oportunidade. E conseguiu.

Saúde mental para todos e todas
Quando Rebecca iniciou o estágio, ainda estava no ensino médio, passando por todos os desafios pessoais, como estudante e da pandemia. Para ajudar a passar por essa etapa, ela participou do projeto sobre saúde mental Promover para Prevenir, do UNICEF em parceria com a Asec. A vontade de seguir atuando em cima do tema só aumentou, mas dessa vez ela veio acompanhada da vontade de descomplicá-lo. “Saúde mental é algo muito interessante, que tem que ser falado, discutido. Mas sempre que buscamos na internet existem somente textos acadêmicos difíceis. Queremos deixar isso de forma mais fluída, acessível”, diz.

Foi assim que, junto com outras duas colegas estagiárias de Santa Catarina e do Mato Grosso do Sul, Rebecca entrou em ação e cofundou o Movimento Saber Lidar Jovem, que trabalha por meio da comunicação para trazer o debate sobre saúde mental de forma leve e lúdica para mais adolescentes e jovens. Atualmente, no Movimento, Rebecca tem trabalhado na produção de conteúdos online sobre conceitos básicos como o que é saúde mental, saúde emocional, e autocuidado na prática, incentivando ações diárias. Por meio das redes sociais, qualquer pessoa pode ter acesso aos conteúdos.

O Movimento Saber Lidar Jovem também tem atuado com produção de conteúdo para o projeto Geração Zelo, do UNICEF em parceria com a Asec, uma plataforma digital que permite que adolescentes e jovens entre 14 e 24 anos percorram trilhas de aprendizado para observar as próprias emoções, cultivar o autocuidado, relações saudáveis e aprender a lidar com desafios. Rebecca e outros jovens são responsáveis por produzir vídeos, textos, podcasts e muitos outros conteúdos para estimular a educação entre pares sobre saúde mental. “Ainda existe um estigma muito grande no tema, mas, se você leva de uma forma melhor, mais espontânea, no final as pessoas recebem”, explica a jovem.

Hoje, Rebecca entende a importância de promover o autocuidado, e também começou a aplicá-lo. Todo o caminho percorrido levou a que a jovem não fosse apenas aprovada em uma faculdade, mas em duas: ela agora cursa o sonhado Jornalismo, e ainda decidiu se desafiar a estudar Ciências Sociais. Depois de tantos momentos de incerteza, Rebecca finalmente encontrou um caminho para ajudar mais e mais adolescentes a acreditarem no seu próprio potencial e cuidarem de si mesmos.

Por isso, deixa o recado: “Você já é uma pessoa no mundo, não precisa fazer nada para provar para ninguém além de você. Sua saúde mental é essencial, porque, sem ela, você vai sentir que está faltando alguma coisa, que você não foi suficiente. É necessário parar um pouco, e cuidar de você”, conclui.