"Aprendi a escutar com respeito"

Moradora da Maré, no Rio de Janeiro, a jovem Lorena participa do projeto #CRIAndoRede apoiando outras jovens no cuidado da saúde mental

UNICEF Brasil
19 outubro 2020
Lorena olha para a câmera, sorrindo com os olhos. Ela usa máscara e uma camiseta com o logo da Luta pela Paz
Arquivo pessoal

Lorena Froz tem hoje 18 anos, mas a Maré já faz parte da sua história desde criança. "A minha família não é daqui. Somos uma parte do Maranhão e outra do Pará. A primeira a chegar à favela da Maré foi minha tia e também madrinha. Foi no meu batizado que a minha história com a comunidade começou. Ela sabia que aqui eu teria mais oportunidades para estudar e foi assim que tudo começou".

Ainda criança, seu primeiro contato com um projeto social na comunidade foi por meio da biblioteca da ONG Redes da Maré, a única da região. "Eu tinha 9 anos quando a biblioteca foi inaugurada e, como gostava muito de ler e morava bem próximo, estava sempre por lá", conta Lorena, rindo.

"Como os livros eram caros e não era sempre que meus pais podiam comprar, a biblioteca passou a ser meu refúgio. Eu quase zerei a sessão infantojuvenil da época. Descobria coisas novas e me distraía, até porque na pré-adolescência tive dificuldades de adaptação na escola". 

Foi mais ou menos nessa mesma época que Lorena conheceu a Luta pela Paz: "Eu fiquei um bom tempo fazendo aulas de inglês e apesar de ter vontade, ainda não fazia as aulas de esporte de luta porque os meus pais não viam com bons olhos, especialmente por eu ser menina. Diziam que aquilo não para mim... Mas eu queria tanto fazer judô que consegui convencê-los, dizendo que essa modalidade era a mais leve. Fiquei três anos treinando judô, cheguei a participar do Conselho Jovem, representando a Luta pela Paz em diversos espaços. Acredito que essas experiências me ajudaram a ser quem eu sou hoje".

"Antes eu não via muitas mulheres fazendo atividades na Luta pela Paz e, hoje, sei o quanto isso também está ligado ao machismo. Naquela época, isso já me incomodava e me deixava desconfortável. Hoje o cenário é diferente". Lorena comemora que hoje, na maioria das aulas, há um grande número de alunas mulheres. E observa essa presença em toda a organização, seja na gestão, nas coordenações, em todas as áreas. "As mulheres precisam se sentir confortáveis em todos os espaços que ocupam. Se os homens se sentem confortáveis de ser de cozinheiros a astronautas, a gente também precisa ter o direito ao nosso espaço", afirma Lorena. E completa: "Em especial as jovens mulheres, porque é a juventude que está com todo o gás para promover a mudança. Precisamos usar essa nossa sede por mudança, típica da idade, para mudar também o mundo".

Outra paixão de Lorena, herdada da mãe, é a natureza. "Comecei a me envolver cada vez mais em diversas iniciativas para pensar e repensar o meio ambiente dentro da favela, seja pelo plantio de mudas e até mesmo nas discussões sobre o acesso ao saneamento básico na região". Hoje Lorena trabalha como educadora ambiental no curso preparatório para o ensino médio e para o 6º ano, e também como articuladora ambiental na ONG Redes da Maré. Lorena espera poder começar a sua graduação em Engenharia Ambiental, na Uerj, em que foi selecionada, e levar esses conhecimentos para a Maré.

"Quero poder falar da sustentabilidade que faça sentido para a favela. Quero uma sustentabilidade real, acessível e popular."

Lorena Froz, 18 anos, Rio de Janeiro

Hoje, além de ter voltado às aulas de muay thai, Lorena usa toda a sua potência como jovem mobilizadora do projeto  #CRIAndoRede, realizado pelo UNICEF em parceria com a Luta pela Paz em articulação com a Redes da Maré e o Observatório de Favelas, para multiplicar saberes e experiências sobre saúde mental dos jovens da comunidade. "Quando eu soube fiquei super empolgada. Justamente este ano que decidi cuidar da minha ansiedade e da minha saúde mental como um todo. Queria compartilhar essas minhas experiências com outros jovens, me sentir acolhida e poder acolher outras pessoas também".

"Aprendi muito a escutar com respeito, sem julgamentos e críticas", resume Lorena. Escutar as histórias de outras meninas e jovens mulheres e entender de onde parte cada um destes relatos. "Aprendi muito mais do que pude ensinar, mas acredito que pude passar para elas um pouco sobre o que significa ser mulher na sociedade, sobre a realidade brasileira e os tipos de assédio". Lorena se emociona ao lembrar as referências que compartilhou com as outras jovens.

"Muitas vezes, a linguagem usada não é de tão fácil compreensão para todas as pessoas, e o meu trabalho foi, justamente, fazer com que todo mundo entendesse e se sentisse confortável nas conversas". Para Lorena, essa foi a beleza do trabalho coletivo: entender o que cada menina estava passando em determinado momento. E respeitar. "Isso foi uma coisa que eu refleti muito: como falar sobre um assunto sem invadir o espaço do outro. Com certeza, esse aprendizado é algo que eu vou levar para sempre".