“Comecei a trabalhar aos 8 anos, e saí graças ao UNICEF”

Aos 12 anos, Felipe ingressou no NUCA de seu município, conheceu seus direitos, saiu de uma situação de trabalho infantil, e hoje ajuda outras crianças e outros adolescentes

UNICEF Brasil
Felipe Caetano está sentado no pátio da escola. Ele usa a camiseta do NUCA, olha para a câmera e sorri. Atrás dele, com a imagem desfocada, está a escola com diversos estudantes.
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

12 junho 2019

“Eu comecei a trabalhar com 8 anos. E foi graças ao NUCA [Núcleo de Cidadania dos Adolescentes, ação do Selo UNICEF] que pude sair dessa situação de trabalho infantil.

No princípio, eu trabalhava catando latinhas e garrafas com meus primos. Eu tinha 8 anos de idade. A gente conseguia 10, 15 centavos. Isso, para uma criança que não tinha nada, já era lucro. Depois, comecei a trabalhar também de garçom, dos 10 aos 14 anos. Moro em Aquiraz, no litoral do Ceará. Trabalhava em barraca de praia, carregando peixe, carregando bebida, carregando coco. Enfim... o dia todo, às vezes das sete da manhã às sete da noite, eu desenvolvia esse trabalho. Era um trabalho bastante cansativo, bastante puxado.

Com 12 anos, em 2014, comecei a participar do NUCA do meu município. Por meio do NUCA, pude perceber que aquilo ali não era certo. Era uma violação de direitos. Eu parei para pensar: ‘nossa, eu estou lutando pelos direitos de crianças e adolescentes, mas eu também estou trabalhando. Estou retirando meus próprios direitos. Estou tentando garantir os dos outros, mas os meus estão sendo tirados’. Isso eu tinha 13 para 14 anos.

A partir daquele momento, eu disse ‘não vou mais trabalhar, e vou lutar para que outras crianças e adolescentes deixem de trabalhar também’. Há uma inversão de papéis. As crianças acabam ficando responsáveis por levar a renda para dentro de casa. Elas estão assumindo um papel que não é delas, que tem que ser dos pais, dos responsáveis por elas.

Parar de trabalhar é bastante conflituoso dentro da família porque você está tirando uma renda. Imagina ter que discutir com a sua mãe, com seu pai por que você quer deixar de trabalhar; que você quer brincar, quer aproveitar mais seu tempo, quer se dedicar mais aos estudos. Dizer isso é pesado para uma criança, mas é necessário.

Eu, por exemplo, saí do trabalho infantil porque eu me empoderei dos meus direitos. Inicialmente, houve um conflito dentro da família. Minha mãe também trabalhou quando criança. Ela estudou até o 4º ano do ensino fundamental e tinha uma mente bastante fechada. Quando eu deixei de trabalhar, me chamava de vagabundo, dizia que eu não prestaria, que trabalhar era bom. Mas, depois de um tempo, meus familiares foram aprendendo que aquilo ali é errado, que o melhor para mim, para a minha história era a educação. Porque parece que remédio para filho de pobre é trabalho. E não é.

Nove adolescentes, entre eles Felipe, posam para a foto. Eles estão dentro da sala de aula. Seis estão em pé. Três na frente de joelhos.
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

O papel do NUCA na vida de Felipe
Se não fosse pelo NUCA, eu não teria deixado de trabalhar. E, se eu não tivesse parado, minha irmã, hoje com 12 anos, também estaria trabalhando. E minha irmã de 6 futuramente também. Porque é um ciclo. O trabalho infantil gera um ciclo que tende a manter as pessoas nessa linha de pobreza.

O NUCA foi esse potencializador, capaz de me mostrar que eu tinha direitos e quais eram esses diretos. O direito à participação eu nem imaginava que existia! Hoje eu sei, e outros meninos também sabem que eles têm que ser ouvidos, que eles são prioridade absoluta. Isso está em lei, que tem que ser efetivado. O NUCA foi esse divisor de águas na minha vida.

Quem está mais próximo das crianças e adolescentes que estão vulneráveis são outras crianças e adolescentes. A gente parte de um empoderamento desses meninos, para que levem para outros meninos. Querendo ou não, o contato de uma criança com outra criança é mais fácil.

Aqui em Aquiraz, temos feito bastante ação e engajado bastante adolescente. No início, era um pouco complicado. Chegar para falar de participação em muitos espaços era difícil. Adultos fingiam que a gente não estava lá. Aos poucos, estamos mostrando que temos importância. Que, para erradicar algum problema que envolve crianças e adolescentes, tem que ouvir a criança e o adolescente.

Ao longo do tempo, o NUCA se tornou uma família. Os meninos que participavam ali eram colegas que eu tinha, outros que eu vim adquirindo. Ver que eles estavam saindo de situações que não eram agradáveis, estavam se envolvendo, participando, para mim era um processo único.

Todos eles, assim como eu antes de começar no NUCA, pensavam em, no máximo, concluir o ensino médio e trabalhar. Muitos nem pensavam em concluir o ensino médio, só em trabalhar... trabalhar na praia, fabricando tijolos, qualquer outra coisa. O NUCA mostrou que existe um universo além daquele círculo em que a gente vivia.

O NUCA nos deu asas
e permitiu à gente chegar mais longe.

Felipe Caetano, 17 anos

Planos para o futuro
Meu sonho é acabar com o trabalho infantil, 100%. Eu digo que só vou morrer feliz se um dia os índices de trabalho infantil, e na prática também, forem 0%. Que todas as crianças estejam na escola, estejam brincando, tenham direito a saúde, tenham direito a educação pública, gratuita e de qualidade, garantidos, como manda a lei. Assim, a gente vai ter adultos mais felizes, vai ter uma sociedade menos desigual, e pessoas melhores também. Porque a infância passa rápido, mas ela dura uma vida toda.

Eu hoje tenho 17 anos e estou no 3º ano do ensino médio. Quero fazer Direito. E quero ingressar no Ministério Público do Trabalho (MPT), para continuar combatendo o trabalho infantil e lutando pelos direitos das crianças e dos adolescentes. Porque eu vejo que esse é um caminho que vai me possibilitar ter as condições necessárias para ajudar pessoas. E mostrar que a Educação é o caminho e realmente pode transformar a vida das pessoas, assim como transformou a minha.”