Conheça a jornada de Isabel para proteger o futuro de sua comunidade quilombola
Em Picuí (PB), Jovem Ativista transforma ciência, tradição e cuidado coletivo em um projeto que ajuda a prevenir doenças não transmissíveis e fortalece a segurança alimentar da comunidade quilombola Serra do Abreu
Em Picuí, no interior da Paraíba, Maria Isabel Santos Lobato, 17 anos, cresceu entre as visitas regulares à Comunidade Remanescente Quilombola Serra do Abreu e as histórias que atravessam gerações. É nesse território afetivo que ela une memória, ciência e mobilização comunitária para enfrentar um desafio que mexe com a saúde de todos: a falta de água que interrompe a produção de alimentos e empurra famílias para o consumo de ultraprocessados. Uma prática que pode aumentar o risco de doenças não transmissíveis (DNTs) como hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer.
O pertencimento de Isabel nasce do legado quilombola. “As comunidades quilombolas são aquelas que vêm de pessoas escravizadas que fugiram de seus senhores e migraram para espaços que fossem estratégicos e ali eles formavam suas comunidades. E, bom, nós somos os descendentes deles. Nós viemos continuando com essa comunidade que permanece, explica Isabel.”
Estudante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (Campus Picuí), a adolescente também faz parte do Comitê de Participação de Adolescentes (CPA) do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescentes (Conanda) e, em 2025, durante a COP 30, foi nomeada Jovem Ativista do UNICEF no Brasil, que hoje conta com quatro representantes adolescentes e jovens para a mobilização da sociedade em prol dos direitos humanos, com foco especial na infância, adolescência e na ação climática.
A conexão de Isabel com a temática de saúde começou antes mesmo dela nascer. Sua mãe, Maria José de Oliveira Santos, atuou como agente comunitária de saúde e percorria grandes distâncias a pé para levar cuidado a comunidades remotas.
UNICEF/BRZ/Roberto Kennedy
“Minha conexão com o tema de saúde existe por causa do histórico da minha mãe. Ela era agente comunitária de saúde e trabalhou em momentos de seca, que é quando não tinha plantas para comer, nem árvores e nem frutas. Eram momentos muito difíceis, onde crianças e adolescentes morriam muito. Então, eu sempre tive esse conceito dentro de mim: de como seria daqui para frente, sabendo que a gente enfrenta tantas secas, né?”.
É a partir do conhecimento de sua própria história que Isabel compreende a força da agricultura familiar e da segurança alimentar como pilares de saúde e dignidade e entende a importância de aplicar o que tem vivenciado em iniciativas locais. Em Serra do Abreu, a vida sempre se organizou de forma solidária. A cultura do mutirão, das hortas comunitárias e da subsistência agrícola mantém viva a autonomia do território. Mas a seca, cada vez mais severa, ameaça essas dinâmicas. Sem água, a alimentação saudável cede espaço aos ultraprocessados.
“Em períodos de seca que não se tem o poço, existe uma dificuldade muito grande porque a comunidade local não tem de onde tirar a água, não tem onde plantar, não tem o que fazer, não tem como ter comida na mesa diariamente. Com isso, eles têm que sair da comunidade, ir até a cidade, comprar a o alimento e, muitas vezes, essas pessoas não têm uma renda para conseguir comprar alimentos que sejam saudáveis e que sejam bons para manter durante o mês inteiro. Com isso, a procura por alimentos industrializados e ultraprocessados aumenta e acaba que os impactos da saúde vêm aparecendo assim, rapidamente. Então, a gente vê muitas vezes adultos ou até jovens com hipertensão, com problemas de saúde", conta.
Foi nesse contexto que Isabel encontrou, no Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA) de Picuí, iniciativa do UNICEF, um espaço para transformar preocupação em ação. No Brasil, essa atuação também integra o escopo da parceria global entre UNICEF e AstraZeneca, por meio do Programa Adolescente Saudável, que mobiliza adolescentes e jovens e poder público para priorizar a prevenção de DNTs e promover alimentação e hábitos saudáveis nas regiões Norte e Nordeste.
Do encontro entre saber tradicional e conhecimento científico, nasceu o projeto de Isabel: um sistema de filtragem e reutilização de águas cinzas (como as da pia e do banho) para irrigar hortas e fortalecer a produção local, mesmo em tempos de estiagem.
“Meu projeto trabalha com águas cinzas, justamente para poder fazer a reutilização dessas águas em comunidades assim, como Serra do Abreu, que passam por dificuldades de acesso à com água.” Ao garantir água para as plantas, a comunidade retoma a colheita de alimentos in natura, reduz a dependência de produtos industrializados e protege a saúde.
O protótipo de Isabel já foi testado na Comunidade Remanescente Quilombola Serra do Abreu, e os próximos passos estão em curso. A ambição é replicar a solução no território, ampliar o acesso à água para a agricultura familiar e consolidar a segurança alimentar como estratégia central de prevenção de DNTs.
“Poder pensar em como a gente pode solucionar problemas relacionados à seca, à alimentação é incrível porque a gente tem um poder gigantesco nas mãos. O jovem não só pensa, mas também executa e transforma o que seria só um pensamento em algo comunitário, algo que seja de bom uso, algo que, enfim, possa ser utilizado para melhoria de vida de outras pessoas", finaliza.