"Eu acredito no nosso poder, nunca estamos sós"

Daren Aba participa do Minhas Escolhas, uma parceria do UNICEF com a Plan International Brasil para o empoderamento de meninas. Com 18 anos, é nascida e criada no distrito paulistano de Parelheiros, que para ela significa resistência.

UNICEF Brasil
14 dezembro 2020
uma jovem olha para a câmera. ela não está sorrindo, mas tem um semblante sereno.
Arquivo pessoal

Daren Aba é uma menina preta, estudante de Naturologia, faz parte dos coletivos Subversiva e ArquePerifa e é na arte em que ela se encontra. Daren fez uma mudança significativa em sua vida quando decidiu desistir do curso de Biologia e mudar para Naturologia, quando passou a pesquisar ciências de mulheres pretas, naturólogas, que, segundo ela, “trazem apoio, confiança e acolhimento”. “Com o olhar dos estudos, é possível que esses saberes sejam resgatados, pois acabamos perdendo essa prática de passar a ancestralidade na oralidade, como minha avó fez comigo”, diz a jovem.

Diariamente, ela retoma consigo sua cultura ancestral. Por meio do curso, revive todos os ensinamentos de sua avó, mulher forte e sábia, que sempre passou a importância de usufruir de toda a mata de seu território – área de preservação ambiental – para trazer o bem e a cura com remédios naturais provenientes de plantas.

Nascida num território sem muitas oportunidades e escolhas na Zona Sul da cidade de São Paulo, no distrito de Parelheiros, Daren começou a trabalhar com 13 anos e, agora com 18 e em meio à pandemia, sentiu seu trabalho como dreadmaker sendo afetado.

Daren tem um afeto muito grande com o que muitos chamam da moldura do rosto. Foi por meio de seus cabelos que ela começou a entender sua identidade. “Eu acredito que é um processo muito forte para todo mundo, então eu enxergo como meu trabalho atual ajuda nesse processo de identificação como pessoa preta”, diz. A jovem conta com entusiasmo que o Emaranhado, seu projeto empreendedor, resgata também a cultura preta: “Dentro dos navios negreiros, o povo preto fazia rotas de fugas e mapas, literalmente com seus cabelos. Eles ainda colocavam sementes e trançavam junto dos cabelos das crianças para quando achassem uma terra, escondiam para plantar”, conta.

Ao se entender como menina preta, Daren pôde também se entender como empoderada. Por isso, identificou-se tanto com a iniciativa Minhas Escolhas, desenvolvida pela Plan International em parceria com o UNICEF em São Paulo. O projeto reuniu 80 meninas de 15 a 19 anos, moradoras de bairros periféricos de São Paulo, para aprimorar conhecimentos sobre seus direitos, discutir sobre gravidez na adolescência e prevenção da violência online.

“Quando vi o Minhas Escolhas, achei interessante a faixa etária de atuação. O projeto me ajudou bastante a perceber esse movimento das meninas mais novas. Quando a gente se percebe e se junta, também é um empoderamento”, afirma. Daren conta que ela não teve essa oportunidade no início da adolescência, como as meninas mais jovens que participam do Minhas Escolhas estão tendo.

“Falar sobre questões que atravessam nossas vivências é muito incrível. Eu fico acalentada com essas trocas”.

Daren Aba, 18 anos, São Paulo

Ela fala dos materiais do projeto como a Trilha de Empoderamento, que passam por temas como ser assertiva, desfrutar de direitos sexuais e reprodutivos, falar sobre violência de gênero. Como jovem multiplicadora desses aprendizados, para outros jovens, Daren também divide esses materiais com sua irmã, de 10 anos. “O projeto me ajudou a entender que temos que fazer chegar esses conteúdos aos adolescentes. Eu olho para minha irmã menor e entendo que ela precisa conhecer isso”.

Daren conta sobre o momento em que dividiu a revista do projeto com a sua irmã, que ficou observando bastante todas as ilustrações e frases dispostas nas páginas. “Se estamos falando em retomada desse processo de inclusão e combate ao racismo, não faz sentido que nossas crianças não tenham acesso a esse conteúdo. Tudo começa pela educação”, afirma.

Quando Daren reflete sobre seu passado como menina preta, relembra de episódios em que sofreu violências e fala com pesar sobre projetar um futuro para essa parcela significativa da sociedade, uma vez que as pesquisas mostram que são as crianças pretas que mais sofrem com a perpetuação de violências. “Quando tentam roubar a nossa identidade, isso também causa mortes”, afirma. No entanto, fala com convicção sobre essa luta coletiva, que “já começou há muito tempo” e reforça: “Eu acredito no nosso poder. Quanto mais a gente lutar, mais vamos conseguir estar juntas. É o que chamamos de aquilombamento, criando um grande quilombo de gerações. Nunca estamos sós. Tenho a sensação de que os meus estão e estarão sendo vistos por alguém”.