Como disciplinar a sua criança de forma saudável
Disciplina positiva para promover uma melhor saúde mental e física e uma infância feliz.
Em algum momento, todos os pais e cuidadores podem sentir dificuldade em decidir a melhor forma de disciplinar a sua criança. Por vezes, ao lidar com o comportamento infantil, pode ser desafiante encontrar uma forma eficaz de comunicar com amor e cuidado, ajudando a criança a compreender as suas atitudes. Nenhum pai, mãe ou cuidador deseja gritar ou recorrer à violência física para educar os filhos, mas os adultos também podem sentir-se pressionados e reagir de forma inadequada, afectando o bem-estar emocional e físico da criança.
Em muitas famílias moçambicanas, as crianças são criadas não apenas pelos pais, mas também por avós, irmãos mais velhos e outros membros da comunidade. A disciplina positiva pode ser praticada por todos os cuidadores, contribuindo para um ambiente mais consistente, seguro e acolhedor para as crianças.
Muitos pais moçambicanos cresceram com castigos físicos e podem considerá-los normais. No entanto, a investigação mostra que as crianças aprendem melhor com orientação, respeito e consistência do que com medo. Os castigos físicos e outras formas de disciplina violenta podem prejudicar a saúde física e mental das crianças, afectar o seu desenvolvimento e enfraquecer a confiança de que precisam para se sentirem seguras e apoiadas.
Felizmente, há formas mais eficazes de orientar o comportamento das crianças. Uma delas é a disciplina positiva. O UNICEF consultou Lucie Cluver, professora de Trabalho Social com Crianças e Famílias na Universidade de Oxford e mãe de dois rapazes, para explicar como esta abordagem pode ajudar os pais a construir relações positivas com os seus filhos e a ensinar competências como responsabilidade, cooperação e auto-disciplina.
Porquê a disciplina positiva?
“Os pais não querem gritar nem bater nos seus filhos. Fazemo-lo porque estamos stressados e não vemos outra forma”, diz a Professora Cluver.
As evidências são claras: gritar e bater não funciona e, a longo prazo, pode causar mais danos do que benefícios. Gritos e agressões repetidos podem afectar a saúde, a aprendizagem, o comportamento e as relações da criança ao longo do tempo. O “stress tóxico” contínuo que isto provoca pode estar associado a vários resultados negativos, incluindo maior probabilidade de abandono escolar, depressão, consumo de drogas, suicídio e doenças cardíacas.
“É como dizer: aqui está este medicamento, não vai ajudar e vai deixá-lo doente,” diz a Professora Cluver. “Quando sabemos que algo não funciona, essa é uma boa razão para procurar uma abordagem diferente.”
Em vez de nos concentrarmos apenas no castigo e no que as crianças não devem fazer, a disciplina positiva valoriza a construção de uma relação saudável com a criança e a definição de expectativas claras de comportamento. A boa notícia para todos os pais é que esta abordagem funciona.
Veja como pode começar a colocá-la em prática:
1. Planear tempo a sós com a criança
O tempo a sós é importante para construir qualquer relação saudável e, em especial, para criar um vínculo forte com a sua criança. “Pode ser 20 minutos por dia. Ou mesmo 5 minutos. Pode combinar esse momento com actividades simples, como lavar a loiça juntos enquanto cantam uma canção ou conversar enquanto estende a roupa”, diz a Professora Cluver. Também pode aproveitar tarefas diárias, como ir buscar água, preparar refeições ou caminhar juntos para a escola.
“O mais importante é concentrar-se na sua criança. Por isso, desligue a televisão, afaste o telefone, coloque-se ao nível dela e aproveitem esse momento a sós.”
2. Elogiar os comportamentos positivos
Como pais, muitas vezes concentramos a nossa atenção nos comportamentos negativos das crianças. Elas podem interpretar essa atenção como uma forma de serem notadas, o que, por vezes, pode incentivar o comportamento desafiante em vez de o reduzir.
As crianças desenvolvem-se melhor quando recebem elogios. O elogio ajuda-as a sentirem-se amadas, vistas e valorizadas. “Esteja atento aos momentos em que fazem algo bom e elogie-as, mesmo que seja apenas brincar durante cinco minutos com um irmão”, recomenda a Professora Cluver. “Isto pode incentivar o bom comportamento e reduzir a necessidade de disciplina.”
3. Definir expectativas claras
“Dizer à sua criança exactamente o que quer que ela faça é muito mais eficaz do que dizer-lhe apenas o que não deve fazer”, diz a Professora Cluver. “Quando se pede a uma criança para não fazer desordem ou para se portar bem, ela pode não compreender o que se espera dela.” Instruções claras, como “Por favor, apanha todos os teus brinquedos e coloca-os na caixa”, ajudam a definir expectativas e aumentam a probabilidade de a criança cumprir o pedido.
“Também é importante definir expectativas realistas. Pedir à criança que fique calada durante um dia inteiro pode não ser tão viável como pedir 10 minutos de silêncio enquanto faz uma chamada telefónica”, diz a Professora Cluver. “Conhece aquilo de que a sua criança é capaz. Mas, se pedir o impossível, ela vai falhar.”
4. Distrair de forma criativa
Quando a criança começa a ficar perturbada, distraí-la com uma actividade mais positiva pode ser uma estratégia útil, diz a Professora Cluver. “Ao mudar de assunto, introduzir uma brincadeira, levá-la para outro quarto ou dar um passeio, pode redireccionar a energia dela para um comportamento positivo.”
O momento certo também é essencial. A distração funciona melhor quando se percebe que a situação pode piorar e se intervém cedo. Se a sua criança está inquieta, irritável ou aborrecida, ou se dois irmãos começam a discutir pelo mesmo brinquedo, agir rapidamente pode ajudar a acalmar a situação antes que se torne mais difícil.
5. Usar consequências calmas
Parte do crescimento é aprender que as acções têm consequências. Explicar isto claramente à criança pode incentivar um melhor comportamento, ao mesmo tempo que a ensina sobre responsabilidade.
Dê à sua criança a oportunidade de fazer a escolha certa, explicando a consequência do seu comportamento. Por exemplo, se quer que pare de riscar a parede, pode pedir-lhe que pare e explicar que, se continuar, a brincadeira vai terminar. Isto funciona como um aviso e dá-lhe a oportunidade de mudar de comportamento.
Se a criança não parar, aplique a consequência com calma e sem raiva, “e reconheça o seu próprio esforço por isso, não é fácil!”, acrescenta a Professora Cluver.
Se ela parar, elogie-a bastante, recomenda a Professora Cluver. “O que está a fazer é criar um ciclo de feedback positivo para a sua criança. As consequências calmas demonstraram ser eficazes para ajudar as crianças a compreender o que acontece quando se comportam mal.”
A consistência é essencial para uma parentalidade positiva, por isso é importante cumprir as consequências. Elas também devem ser realistas. “Pode retirar o telemóvel de um adolescente durante uma hora, mas retirá-lo durante uma semana pode ser difícil de cumprir.” Para crianças mais novas, uma consequência realista pode ser reduzir o tempo de brincadeira ao ar livre ou terminar uma actividade por um curto período.
Envolver crianças mais novas
O tempo a sós pode ser divertido, simples e totalmente gratuito. “Pode imitar as expressões da criança, bater com colheres em panelas ou cantar juntos”, acrescenta a Professora Cluver. “Há investigação extraordinária que mostra que brincar com as crianças estimula o desenvolvimento do cérebro.”
Envolver crianças mais velhas
Tal como as crianças mais novas, os adolescentes também procuram elogios e querem ser vistos de forma positiva. O tempo a sós continua a ser importante para eles. “Eles adoram que dance pela sala com eles ou converse sobre o seu cantor preferido”, diz a Professora Cluver. “Podem nem sempre demonstrá-lo, mas gostam. E é uma forma eficaz de construir uma relação nos termos deles.”
Ao definir expectativas, envolva as crianças mais velhas no processo sempre que possível. “Peça-lhes que ajudem a criar algumas regras”, sugere a Professora Cluver. “Sente-se com elas e procure chegar a acordo sobre o que se deve e não se deve fazer em casa. Também podem ajudar a decidir quais serão as consequências para comportamentos inaceitáveis. Envolvê-las no processo ajuda-as a perceber que compreende que estão a tornar-se mais independentes.”
O que pode fazer em situações de stress
Todas as famílias passam por momentos de stress. As dicas seguintes podem ajudar pais e cuidadores a responder de forma mais calma:
Faça uma pausa
Todos conhecemos o stress que surge quando sentimos que a criança está a ser difícil. Nesses momentos, fazer uma pausa antes de responder pode ajudar. Carregue no “botão de pausa”, como lhe chama a Professora Cluver. “Respire fundo cinco vezes, lenta e cuidadosamente, e vai notar que consegue responder de forma mais calma e ponderada. Pais em todo o mundo dizem que fazer essa pausa é extremamente útil.”
Afaste-se por um momento
Os pais muitas vezes esquecem-se de cuidar de si próprios, diz a Professora Cluver. “Reserve algum tempo para si, por exemplo quando as crianças estão a dormir, para fazer algo que a faça sentir-se feliz e calma. É muito difícil fazer tudo bem como mãe ou pai quando não se permite fazer uma pausa.”
Elogie-se a si próprio
É fácil esquecer o trabalho importante que faz todos os dias como mãe, pai ou cuidador, e deve reconhecer o seu próprio esforço, aconselha a Professora Cluver. “Todos os dias, talvez enquanto escova os dentes, reserve um momento para perguntar: ‘Qual foi uma coisa que fiz muito bem com os meus filhos hoje?’ E saiba que fez algo importante.”
Lembre-se que não está sozinho. “Milhões de pais em todo o mundo estão a tentar, e todos falhamos às vezes”, diz ela. O importante é tentar novamente.
Apoiar a disciplina em agregados familiares ocupados
Em muitas famílias, especialmente em Moçambique, pais e cuidadores criam várias crianças ao mesmo tempo, muitas vezes com o apoio de irmãos mais velhos, avós e outros familiares. Embora isso possa ser uma fonte de força, também pode tornar a disciplina mais desafiante. A boa notícia é que estratégias simples podem ajudar a criar um ambiente calmo e acolhedor para todos.
Defina regras familiares simples que todos compreendam
Regras claras e simples ajudam as crianças a saber o que se espera delas. Procure manter regras fáceis de lembrar, como;
- Falamos com respeito,
-Ajudamos nas tarefas de casa
-ou “Não magoamos uns aos outros.
Reserve tempo para explicar estas regras de uma forma que as crianças compreendam, usando a língua falada em casa. Quando todos conhecem as regras, torna-se mais fácil segui-las de forma consistente.
Envolva os irmãos mais velhos como modelos de comportamento, não como responsáveis pela disciplina
As crianças mais velhas podem desempenhar um papel importante na formação do comportamento, mas não devem ser responsáveis por disciplinar as crianças mais novas. Incentive-as a dar o exemplo, demonstrando gentileza, paciência e responsabilidade. Elogie as crianças mais velhas quando demonstram comportamentos positivos, pois as crianças mais novas têm maior probabilidade de copiar o que vêem.
Mantenha rotinas previsíveis
As rotinas diárias ajudam as crianças a sentirem-se seguras e protegidas. Procure manter horários regulares para refeições, tarefas, brincadeiras e sono, mesmo quando a rotina familiar é exigente. Rotinas previsíveis podem reduzir o stress e prevenir conflitos, pois as crianças sabem o que esperar ao longo do dia. Mesmo hábitos simples, como arrumar a mesa antes do jantar ou preparar-se para dormir à mesma hora todas as noites, podem fazer uma grande diferença.
Quando procurar apoio
A parentalidade pode ser desafiante e, por vezes, as famílias precisam de apoio adicional. Reconhecer quando procurar ajuda é uma parte importante do cuidado das crianças e dos cuidadores. Pedir ajuda é um sinal de força, não de fracasso.
Pode querer procurar apoio se:
- A criança apresentar agressividade ou isolamento persistentes, como brigas frequentes, raiva extrema ou ficar muito calada e isolada ao longo do tempo.
- Se sentir sobrecarregado ou incapaz de lidar com a situação, especialmente quando o stress, a frustração ou o cansaço dificultam uma resposta calma à sua criança.
- Houver violência em casa, seja entre adultos ou envolvendo crianças. Qualquer forma de violência pode prejudicar o bem-estar e o desenvolvimento da criança.
Se houver apoio disponível na sua comunidade, pode contactar:
- Líderes comunitários ou anciãos, que podem oferecer orientação e encaminhá-lo para serviços de protecção da criança disponíveis.
- Assistentes sociais ou serviços de protecção da criança, preparados para apoiar famílias e ajudar a manter as crianças seguras.
- Centros de saúde, onde enfermeiros e conselheiros podem oferecer orientação e encaminhá-lo para serviços adicionais.
- Linha de Apoio à Criança, através do número gratuito 116.
Lembre-se de que não está sozinho. Muitas famílias enfrentam momentos difíceis, e procurar ajuda cedo pode fazer uma diferença positiva para si e para a sua criança.
Criar crianças não é fácil, especialmente em tempos difíceis. Mas pequenas mudanças positivas na forma como orientamos e apoiamos as crianças podem fazer uma grande diferença no seu futuro. Todos os pais e cuidadores têm o poder de criar crianças com respeito, confiança e cuidado.
A disciplina deve manter sempre as crianças seguras e respeitadas. Nenhuma forma de disciplina deve causar dano, medo ou lesões.