Bairro José Tchindongo António, uma comunidade que se tornou família.

O poder transformador entre autoridades, comunidade e parceiros.

Diva Lekhrajmal
O poder transformador entre autoridades, comunidade e parceiros.
UNICEF Angola/2026
30 Abril 2026

O bairro José Tchindongo António, conhecido localmente como KM 19, no município do Tômbwa, província do Namibe, passou por uma transformação profunda ao longo de 2025. O que antes era uma área com poucos habitantes tornou-se, num curto espaço de tempo, um espaço de acolhimento para centenas de famílias realocadas como resposta à emergência de cólera registada no município. A criação e ampliação do bairro representaram uma medida essencial de protecção imediata, mas a mudança física não eliminou, por si só, as vulnerabilidades que estas famílias já enfrentavam.

Maioritariamente composta por famílias cuja principal fonte de sustento é a pesca artesanal nas praias de Cabo Negro e Rocha, a comunidade do KM 19 continuou a lidar com desafios estruturais relacionados com o acesso a serviços básicos, saúde, educação e protecção infantil. Às dificuldades pré-existentes somaram‑se novas barreiras associadas ao processo de realocação, exigindo uma resposta mais integrada, sustentada e centrada nas pessoas, em especial nas crianças.

Foi neste contexto que vários actores se mobilizaram para apoiar a comunidade no seu processo de reconstrução e adaptação. O UNICEF, com o apoio financeiro da Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO), e colocando à disposição a sua experiência em contextos de emergência, apoiou  a Direção Municipal da Saúde (DMS) na implementação de um posto de saúde no bairro. Este serviço, em parceria com a PanAfricare, passou a assegurar cuidados essenciais à população, incluindo o rastreio activo de crianças com desnutrição aguda realizado por Agentes Comunitários de Saúde, garantindo o encaminhamento atempado e o acesso ao tratamento adequado.

O poder transformador entre autoridades, comunidade e parceiros.
UNICEF Angola/2026

Paralelamente, o UNICEF apoiou a expansão da resposta educativa, com a criação de novas salas de aula em duas tendas instaladas na escola local, permitindo absorver o aumento do número de crianças e assegurar a continuidade da aprendizagem num ambiente mais seguro e estruturado. No entanto, à medida que as intervenções avançavam, tornava-se cada vez mais evidente que, apesar destes progressos, persistiam desafios importantes, em particular a vulnerabilidade das crianças durante o período diurno, quando muitos pais e cuidadores se encontram no mar ou envolvidos nas actividades de pesca que garantem o sustento familiar.

A resposta a este desafio nasceu do diálogo e da articulação entre parceiros, autoridades locais e a própria comunidade. Um plano de intervenção social foi elaborado e discutido com a Administração Municipal do Tômbwa, num encontro realizado a 26 de Fevereiro, que ultrapassou o carácter protocolar e se afirmou como um verdadeiro exercício de planificação conjunta. Neste espaço, foram definidas estratégias de intervenção, clarificadas responsabilidades e estabelecida uma visão comum para a protecção e o bem-estar das crianças do bairro. A Direcção da Acção Social do Município assumiu a liderança da intervenção, sob supervisão da Administração Municipal, reforçando o papel do poder local na coordenação da resposta.

Bairro José Tchindongo António, uma comunidade que se tornou família.
UNICEF Angola/2026

O passo seguinte foi o engajamento directo da comunidade. No dia 4 de Março, representantes dos 24 quarteirões do bairro reuniram-se num encontro liderado pelo Soba, com apoio organizativo da Organização dos Jovens Solidários do Bairro. Para além da definição de metodologias de implementação, do número de beneficiários e da faixa etária a abranger, este encontro confirmou algo fundamental: o forte compromisso da comunidade com a protecção das suas crianças. A participação activa, o sentido de responsabilidade colectiva e a disponibilidade para contribuir foram elementos centrais deste processo, reforçando o sentimento de pertença e de união.

A partir de 10 de Março, foi intensificada a mobilização comunitária, permitindo beneficiar diretamente mais de 300 crianças com idades entre os 6 e os 59 meses, bem como os seus cuidadores, sobretudo mães e responsáveis pela preparação dos alimentos no seio familiar. Para assegurar a qualidade da intervenção, quatro mulheres da comunidade, entre jovens e mães, foram capacitadas em técnicas de culinária, higiene e segurança dos alimentos, bem como em combinações nutricionais adequadas, utilizando metodologias e materiais previamente testados. A formação privilegiou o uso de ingredientes locais, demonstrando que é possível garantir refeições nutritivas e equilibradas mesmo em contextos de recursos limitados.

As crianças passaram a receber uma refeição diária, de segunda a sexta‑feira, nas instalações da escola local. Para além da alimentação, cuidadores e famílias beneficiam de sessões regulares de informação e educação em saúde e nutrição, água, saneamento e higiene, e desenvolvimento infantil, reforçando conhecimentos e práticas essenciais para o crescimento saudável das crianças.

Bairro José Tchindongo António, uma comunidade que se tornou família.
UNICEF Angola/2026

Os impactos da intervenção já começam a ser sentidos de forma clara na comunidade, reflectindo-se na melhoria do bem-estar das crianças, no envolvimento activo dos cuidadores e no sentimento de esperança partilhado pelos moradores do bairro José Tchindongo António. A experiência do KM 19 demonstra que, quando autoridades locais, parceiros humanitários e comunidades trabalham de forma articulada, mesmo respostas simples podem gerar mudanças profundas e duradouras. Uma refeição preparada com cuidado, conhecimento partilhado e um forte espírito de solidariedade comunitária mostram que proteger as crianças é também construir um futuro mais justo e resiliente para todos.

O poder transformador entre autoridades, comunidade e parceiros.
UNICEF Angola/2026