Profissionais indígenas trabalham em prol de crianças migrantes

Estima-se que 4 mil indígenas waraos, da Venezuela, estão no Brasil. Em Manaus, migrantes da etnia trabalham com o UNICEF para garantir o acesso das crianças aos seus direitos básicos

UNICEF Brasil
15 setembro 2020
um menino pequeno lava as mãos enquanto é orientado por uma mulher que está ao lado dele
UNICEF/BRZ/Michell Melo
Criança lava a mão no abrigo Tarumã-Açu, em Manaus, onde vivem hoje 158 indígenas da etnia warao. Monitores da própria comunidade trabalham para prevenir e mitigar os impactos da Covid-19 entre a população.

Das mais de 260 mil pessoas da Venezuela que cruzaram a fronteira com o Brasil desde o início da crise naquele país, cerca de cinco mil são indígenas. Estima-se hoje que quatro mil waraos, uma das maiores comunidades indígenas da Venezuela, tenham migrado em busca de melhores condições de vida.

Muitos cruzam a fronteira em extrema vulnerabilidade. Nos estados de Roraima, do Amazonas e do Pará, o UNICEF apoia as autoridades locais para garantir que as crianças da etnia warao e suas famílias tenham acesso a saúde, água, saneamento, higiene, educação, proteção e informação.

Para isso, é essencial o trabalho conjunto com profissionais da própria comunidade, que garantem que os serviços cheguem a essa população da forma adequada e ultrapasse a barreira do idioma, já que muitos não falam espanhol nem português. Conheça a seguir dois monitores que estão empenhados na tarefa de garantir os direitos básicos à sua comunidade em Manaus.

um homem olha para a câmera sorrindo. ele usa um colete onde se vê o logotipo da Adra.
UNICEF/BRZ/Michell Melo
Nelson Rojas é migrante venezuelano warao e trabalha com o UNICEF em Manaus como monitor de saúde no abrigo Tarumã-Centro.

Nelson Rojas, monitor de Saúde e Nutrição
Nelson Rojas chegou ao Brasil há pouco mais de um ano. Saindo do estado de Monagas, na Venezuela, percorreu mais de 800 quilômetros desde o delta do Rio Orinoco até chegar à fronteira. Lá em seu país, deixou o trabalho de tradutor de espanhol para o idioma warao, em uma escola da comunidade. “Devido à crise econômica, me senti pressionado porque o salário não era mais suficiente para sustentar a minha família”, relembra ele, que adorava o trabalho.

Decidiu vir ao Brasil. Cruzou a fronteira em Pacaraima, no estado de Roraima, e passou um tempo em Boa Vista, capital roraimense, até chegar a Manaus. Enquanto estava no abrigo para migrantes waraos, gerenciado pela Operação Acolhida – a resposta do Governo Brasileiro à crise migratória venezuelana –, destacou-se por sempre se voluntariar para fazer traduções. Foi assim que conseguiu a oportunidade de fazer um curso para ser monitor de saúde.

“Quando recebi a notícia, eu estava indo para a Venezuela levar comida para a minha família, e voltei rapidamente. Foi grande a emoção por ser um trabalho do qual gosto muito”, conta. Durante quatro semanas, aos sábados, Nelson passou por treinamento. Com o certificado em mãos, recebeu sua missão: trabalhar pela saúde e nutrição das crianças waraos de até 5 anos e mulheres grávidas.

Nelson é hoje um dos monitores comunitários da Adra, parceira do UNICEF, que atua nos abrigos para garantir que as famílias estejam com saúde em dia, incluindo o calendário de vacinação e acompanhamento nutricional, e prevenidas contra a Covid-19. As atividades contam com o apoio financeiro do Escritório de População, Refugiados e Migração (PRM) do Departamento de Estado do Estados Unidos.

Para Nelson, é muito importante contar com pessoas da própria comunidade warao nessas ações, inclusive por causa do idioma, já que que muitas famílias ainda estão se adaptando ao português e ao espanhol. “Eu quero seguir trabalhando e contribuindo com o que tenho no Brasil. Assim como os brasileiros me ajudaram muitas vezes quando cheguei”, diz o monitor.

uma mulher em pé fala para adolescentes sentadas
UNICEF/BRZ/Michell Melo
Adolescentes waraos recebem orientações de Daisy sobre como se prevenir contra a Covid-19 no abrigo Tarumã-Centro, em Manaus.

Daisy Perez, monitora de Educação e Proteção
O UNICEF também mantém espaços onde meninas e meninos podem retomar a infância após a difícil jornada de migração: os Súper Panas. Em Manaus, o projeto promove atividades educativas e de apoio psicossocial em parceria com as Aldeias Infantis SOS Brasil. Nesse espaço, a língua e as tradições da comunidade warao são integradas ao projeto enquanto se ensina sobre o novo país de acolhida.

Daisy Perez é indígena e já trabalhava há 15 anos como professora de comunidades na Venezuela. Quando decidiu vir ao Brasil há quase dois anos, junto com o pai e os irmãos, teve que deixar muita coisa para trás, inclusive os dois filhos. “Por causa da crise, mesmo trabalhando como professora, o dinheiro não era suficiente”, conta.

Assim que cruzou a fronteira em Pacaraima, Daisy seguiu para Boa Vista, onde começou a trabalhar em projetos de educação para crianças migrantes. Agora, em Manaus, já não vive mais em abrigos e conseguiu trazer um dos filhos para o Brasil. A sua motivação é trabalhar para que a sua comunidade se integre como ela no novo país.

foto tirada de cima mostra uma mulher sentada no chão com seis crianças deitadas de bruço em volta dela. Todos olham pra cima, para a câmera, Estão todos de máscara.
UNICEF/BRZ/Michell Melo
Crianças waraos do abrigo Tarumã-Centro participam das atividades no espaço Súper Panas.

Com a pandemia, 22 espaços Súper Panas abertos em Roraima, Amazonas e Pará continuam funcionando, mas adaptados para evitar o contágio pela Covid-19. O número de crianças e adolescentes foi limitado a 10 por vez, e máscaras e a higienização de mãos é parte integrante das atividades. “As crianças estão aprendendo, mesmo com as escolas fechadas. Aqui eles não deixaram de ter aulas, todos os dias estão aprendendo algo”, conta Daisy. O projeto conta com o financiamento do Governo do Japão.

No contexto da Covid-19, os Súper Panas viraram também programas de rádio, criados com a participação de crianças e adolescentes para disseminar mensagens educativas, de apoio à saúde mental, de proteção contra a violência e de prevenção do coronavírus. O conteúdo será transmitido em rádios locais e podcasts, para que as crianças migrantes e refugiadas, incluindo as indígenas, tenham novas formas de acessar conteúdos relevantes e educativos. Para isso, foram doados dois mil aparelhos de rádio para as famílias em Roraima, Amazonas e Pará.