Para Kayke, oportunidades
Aos 17 anos, morador da Pavuna, no Rio de Janeiro, Kayke sonha com oportunidades, apesar das discriminações e violências cotidianas
Antes da pandemia, Kayke chegava à escola às 7h da manhã e só voltava no final da tarde. No 3º ano do ensino médio, aos 17 anos, Kayke Juan Silva Bastos é aluno de uma escola pública profissionalizante na Cidade do Rio de Janeiro. Com a quarentena, tudo ficou online. Além de as aulas presenciais, o adolescente perdeu o emprego que tinha no hortifrúti no seu bairro. Na verdade, todos perderam o trabalho em sua casa, onde mora com a mãe, o irmão mais velho, a irmã mais nova, além do seu avô, de quem herdou o gosto pela música. Unidos, atravessaram essa crise com a pensão do avô e também do pai, falecido há cinco anos.
Por vários meses, a rotina de Kayke não variou: acordar, comprar pão, fazer tarefas da escola em casa, ter aulas online, depois ir para as redes sociais e fazer produções de música. Kayke gosta de compor e cantar rap. Esse é um sonho grande: “Quero ser cantor, compositor, mas também ator, produtor cultural. Ser múltiplo, ter espaço, fazer diferença e levar meu recado para muita gente”. Da Pavuna para o mundo – essa é a visão.
Kayke sabe bem o que é viver a potência de ser um adolescente negro da favela, ameaçada a cada dia pelo racismo e outras tantas violências. “Eu nasci em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Mas logo nos mudamos para a Pavuna, Zona Norte da cidade do Rio, onde a família da minha mãe morava. Hoje estamos todos perto”. Pavuna fica no extremo norte da capital fluminense e concentra graves desigualdades sociais, incluindo o mais alto número de homicídios de adolescentes na cidade.
Muitas vezes, moradores de uma comunidade não podem ir para outra por conta da violência entre grupos rivais. Desde criança, Kayke também conhece a abordagem policial ostensiva, que é realidade em partes da cidade. “A polícia no morro vê você negro da favela e logo pede para abrir a mochila a caminho da escola. Por outro lado, quando a gente sai da favela, as pessoas sempre olham estranho pra gente”.
“Na verdade, a gente sempre está com medo. Na favela, fora da favela, na rua, na escola... Nossa amiga Maria Eduarda levou um tirou e morreu dentro da nossa escola”. A morte de Maria Eduarda, aos 13 anos, em 2017, comoveu fortemente o País, somando-se à alarmante estatística de homicídios de crianças e adolescentes no Brasil. Segundo estudo lançado pelo UNICEF e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes de até 19 anos foram mortos de forma violenta no Brasil – uma média de 7 mil por ano – especialmente adolescentes negros pobres.
Entender essas violências e poder falar sobre elas foi algo novo que aconteceu durante a pandemia. “Uma amiga comentou comigo que ia rolar umas rodas de conversa sobre negritude, masculinidades, periferia... Falou para eu participar, pois era a minha cara”. Kayke logo se inscreveu e começou a participar dos encontros online do Pretos em Roda – uma atividade do projeto Zona Nossa, realizado pelo UNICEF em parceira com a Luta pela Paz em 2021 para promover a saúde mental e prevenir violências contra crianças e adolescentes na Pavuna e na Maré, fortalecendo a proposta de uma comunidade de cuidado.
“Nunca tinha tido a oportunidade de falar abertamente sobre ser jovem negro, sobre masculinidades, sobre preconceitos que vivemos. Foi muito importante entender melhor certas desigualdades. Agora posso explicar e dividir isso com mais pessoas”.
Para Kayke e para cada criança, oportunidades.