“Quase desisti de estudar”

Ter acesso gratuito à internet foi essencial para o jovem Moisés de Oliveira concluir o ensino médio e fazer o Enem

UNICEF Brasil
Foto mostra o rosto de um jovem sorridente. Ele está fazendo o sinal de vitória com os dedos.
Arquivo pessoal – Moisés de Oliveira
31 maio 2021

“É bastante complicado fazer o Enem tendo passado o ano estudando online. Com o ensino a distância, é muito mais difícil de aprender”, afirma Moisés de Oliveira, 18 anos, nascido e criado no bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, mais especificamente na Favela do Aço. Moisés cursou o último ano do ensino básico em plena pandemia da Covid-19. Com a interrupção do ensino presencial, o jovem viu de frente a desigualdade de oportunidades para alunos da rede pública conquistarem uma vaga na universidade. “Me senti inferior competindo no Enem com as pessoas de classe-média-alta-zona-sul”, lamenta em tom indignado.

“Eu sempre fui bom aluno”, reconhece Moisés com orgulho. Ao concluir o ensino fundamental em escola municipal do bairro de Santa Cruz, foi orientado pelos educadores a cursar o último ciclo em escola estadual de referência localizada no centro da cidade. Entretanto, a falta de recursos para o transporte impediu de alçar esse voo, levando o jovem a seguir os estudos na escola estadual ao lado de sua casa – que não foi tão estimulante. Além do ambiente escolar pouco acolhedor, a quantidade de matérias e a necessidade de alinhar o tempo de estudo dentro e fora da escola se mostraram grandes desafios. Quando começava a se adaptar à nova dinâmica de aprendizado, chegou a pandemia em 2020 e com ela o ensino remoto, situação que quase levou Moisés a abandonar o estudo.

“Foi tudo muito desorganizado, os professores passavam os deveres de noite e não tinha aula mesmo, só texto e exercício no aplicativo”, conta Moisés sobre a metodologia de ensino implementada em sua escola. Quando enfim recebeu o material pedagógico impresso, só no segundo semestre, Moisés já estava quase desistindo. “Eu já tinha chegado a uma fase que queria largar e só voltar quando voltasse ao presencial. Não sentia que estava adquirindo conhecimento”, afirma o jovem.

A tela pequena dificultou o uso de certas ferramentas e a leitura dos materiais pedagógicos. Apesar do acesso à internet limitado pelo celular, Moisés se considera um privilegiado por possuir um smartphone. “Conheço muita gente que precisou pedir um celular emprestado para estudar”, afirma ele.

A qualidade de conexão foi outra barreira. Apesar de sua família ter assinado recentemente o serviço de banda larga, nem sempre há recurso suficiente para quitar essa despesa. “Querendo ou não a pandemia impactou as finanças de casa, não temos pra pagar todo mês”.

Diante de tanta dificuldade, o apoio para concluir o ensino médio e fazer o Enem veio dos amigos e também da participação no projeto Geração que Move, realizado pelo UNICEF, a Arteris e a Fundação Abertis, em parceria técnica com a Agência para Juventude no Rio de Janeiro. Durante o projeto, no final de 2020, Moisés recebeu um kit de conectividade doado pelo UNICEF.

“Recebi um celular e acesso à internet. Consegui aumentar minhas horas de estudo porque eu passei a ter internet de graça”, afirma o jovem. Com os novos recursos e a ajuda de uma amiga, Moisés entrou para um curso pré-vestibular, no qual teve apoio especial de um professor de redação que atuou como mentor, oferecendo encontros individuais. Ainda assim, o jovem sentiu-se despreparado para fazer o exame.

“Foram só três meses pra me preparar e eu nunca tinha feito Enem. Muita coisa que eu tinha estudado não estava lá, fiquei nervoso, não parava de tremer. O menos desesperador foi a redação, porque, querendo ou não, eu tive ajuda, e o tema foi muito bom”, relata o jovem, que sempre desejou ingressar no curso de Administração, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Mas a principal conquista foi ter tido apoio para não desistir, concluir o ensino médio e seguir com o projeto de entrar na faculdade.

Com os novos aprendizados das atividade do Geração que Move, Moisés começou a pensar em outras carreiras. “Estou dividido entre seguir fotografia ou ser humorista... Quero trazer um pouco de sorriso pra vida das pessoas”, diz. As atividades de criação audiovisual do projeto proporcionaram um contato inédito com a experiência de filmar e atuar, abrindo espaço para a descoberta de novos interesses e talentos. “Aprendi a me expressar muito mais. Conheci os direitos dos jovens, coisa que nenhum dos meus amigos sabia... Enxergo o mundo com outros olhos agora”, conclui.