O cuidado que começa antes do nascimento
Na USF Rio Pajeú, no Recife, a história de Pollyana, Ítalo e do pequeno Ícaro mostra como profissionais preparados e serviços articulados podem transformar a experiência da gestação aos primeiros anos de vida
Quando descobriu que estava grávida pela primeira vez, Pollyana da Silva, de 25 anos, sentiu medo. Pensou na responsabilidade de criar uma criança, na saúde do filho e nas condições que poderia oferecer a ele. Mesmo trabalhando com crianças, sabia que a maternidade seria uma experiência completamente diferente. “Quando eu descobri que estava grávida, fiquei com medo. O meu medo era de como seria dali para a frente, como eu ia dar uma boa estrutura para ele, uma boa criação e ensinar coisas boas”, conta.
Foi durante o acompanhamento na Unidade de Saúde da Família Rio Pajeú, no bairro do Ibura, no Recife (PE), que Pollyana encontrou apoio para lidar com as dúvidas e inseguranças da primeira gestação. Na unidade, ela foi acompanhada por profissionais da atenção primária capacitados nas formações da Unidade Amiga da Primeira Infância (UAPI) e participou de atividades voltadas às gestantes e sua família.
“Quando eu vim aqui para o posto e conheci o Mãe Coruja, me interessei logo em participar, porque era minha primeira vez sendo mãe e eu não sabia de muita coisa”, lembra a mãe de Ícaro, de 3 meses. Além da equipe do programa Mãe Coruja Recife, iniciativa da gestão municipal voltada para a atenção integral à saúde de gestantes, puérperas e crianças até os seis primeiros anos de vida, o acolhimento envolveu também as pessoas que faziam parte da rede de apoio de Pollyana. “Minha mãe e Ítalo, meu esposo, também me abraçaram de uma forma que me fez sentir segura para aquele momento da minha vida”, afirma.
Qualificação da atenção primária
A USF Rio Pajeú é uma das 100 unidades que integram a metodologia Unidade Amiga da Primeira Infância (UAPI) na cidade do Recife. A iniciativa do UNICEF apoia os municípios na qualificação dos serviços públicos de saúde, educação e assistência social voltados às gestantes, crianças e famílias. Na saúde, a UAPI busca fortalecer a atenção primária e qualificar o atendimento desde o pré-natal até os primeiros anos de vida. Para isso, apoia a formação dos profissionais, a integração das equipes, o acompanhamento de indicadores e a organização de práticas que promovam um cuidado integral.
UNICEF/BRZ/Tulio Seabra
“Mais do que qualificar procedimentos, a proposta é preparar as equipes para identificar as necessidades de cada gestante, criança e família e oferecer respostas articuladas ao longo do acompanhamento. Isso permite que o cuidado seja mais próximo, contínuo e capaz de agir no momento em que as dificuldades aparecem”, explica Juliana Vergetti, oficial de Saúde e Nutrição do UNICEF.
Na USF Rio Pajeú, profissionais de diferentes serviços participaram das formações da UAPI. Entre eles está a equipe do Mãe Coruja Recife, iniciativa municipal que desenvolve atividades individuais e coletivas com gestantes, crianças e famílias, de forma complementar ao trabalho da atenção primária. “As mães de primeira viagem chegam com dúvidas, angústias e medo. A gente tenta fazer uma escuta, um acolhimento, esclarecer essas dúvidas e acolhê-las da forma mais integral possível”, explica Germana Suassuna, supervisora do Mãe Coruja Recife.
Além dos atendimentos individuais, as gestantes participam de rodas de conversa e de outras atividades coletivas. Os encontros permitem o compartilhamento de experiências, a circulação de informações e a construção de redes de apoio entre as participantes.
O medo de não conseguir amamentar
Durante a gestação, Pollyana tinha medo das dores do parto. Com as informações recebidas e o acompanhamento da equipe, passou a se sentir mais segura. Aos poucos, porém, outra preocupação ganhou espaço: não conseguir amamentar. “Quando eu pensava no parto, sentia medo da dor e das contrações. Mas fui trabalhando isso na minha cabeça, pensando que iria conseguir e que ia dar tudo certo. Um dos meus maiores medos acabou não sendo o parto, mas a amamentação”, relata.
Ela tinha receio de não produzir leite suficiente ou que Ícaro não conseguisse mamar corretamente. Durante o acompanhamento de pré-natal, ela recebeu informações que a ajudaram a lidar com os medos. “Quando comecei a amamentar Ícaro achei que estava fazendo a pega certa, como tinham me ensinado, mas meu peito começou a machucar. Mandei mensagem para as meninas, porque elas tinham me passado o WhatsApp”, lembra.
A equipe orientou Pollyana sobre os cuidados necessários e acompanhou sua adaptação à amamentação. Para ela, poder buscar ajuda no momento em que o problema apareceu fez diferença. “Isso me ajudou bastante. No início, machucou um pouquinho, mas depois ele começou a pegar certinho. Fluiu bem mesmo. Hoje eu dou bastante leite, graças a Deus, e não machuca mais”, afirma.
O apoio do pai durante a gestação e o pós-parto
Ítalo Rocha, marido de Pollyana, participou ativamente da gestação. Esteve presente na maior parte das consultas, acompanhou exames e buscou compreender as orientações oferecidas pelos profissionais. “Eu fui praticamente a 90% das consultas durante esses meses de gestação, sempre atento, escutando, perguntando e dialogando”, conta.
Para ele, acompanhar o pré-natal não significava apenas estar fisicamente presente. Era uma forma de entender o que Pollyana estava vivendo, dividir as decisões e se preparar para assumir os cuidados com Ícaro depois do nascimento.
A participação continuou no pós-parto. Enquanto Pollyana se recuperava e enfrentava as dificuldades iniciais da amamentação, Ítalo procurava reduzir sua sobrecarga, ajudando nos cuidados com o bebê e nas tarefas da casa. O apoio aparecia em ações cotidianas: trocar fraldas, cuidar de Ícaro, buscar água ou comida para Pollyana, acompanhar o bebê e assumir outras tarefas para que ela pudesse descansar e amamentar com mais tranquilidade.
A inclusão do pai nas consultas e orientações contribuiu para que ele compreendesse que o cuidado com a criança e com a mulher no pós-parto deve ser compartilhado. Para Pollyana, ter o marido ao seu lado foi uma fonte de segurança durante a gestação, a amamentação e os primeiros meses de vida de Ícaro.
A experiência na unidade de saúde também alterou a percepção de Ítalo sobre o serviço público. Antes do acompanhamento, o casal havia escutado relatos negativos sobre as unidades de saúde. “A gente já veio com uma visão e um preconceito criado sobre o SUS. Mas, quando foi entendendo e vivenciando, mudou a nossa visão. O cuidado que tiveram com o nosso filho, durante todo o processo, surpreendeu bastante positivamente”, afirma.
Uma equipe integrada em torno da primeira infância
A metodologia da UAPI incentiva as unidades a organizar o cuidado de maneira integrada, evitando que cada profissional ou serviço atue de forma isolada. A proposta é que as equipes compartilhem informações, responsabilidades e prioridades relacionadas à saúde, à proteção e ao desenvolvimento das crianças.
“A criança e sua família têm necessidades que não podem ser respondidas por um único profissional ou em apenas uma consulta. Por isso, a UAPI fortalece a articulação entre as equipes, para que o acompanhamento seja contínuo, de forma integral e integrada da gestação ao nascimento, garantindo o pleno desenvolvimento infantil”, explica Juliana Vergetti.
Na atenção primária, essa articulação envolve o pré-natal, a puericultura, a vacinação e o acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento, além de ações de promoção da saúde, apoio à amamentação, alimentação saudável, orientação às famílias e fortalecimento de vínculos.
“O objetivo é que os profissionais consigam olhar para além da demanda apresentada naquele momento, identificar outras necessidades e organizar respostas de forma articulada. Quando a equipe trabalha com objetivos comuns, aumenta a capacidade do serviço de acompanhar cada criança e agir no momento certo”, acrescenta Juliana.
Na USF Rio Pajeú, essa integração é percebida no cotidiano dos profissionais e dos serviços que acompanham as famílias. “A metodologia da UAPI deixa a unidade como um todo muito integrada, no mesmo propósito”, afirma Germana Suassuna. Segundo a supervisora do Mãe Coruja, a qualificação ajuda os diferentes profissionais a atuar de maneira complementar, mantendo como objetivo comum uma infância saudável e protegida, com amamentação apoiada, vacinação acompanhada, pais escutados e famílias cuidadas.
Dados para orientar o cuidado
Para a gestão municipal, a contribuição da UAPI vai além das formações oferecidas aos profissionais. A metodologia também ajuda as equipes a analisar a realidade dos territórios, identificar dificuldades no atendimento e organizar respostas com base nas necessidades encontradas.
“Esse impacto traz muito mais essa questão de a gente discutir com base em evidências, fazer capacitação olhando para as necessidades e trabalhar junto com as equipes os nós críticos e as possibilidades”, explica Lélia Moreira, coordenadora da Política Municipal de Saúde da Criança do Recife.
A análise dos indicadores permite que as formações não sejam genéricas ou desconectadas do cotidiano das unidades. Os dados ajudam a identificar, por exemplo, onde é necessário fortalecer o acompanhamento do pré-natal, a vacinação, o aleitamento materno ou a vigilância do desenvolvimento infantil.
A metodologia também estimula as equipes a reconhecer os avanços alcançados e os pontos que ainda precisam ser aprimorados. Dessa forma, a certificação não é tratada apenas como uma etapa final, mas como parte de um processo contínuo de qualificação.
No ciclo anterior da UAPI Saúde no Recife, as unidades participantes apresentaram avanços nos indicadores acompanhados, inclusive aquelas que não chegaram à certificação. “Todas as unidades tiveram uma melhoria significativa nos seus indicadores, mesmo as que não foram certificadas. Elas melhoraram os indicadores de imunização, aleitamento e pré-natal”, afirma Juliana.
A experiência do Recife
Os primeiros ciclos da UAPI permitiram que o Recife testasse a metodologia em um conjunto menor de unidades, acompanhasse os resultados e identificasse de que maneira a iniciativa poderia ser incorporada à atenção primária do município. A experiência contribuiu para a ampliação da UAPI Saúde de 14 para 100 unidades. “Tínhamos um percentual bem pequeno de unidades que faziam parte da UAPI. Hoje estamos com aproximadamente 70% das nossas unidades na iniciativa”, destaca Lélia.
Segundo ela, a ampliação demonstra que a metodologia passou a ser reconhecida como uma ferramenta capaz de apoiar a organização da rede e qualificar o cuidado oferecido às crianças e às famílias. “A intencionalidade do processo é que a gente possa cada vez mais ampliar e disseminar a metodologia UAPI, que é uma metodologia que dá certo e que tem sido comprovada”, afirma.
A visão da gestão municipal também reforça que a criança deve ser acompanhada de maneira integral, sem fragmentação entre as diferentes políticas públicas. “Não existe a criança da saúde, da educação ou da assistência social. Existe a criança do Recife”, resume Lélia.
Um acompanhamento que continua
A experiência de Pollyana não é isolada. Outras gestantes atendidas na USF Rio Pajeú também destacam a importância de saber que o acompanhamento não termina no parto.
Bianca da Silva, de 35 anos, chegou às atividades imaginando que receberia principalmente itens materiais. Ao participar dos encontros, compreendeu que a proposta envolvia informação, escuta e acompanhamento durante a primeira infância. “Eu imaginei que seria: ‘Vai ganhar o kit, vai ganhar uma banheira’. Mas, quando cheguei aqui, descobri que tinha roda, conversas explicando como amamentar e que, depois que o bebê nasce, o acompanhamento continua até os 6 anos”, conta.
Para Bianca, a perspectiva de ter o filho acompanhado durante os primeiros anos foi determinante. “Achei a UAPI muito importante para o período depois do nascimento do meu menino, por causa dos cuidados que ele vai ter. Isso me atraiu bastante. Por isso estou aqui hoje”, ressalta.
A enfermeira Maria Tereza De Biase, que atende da USF Rio Pajeú, destaca que o acompanhamento prolongado permite observar o crescimento, a vacinação, a alimentação e os marcos do desenvolvimento infantil, além de orientar pais e responsáveis diante de dúvidas e dificuldades que surgem em cada etapa.
Cuidado para construir o futuro
A história de Pollyana, Ítalo e Ícaro mostra como profissionais preparados, serviços articulados e acompanhamento contínuo podem transformar a experiência de uma família.
O medo presente no início da gestação deu lugar à confiança para enfrentar o parto, a amamentação e os primeiros cuidados com o bebê. A presença de Ítalo ajudou a dividir responsabilidades, enquanto o acompanhamento da equipe permitiu que Pollyana buscasse orientação quando surgiu uma dificuldade concreta.
Hoje, ao falar sobre o futuro do filho, ela imagina a pessoa que deseja ajudá-lo a se tornar.
“Para o futuro do meu filho, quero que ele seja uma pessoa boa, educada e que sempre procure aprender. Quero que faça o que ama, que não tenha medo de se comunicar comigo, que me veja como amiga e que eu possa sempre ajudá-lo no que ele quer para a vida dele”, afirma.
Ítalo deseja que Ícaro cresça reconhecendo e expressando as próprias emoções. “Espero que ele seja um homem amoroso, que saiba mostrar suas fragilidades, entender os outros e lidar com suas emoções. Homem também ama, sente e chora. Quero que a gente esteja sempre próximo para ensinar ele a lidar com essas emoções”, disse.
Na USF Rio Pajeú, esse futuro começou a ser cuidado ainda durante a gestação: na escuta das dúvidas, nas orientações oferecidas, na presença do pai, no acompanhamento após o nascimento e na confiança construída entre a família e os profissionais.
Ao apoiar a UAPI, o UNICEF contribui para que municípios fortaleçam equipes e serviços públicos, transformando formação, dados e articulação em cuidado concreto para gestantes, crianças e famílias desde o começo da vida.
Sobre as Unidades Amigas da Primeira Infância (UAPI)
As Unidades Amigas da Primeira Infância (UAPI) são uma estratégia do UNICEF, voltada à qualificação dos serviços públicos de saúde e de educação infantil de forma a contribuir para os resultados das políticas municipais para a primeira infância. A iniciativa conta com assistência técnica, capacitação, monitoramento, acompanhamento e certificação da melhoria da oferta de serviços e diálogo entre profissionais e famílias para melhor comunicação sobre o desenvolvimento das crianças de até seis anos de idade, atendidas em Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS) e Unidades de Educação Infantil.
Para implementar essa iniciativa, o UNICEF no Brasil conta com a parceria estratégica de Roche, Huggies, Pfizer e MSD, por meio do programa global MSD para mãe. Para ações gerais de Saúde, o UNICEF conta com a parceria estratégica de Infinis e Takeda. Além disso, o UNICEF tem XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil.