Crianças quilombolas de Bequimão/MA: oportunidades que começam no território
As histórias de Manuellen, Mariellen, Luca e de suas famílias revelam como a aproximação dos serviços públicos está mudando a vida de crianças quilombolas na Baixada Maranhense
Quando uma criança nasce, os primeiros cuidados não deveriam depender da distância entre sua casa e a cidade mais próxima. Mas, durante muito tempo, essa foi a realidade de muitas famílias quilombolas de Bequimão, município da Baixada Maranhense com 20 comunidades quilombolas reconhecidas.
Para tomar uma vacina, realizar o teste do pezinho, consultar um profissional de saúde ou, muitas vezes, continuar os estudos, era necessário percorrer longos caminhos. Entre estradas de terra, custos com transporte e as dificuldades trazidas pelo período das chuvas, acessar direitos básicos exigia esforço, recursos e persistência.
Essa realidade marcou a infância de muitos pais e mães que hoje criam seus filhos nos mesmos territórios. Mas a história das novas gerações começa a ser diferente.
A chegada dos serviços públicos às comunidades, o fortalecimento das políticas voltadas à infância e a participação ativa das lideranças quilombolas vêm reduzindo barreiras históricas e aproximando crianças e adolescentes de direitos fundamentais, como saúde, educação e proteção. E essa transformação pode ser percebida dentro das próprias famílias.
Duas irmãs, duas infâncias
Na comunidade quilombola de Quindiua, César Cantanhede e Mayara Cantanhede observam diariamente mudanças que atravessam gerações. Pais de Manuellen Cantanhede, de 13 anos, e Mariellen Cantanhede, de 5 anos, eles acompanham a diferença entre as experiências vividas pelas duas filhas.
Quando Manuellen era pequena, cada vacina exigia uma viagem até a sede do município. Para garantir um direito básico, a família precisava enfrentar deslocamentos que consumiam tempo, dinheiro e energia. Com Mariellen, a experiência passou a ser outra.
Hoje, parte dos atendimentos acontece na própria comunidade, onde a Unidade Básica de Saúde funciona regularmente e aproxima os cuidados das famílias.
Para quem vive distante dos centros urbanos, essa mudança significa muito mais do que comodidade. Significa menos gastos com transporte, menos exposição ao calor intenso das estradas e menos obstáculos para que crianças recebam os cuidados de que precisam.
“Tem a questão financeira e tem a questão também de, por exemplo, levando ela para Bequimão, o desgaste físico é maior. Devido ao sol quente, à distância, tudo isso influencia. E já aqui na comunidade, não. Toma aqui, não demora muito e já estamos em casa, é mais rápido”, conta Mayara.
Quando um serviço de saúde chega mais perto, não é apenas a distância que diminui. Aumentam também as chances de que cada criança tenha acesso ao cuidado necessário para crescer saudável e protegida.
Uma escola diferente daquela que os pais conheceram
As mudanças também chegaram à educação. Mayara lembra que sua infância foi marcada por uma escola que funcionava em espaços improvisados da comunidade. As aulas aconteciam em igrejas, clubes e até casas de farinha. Crianças de diferentes idades dividiam o mesmo espaço, muitas vezes com poucos recursos para aprender. Para continuar estudando, ela precisou deixar sua comunidade.
“Até pela questão do transporte, da estrada que era ruim, pregava no meio do caminho, e não vinha todos os dias o transporte. Aí por isso que eu tive que estudar para São Luís.”
Hoje, as filhas crescem em uma realidade diferente. A escola possui estrutura própria, alimentação escolar regular, acesso à água e melhorias que ajudam a criar um ambiente mais adequado para a aprendizagem.
Para César, a diferença pode ser vista nas pequenas coisas do cotidiano. Ele lembra que houve períodos em que a escola enfrentava dificuldades até mesmo para garantir água e alimentação às crianças.
“Atualmente, a minha outra menor, a Mariellen, não passa por essa dificuldade. O lanche é todos os dias. Por exemplo, um dia anterior eles avisam que vai ser no dia posterior: amanhã é mingau, amanhã é frango, amanhã é chocolate.”
Também foram realizadas melhorias na acessibilidade, nos banheiros e nas condições gerais da escola. Mudanças que, à primeira vista, podem parecer simples, mas que fazem diferença na vida de quem aprende todos os dias naquele espaço.
“Então a gente vê que são coisas que talvez tenham pessoas que não percebem nem a grandeza, mas muda muito na realidade da criança.”
Sonhos que alcançam o futuro
As experiências de César e Mayara ajudam a entender por que a educação ocupa um lugar tão importante nos sonhos da família. Vindos de famílias que enfrentaram dificuldades econômicas e tiveram acesso limitado à escolarização, eles desejam que as filhas tenham oportunidades maiores do que aquelas que tiveram. Mas não apenas para benefício próprio.
O sonho também envolve fortalecer a própria comunidade.
“Que elas avancem nos estudos delas e consigam algo melhor e que tragam esse retorno para a comunidade em si. A oportunidade que elas estão tendo é melhor do que a minha.”
“O privilégio de nascer em um novo tempo”
A poucos metros dali, na mesma comunidade, outra história ajuda a contar essa mudança vivida pelas crianças.
Maria de Fátima Almeida conhece bem a diferença entre o passado e o presente. Mãe de quatro filhos, ela precisou sair da comunidade para realizar o teste do pezinho dos três filhos mais velhos.
Com Luca, seu bebê de apenas um mês de vida, tudo foi diferente. Pela primeira vez, conseguiu realizar o exame sem sair da comunidade.
“Esse já teve o privilégio de fazer o teste aqui dentro da comunidade. Então já teve uma diferença bem grande, né? E que é boa demais. Que aí eu já não precisei sair da nossa comunidade para fazer o exame em Bequimão.”
A vacinação também passou a acontecer mais perto de casa. Cada deslocamento evitado representa mais do que economia financeira. Representa mais tranquilidade para as famílias e mais condições para cuidar das crianças nos primeiros anos de vida.
“Então já foi um carro ou moto que eu já não paguei. Já economizou direto para outra coisa, como o alimento.”
Quando os direitos chegam mais perto
Na Unidade Básica de Saúde de Quindiua, Patrícia Cantanhede acompanha diariamente os resultados dessa transformação. Moradora da própria comunidade, ela conhece as famílias pelo nome, acompanha o crescimento das crianças e compartilha dos desafios vividos por cada uma delas.
“Como a gente está na comunidade, a gente faz com carinho. A gente faz com mais amor. Porque a gente conhece todo mundo.”
Seu relato ajuda a traduzir aquilo que os números nem sempre conseguem mostrar. O que mudou em Bequimão não foi apenas a distância entre as comunidades e a sede do município. Mudou a distância entre as crianças quilombolas e os seus direitos.
Hoje, uma vacina pode ser aplicada perto de casa. Um exame importante para os primeiros dias de vida pode ser realizado na própria comunidade. Uma escola oferece melhores condições para aprender. E uma família pode investir em alimentação aquilo que antes era gasto com transporte.
Quando ouvir as comunidades transforma políticas públicas
A transformação vivida em Bequimão não aconteceu de um dia para o outro. Ela foi construída ao longo dos anos por meio de políticas públicas comprometidas com a redução das desigualdades e, principalmente, pela escuta das próprias comunidades.
Desde 2013, a Semana do Bebê Quilombola, iniciativa idealizada por Claudett Ribeiro, geógrafa e professora especialista étnico-racial do Maranhão, por meio de uma parceria entre o UNICEF e a Fundação Josué Montello. aproxima serviços públicos dos territórios, mobilizando saúde, educação, assistência social e diferentes setores em torno da primeira infância.
A iniciativa se transformou em lei municipal, garantindo a continuidade das ações ao longo dos anos. Em 2022, esse trabalho ganhou um novo impulso com a implementação de um projeto-piloto do UNICEF no município de Bequimão (MA).
Para João Martins, ex-prefeito que acompanhou esse processo no município, o diferencial não esteve apenas nas ações realizadas. Esteve na forma de construí-las.
“O planejamento foi feito de forma muito participativa, levando sempre em consideração a fala das comunidades, das lideranças das comunidades. Então foi uma força-tarefa muito interessante, todos os secretários se envolveram e ajudaram nas ações.”
Segundo ele, um dos principais aprendizados foi compreender que as respostas mais efetivas surgem quando as comunidades participam da construção das soluções.
“Esse avanço aumentou ainda mais quando o UNICEF entendeu que tinha que sentar com as lideranças, tinha que ouvir das lideranças, tinha que fazer os trabalhos junto com as lideranças, porque elas que estão lá na comunidade. São elas que estão mais livres para falar dos desafios, problemas.”
A partir dessa escuta, foi possível fortalecer ações voltadas à vacinação, à educação, à busca ativa escolar, à saúde e à valorização da identidade quilombola.
Mais do que levar serviços às comunidades, o processo ajudou a construir uma nova forma de fazer política pública: uma forma baseada na participação, no diálogo e no reconhecimento dos direitos de cada criança.
Em Bequimão, o cumprimento das entregas previstas no município contribuiu para fortalecer ações e políticas públicas voltadas diretamente às comunidades quilombolas do município, que também conquistou a certificação na edição 2021–2024 do Selo UNICEF.
A experiência gerou aprendizados importantes sobre a implementação de políticas públicas que considerem as especificidades dos territórios e de suas populações, e contribuiu para o fortalecimento da agenda na edição 2025–2028 do Selo UNICEF, inclusive com o lançamento do Guia de Equidade Étnico-Racial, que orienta os municípios na construção de políticas públicas que respeitem as especificidades e garantam os direitos de crianças e adolescentes indígenas e quilombolas.
Assim como Manuellen, Mariellen e Luca, 309.798 crianças e adolescentes indígenas e quilombolas, de 0 a 17 anos, nos 2.277 municípios inscritos nesta edição do Selo UNICEF, podem ser beneficiados pelo fortalecimento de políticas públicas que considerem suas realidades, culturas e necessidades específicas, aproximando os serviços públicos dos territórios e ampliando as oportunidades para que seus direitos sejam assegurados.
Sobre o Selo UNICEF
O Selo UNICEF é uma das maiores iniciativas de fortalecimento de políticas públicas do País. Na última edição (2021-2024), 933 municípios dos 2.023 que foram mobilizados pelo programa receberam a certificação. Isso representa a melhoria de indicadores-chave relacionados à infância e adolescência nestas localidades, como imunização, permanência de crianças na escola e prevenção de violências.
A edição atual, que segue até 2028, já atingiu número recorde de adesões, com 2.277 cidades de 18 estados participando da iniciativa: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais (norte do estado), Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins. A iniciativa reconhece o esforço dos municípios na promoção, realização e garantia dos direitos de crianças e adolescentes.
Para o Selo UNICEF, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de Equatorial Energia e Rumo Logística, com a parceria de RD Saúde, por meio das marcas Raia e Drogasil, e com o apoio da Energisa. Além disso, o UNICEF tem XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil.