Conectividade na escola resgata memória histórica de comunidade indígena
Estudantes de uma escola indígena em Caucaia, no Ceará, produziram um documentário para eternizar as memórias das lideranças ancestrais de sua comunidade, formada pelo povo Tapeba. O acesso à conectividade foi o elo para esse encontro de gerações
Sessenta e seis anos separam a Pajé Raimunda, 80, e a estudante Lívia Sousa, 14, indígenas da Aldeia Jandaiguaba, no município cearense de Caucaia. O encontro do saber ancestral de uma com a desenvoltura tecnológica de outra resultou numa troca de experiências com um fim em comum: a preservação da história do povo Tapeba. Foi a curiosidade em conhecer as próprias raízes que levou Lívia e outros estudantes da Escola Diferenciada de Educação Infantil e Ensino Fundamental Abá Tapeba a produzir um documentário, em 2024, ouvindo as memórias dos anciãos da comunidade. A atividade foi desenvolvida dentro do projeto #TerritóriosConectados, uma iniciativa do UNICEF.
“Muita gente participou do projeto. Cada um fez uma coisa: um falou com as pessoas, outro entrevistou, outro fez a edição, que foi o que eu fiz, essa foi a minha parte. Alguns tiraram fotos, todo mundo fez algo. Isso fortaleceu nosso trabalho em grupo. Juntos, conseguimos fazer um trabalho melhor”, explica Lívia Sousa, estudante do 9º ano. Sobre a recepção dos idosos da comunidade, ela diz: “Nós fomos muito bem-recebidos. A gente chama (essas pessoas mais sábias e idosas) de troncos velhos, então não podemos deixar esse conhecimento morrer. Temos que ir lá conversar e saber a história real do povo Tapeba”.
Os “troncos velhos” são anciãos e lideranças mais experientes da comunidade considerados guardiões do conhecimento ancestral e da cultura do povo. “Os troncos velhos são a nossa história contada. Para eles, reviver a história do que eles fizeram no passado, do que adquiriram de conhecimento, fez com que eles se vissem mais úteis. Muitas vezes, as pessoas acham que os troncos velhos vão apenas dizer o que é certo ou errado na comunidade, mas não. Eles mostraram um pouco da nossa cultura, do artesanato, das cantorias”, relata Jonathan Lima, coordenador pedagógico da Escola Abá Tapeba.
Para Jonathan Lima, que também é conselheiro municipal de Educação e integrante da Comissão de Lideranças do povo Tapeba, a iniciativa teve um efeito pedagógico de entendimento sobre a luta indígena e de pertencimento para as novas gerações. “Nós procuramos esses indígenas que têm uma ancestralidade, um conhecimento vasto sobre a história do povo indígena (...). E as crianças começaram a, de fato, conhecer de onde vieram e saíram, passando a ter um olhar diferente e a se envolver na luta do nosso povo, a pensar na defesa dos direitos do povo Tapeba”, destaca.
O documentário aborda temas como o artesanato, os hábitos culturais, os ritos sagrados e a importância de uma árvore muito especial para o povo Tapeba. “A carnaúba é muito sagrada pra gente, é dela que a gente tira o traje, a nossa roupa. Tem gente que, muito antigamente, fazia casa com as palhas da carnaúba e também vassouras”, detalha Lívia.
Alunos e professores que constroem a iniciativa #TerritóriosConectados em Caucaia citam o despertar propiciado pelo projeto. “A gente usou muitos aplicativos que não conhecíamos, fizemos muitas coisas legais. A internet também melhorou bastante, porque a escola disponibiliza computadores para a nossa aprendizagem”, reforça Lívia.
Conhecimento multiplicado dentro e fora da escola
A estudante Ana Beatriz Ferreira, de 12 anos, estudante do 7º ano, também se engajou na novidade. “O que eu achei mais legal foi aprender a falar sobre o território, aprender mais sobre o projeto e usá-lo no futuro como aprendizagem”, resume. Vice-presidente do Grêmio Estudantil, Gustavo Sousa, de 14 anos, diz que o atrativo para ele foi a possibilidade de conhecer mais sobre tecnologia e novas ferramentas.
A Escola Abá Tapeba também recebeu do projeto #TerritóriosConectados o acesso à rede de internet 5G e tablets para o desenvolvimento das atividades. A tecnologia foi encarada como mais uma aliada da preservação da memória do povo indígena. “Nós somos uma comunidade não isolada, somos um povo urbanizado, mas não temos acesso a esses aparelhos (tablets). O próprio acesso à internet é algo difícil, a conexão cai com frequência”, relata Jonathan Lima. E acrescenta: “Quando os aparelhos e a conexão começaram a chegar, isso aproximou, até pela questão da pandemia, o velho do novo, sem prejudicar e sem causar grandes impactos à saúde das nossas comunidades. Veio para mostrar o fomento da cultura indígena ao nosso povo”.
Como parte da programação do #TerritóriosConectados, professores e estudantes participam de um ciclo de capacitações. No Ceará, a última delas reuniu, no dia 20 de maio, 15 escolas indígenas, quilombolas e rurais de Caucaia para debater as próximas etapas do projeto. “As formações nos auxiliam imensamente, porque abrem um leque muito grande para que a gente possa trabalhar o conteúdo tradicional da nossa cultura de uma forma mais atrativa para os alunos. Quando a gente coloca a tecnologia junto, gera o protagonismo”, reflete Ana Paula Monte, professora de História da Escola Abá Tapeba, que esteve na formação.
Jonathan Lima corrobora com a opinião da colega, explicando que o conhecimento repassado nos ciclos formativos é compartilhado nos espaços da escola e na aldeia. “Quando a gente vai para uma capacitação dessas, a gente volta com o coração cheio de alegrias e de novidades para transmitir. A gente separa um momento com o professor, faz os relatos absorvidos durante a capacitação e pede que o professor reserve um horário da aula para repassar esses conhecimentos às crianças através da tecnologia”, pontua.
Assista ao vídeo produzido pelos estudantes no canal da Escola Abá Tapeba no YouTube.
Sobre a iniciativa Territórios Conectados
O UNICEF atua no Brasil para fortalecer o direito de cada menina e cada menino estar na escola, aprendendo. Esse pleno desenvolvimento exige o acesso à conectividade e a uma educação integral que considere e integre as novas tecnologias da informação e comunicação (TICs). Desde 2021, com o projeto #TerritóriosConectados, o UNICEF tem atuado em parceria com organizações da sociedade civil em diferentes regiões do Brasil para ampliar a conectividade de escolas públicas e, ao mesmo tempo, fortalecer a cultura digital e práticas de educação de qualidade baseadas no uso das TICs. No Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Maranhão e em Roraima, o projeto é desenvolvido em parceria com a organização Casa da Árvore. Essa iniciativa do UNICEF é apoiada pela empresa francesa Vinci Energies*, por meio de uma parceria de longo prazo, e pela F1.
*O UNICEF não endossa nenhuma empresa, marca, produto ou serviço