Entre trilhos e versos, jovem do Rio transforma sua realidade com arte e mobilização
De uma infância marcada por perdas à potência da palavra no slam, Matheus Luiz Fraga Moreira, o Magrão, encontrou na arte e no UNICEF caminhos para reescrever sua trajetória
Matheus Luiz Fraga Moreira, mais conhecido como Magrão, tem 19 anos e cresceu em um dos municípios com os maiores índices de vulnerabilidade social do estado do Rio de Janeiro, Japeri. Criado pelo pai, enfrentou desde cedo os desafios de viver na periferia da Baixada Fluminense, onde a distância, a precariedade dos serviços públicos e a violência cotidiana marcam o ritmo da vida. “É muito difícil aqui em Japeri. A gente já sai de casa esperando que o trem vai dar ruim. Mesmo assim, a gente vai”, conta Magrão sobre as dificuldades de locomoção no território.
Ainda assim, foi ali que ele construiu os alicerces de sua trajetória como artista, educador, mobilizador e comunicador popular. Entre versos, batalhas de slam, ações em coletivos e sonhos que resistem à rotina exaustiva entre o trem e a sala de aula, Matheus se afirma como um dos muitos jovens que, apesar de tudo, resistem.
Infância marcada por perdas, cuidado e responsabilidade
Ainda bebê, Magrão passou a viver com o pai após ser retirado da guarda da mãe, que enfrentava problemas com drogas. Trabalhando como segurança e, mais tarde, como vendedor ambulante nos trens, seu pai foi figura fundamental na sua formação, e criou Matheus e sua irmã mais nova sozinho. Aos 14, Magrão começou a trabalhar com o pai no trem. Logo depois, passou a trabalhar sozinho, conciliando os estudos com a necessidade de sustento da família. “Eu acordava cedo, ia vender no trem, voltava e dava todo o dinheiro pro meu pai. Nunca deixei de estudar, porque acreditava que o estudo ia mudar minha vida e a dele também”, lembra.
Aos 15 anos, viveu um dos momentos mais difíceis da vida. Após um episódio de estresse, teve um princípio de AVC e descobriu um cisto no cérebro, que o deixou com o lado esquerdo do corpo paralisado por mais de um mês. Logo depois de sua recuperação, seu pai faleceu, também vítima de um AVC. “Foi tudo muito rápido. Eu estava começando a melhorar e perdi meu pai. Foi uma dor imensa.”
Arte, poesia e mobilização: uma nova linguagem para existir
Após a morte do pai, Magrão foi morar com as tias na Zona Norte do Rio de Janeiro. Foi nesse momento que a arte entrou de vez em sua vida. Participando de atividades escolares, descobriu o slam, as batalhas de poesia falada, e encontrou ali uma forma de transformar sua realidade.
Criou eventos culturais na escola, fomentou o Slam do Acari, e passou a levar a poesia também para fora da sala de aula. Nesse percurso, conheceu o NUCA (Núcleo de Cidadania dos Adolescentes) — uma iniciativa da #AgendaCidadeUNICEF que conecta jovens periféricos para discutir direitos, juventude e políticas públicas. Foi o primeiro projeto social que participou e marcou sua vida. “Debater aqueles assuntos, formular um plano de ação para colocar as ideias em prática… até então, isso era algo surreal para mim. Evoluí a cada encontro, fui me soltando mais e entendi que a juventude periférica pode ser protagonista de verdade”, conta.
No NUCA, o jovem também conheceu o projeto Geração que Move, uma iniciativa do UNICEF, em aliança global com a Fundação Abertis e com a colaboração de sua filial no Brasil, a Arteris, e parceria técnica da Agência Redes para Juventude e Viração. Hoje, Magrão integra o Coletivo ArterAção, participa de rodas e oficinas, articula projetos e segue escrevendo poesias que transformam vivências em palavra e denúncia.
Mobilidade: a desigualdade entre o ponto de partida e o destino
Entre Japeri e os lugares onde atua e estuda, Magrão enfrenta uma das maiores barreiras estruturais para a juventude da periferia: a mobilidade. A dependência do trem, atrasos e superlotação afetam diretamente seu acesso à universidade, aos projetos, aos encontros com coletivos culturais e sociais.
“Só tem um ônibus para sair daqui. Se o trem parar, tudo trava. A gente precisa sair mais cedo, voltar mais tarde e ainda conviver com o medo de não conseguir chegar. Isso cansa. E nos obriga a escolher entre oportunidades.”
Mesmo assim, ele insiste. Cursa Pedagogia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), continua trabalhando no trem quando necessário, dá oficinas e participa de eventos, articulações e ações sociais. Mora com um amigo para dividir custos e já busca alternativas de estágio e renda que permitam mais estabilidade. “Sair de Japeri tem um custo alto, mas ficar também tem. Eu tô tentando crescer sem me afastar de quem eu sou.”
Um fio de esperança para muitos
A trajetória de Magrão é também um retrato de uma juventude que, apesar das dificuldades, se reinventa e se fortalece nas conexões, na palavra, na arte e na política. Sua caminhada com o UNICEF, com o NUCA e com tantos coletivos é uma prova viva de que acreditar na juventude é apostar no futuro.
“Eu carrego muito do meu pai, sabe? A luta, a honestidade, o cuidado. Hoje, minha luta é pra que outros jovens como eu tenham escolha e voz.”