“A pauta climática também é coisa de criança e adolescente”
Escutar para Transformar: Crianças e Adolescentes no Balanço Ético Global
Diante de tragédias cada vez mais frequentes e de dados científicos cada vez mais alarmantes sobre os impactos das mudanças climáticas no planeta, é urgente que a crise climática e suas soluções sejam discutidas também a partir da ética. Afinal, se já sabemos o que deve ser feito para enfrentar a crise climática, por que ainda não cumprimos?
Essa é a pergunta que orienta o Balanço Ético Global (BEG), iniciativa que busca integrar a ética às discussões sobre mudanças climáticas e nos convida a repensar modos de vida, relações e o futuro coletivo a partir da reflexão sobre princípios, normas e valores que orientam o comportamento e as interações humanas. O BEG parte da compreensão de que enfrentar a crise climática não se resume a metas, acordos ou indicadores técnicos: é preciso colocar a ética no centro das decisões, como parte essencial da resposta à crise climática.
Inicialmente proposto pela presidência da COP30 e o governo brasileiro para acontecer em seis grandes encontros intercontinentais, o movimento se desdobrou em escutas locais e autônomas nos mais diversos territórios do Brasil, permitindo que mais vozes da sociedade civil fossem incorporadas. É neste movimento de escuta ampliada que surgiram diálogos específicos com crianças e adolescentes, em formatos lúdicos e acessíveis, sensíveis à diversidade das infâncias e juventudes.
Por que incluir crianças e adolescentes na discussão?
Segundo o relatório do UNICEF “Crianças, Adolescentes e Mudanças Climáticas no Brasil”, de 2022, 40 milhões de meninas e meninos estão expostos a mais de um risco climático ou ambiental no país, como inundações e ondas de calor.
Por estarem em fase de desenvolvimento e dependerem de serviços essenciais de proteção, crianças e adolescentes são os mais impactados pelas mudanças climáticas, apesar de serem os que menos contribuíram ou contribuem com as causas do problema.
Esses impactos, inclusive, não atingem todas as crianças da mesma forma. A crise climática aprofunda desigualdades já existentes, afetando especialmente crianças negras, indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais, crianças com deficiência, e aquelas que vivem em áreas rurais, ribeirinhas, ilhas ou periferias urbanas.
Ou seja, crianças e adolescentes já vivem os efeitos da crise climática e serão diretamente impactados pelas decisões atuais. Portanto, ouvi-los e envolvê-los na construção de um futuro mais justo e sustentável é um imperativo ético. Por isso, o UNICEF apoiou os Ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima e de Educação na adaptação da metodologia de escuta do BEG para diálogos com crianças e adolescentes, em processo colaborativo ao lado de outras organizações que são referência na agenda da infância, como Plant-for-the-Planet, Instituto Alana, Viração, Visão Mundial, Árvores Vivas e Allma.
As organizações parceiras e outros grupos sociais realizaram diálogos autônomos do BEG com crianças e adolescentes em diferentes territórios ao redor do mundo, chegando a cinco continentes. No Brasil, mais de 50 diálogos ocorreram nos 27 estados.
Em Belém, cidade sede da COP30, o UNICEF promoveu quatro escutas com parceiros — três delas em outubro, como preparação pré-COP, e uma durante a Conferência, dentro da Blue Zone, espaço oficial de negociações. Os encontros prévios reuniram dezenas de crianças e adolescentes da região metropolitana de Belém, majoritariamente vindas de comunidades extrativistas, ilhas, territórios quilombolas, ribeirinhos, periferias urbanas – incluindo adolescentes de NUCAS (Núcleos de Cidadania de Adolescentes, que fazem parte da estratégia do Selo UNICEF), do projeto Meninas Cidadãs e estudantes de Belém que fazem parte do programa de embaixadores do meio ambiente da prefeitura.
Durante a COP30, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), UNICEF, Plant-for-the-Planet e Instituto Alana reuniram cerca de 40 crianças, adolescentes e jovens no Pavilhão do Balanço Ético Global, dentro da Blue Zone. Em um espaço de negociação majoritariamente ocupado por adultos negociadores, a presença concreta e simbólica dessas crianças reforçou a necessidade de reconhecer as novas gerações como agentes de direitos, com contribuições fundamentais para a construção do futuro climático do planeta.
O que as crianças e adolescentes têm a dizer sobre mudanças climáticas
Veja a seguir algumas das contribuições potentes vindas de crianças e adolescentes nos encontros em Belém, a partir de perguntas orientadoras que instigaram reflexão e diálogo. O UNICEF entende que, ao integrar as falas de crianças e adolescentes, o BEG caminha para ampliar a justiça intergeracional e contribui para inspirar respostas à crise climática que sejam mais plurais, democráticas e ambiciosas.
Afetos
O que existe no seu ambiente que você gostaria que fosse mantido para sempre?
“A gente tem que manter o cheiro de terra depois da chuva, porque eu sinto que a floresta está viva quando a gente sente esse cheiro”. Juca, 14 anos.
“Eu quero proteger a floresta. E por quê? Porque ela traz o ar puro que a gente precisa para respirar”. Gabriel, 10 anos.
"A gente só vai conseguir reverter a crise climática e mobilizar mais pessoas para a luta com elas sonhando com um futuro, sonhando com um lugar melhor, sonhando com um território preservado". João Victor, 16 anos
Saberes tradicionais
Quais saberes e práticas do seu território podem inspirar mais cuidado com a Terra?
As crianças mencionaram ensinamentos de avós, pais e professores como referências vivas de práticas ancestrais que ensinam uma relação de respeito e harmonia com a natureza.
Desinformação
O que você acha que podemos fazer para que informações sobre a natureza e o clima cheguem a todas as pessoas?
Aqui, as crianças destacaram a importância de compartilhar informações verdadeiras sobre o clima, reconhecendo tanto a ciência quanto os saberes ancestrais, e de combater a desinformação e o negacionismo climático.
“Enfrentar a mentira com a verdade!”
“Apoiar comunicadores locais, gente que pode ter menos alcance, mas que está falando do chão, dos territórios”
Mobilização social
Como podemos chamar mobilizar mais crianças, adultos, líderes, empresas, escolas e países para o trabalho conjunto no combate à mudança do clima? Que valores ajudam nessa missão?
Conscientes de que a luta climática tem de ser coletiva, crianças e adolescentes trouxeram ideias para mobilizar mais pessoas, e refletiram sobre a importância da articulação comunitária, da democratização do conhecimento por meio de uma educação mais dinâmica e inclusiva, e da cultura como ferramenta política de mobilização.
"A gente não pode só ser ativista na internet, o encontro cara a cara ainda tem muito poder”. Domingos, de comunidade extrativista de Abaetetuba, PA.
"Tem gente que ignora a luta de propósito, por ganância, mas outras pessoas podem não saber dela ainda".
“Um festival cultural não é alheio à luta climática, ele é a própria luta também. Às vezes uma letra de música, uma peça de teatro, tocam muito mais do que assistir horas de palestra de especialistas". João Victor, 16 anos
Diálogos que Começam e Continuam
As atividades conectaram as vozes das crianças da Amazônia às de meninas e meninos de diferentes países do Norte e do Sul Global, reforçando a convicção de que crianças não são apenas vítimas da crise climática: são agentes fundamentais de mudança.
"Esse diálogo me lembrou que nós jovens precisamos ser escutados, até porque às vezes a gente traz ideias novas que os adultos nem pensaram, tão presos que eles estão no jeito que sempre fizeram as coisas." Brenda, jovem participante da Barca Literária.
"Aprendi muito, e agora preciso levar essas informações pra minha comunidade aprender também — contar pra minha mãe, fazer uma roda de amigos".
“Temos que olhar as pessoas de maneira igual. Eu sou uma pessoa e você também é uma pessoa. Precisamos ter consciência de que, trabalhando juntos, teremos um planeta melhor para nós e para as futuras gerações”. Fernanda,estudante do 5º ano da rede municipal de Belém.







































