“Sem água a gente não sobrevive”
Com acesso a água de qualidade, estudantes insulares de Barcarena (PA) têm novas condições para aprender
Em muitos territórios da Amazônia, o acesso não acontece por estrada, mas pelos rios. São deslocamentos fluviais que fazem parte da rotina de estudantes, professores e famílias - e que também influenciam diretamente o acesso a serviços básicos, como água tratada e saneamento.
Segundo dados do Censo Escolar 2025, 16,4% das escolas públicas (estaduais e municipais) do Pará apresentam acesso inadequado à água, impactando aproximadamente 126 mil crianças e adolescentes. A situação afeta principalmente territórios rurais e comunidades mais vulnerabilizadas, com impactos diretos na saúde, aprendizagem e permanência escolar.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) vem fortalecendo o Programa de Água, Saneamento e Higiene em municípios do Ceará, Pará e Amazonas, por meio da estratégia Escola Três Estrelas. Essa iniciativa promove melhorias de infraestrutura em escolas localizadas em áreas rurais e periféricas, além de formações para profissionais e gestores educacionais.
No Pará, a iniciativa acontece em Barcarena, onde o projeto ampliou o acesso a serviços essenciais em 25 escolas rurais do município. Uma delas foi a Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental (EMEIF) Jupariquara, localizada em uma comunidade insular.
Durante anos, a escola conviveu com limitações no acesso à água. O abastecimento de água potável enviado semanalmente pela prefeitura era suficiente para o consumo controlado de alunos e funcionários. Para atividades como limpeza, descarga e lavagem das mãos, a equipe escolar precisava buscar água diariamente no rio.
“Professoras e funcionárias iam buscar água em baldes. Depois, precisávamos esperar o barro decantar para conseguir usar. Dependendo da maré e da quantidade de sedimentos, isso levava mais de 24 horas”, relembra a professora responsável pela escola, Lívian da Silva. “A falta de água dificultava atividades básicas de higiene, limpeza e preparo de alimentos. Essa realidade impactava diretamente o cotidiano escolar”, conta.
UNICEF/BRZ/Luiz Marques
“A gente não podia lavar as mãos na torneira. A tia Dinair ia pegar água no rio para a gente lavar as mãos com sabão. Hoje é só abrir a torneira”, conta Sâmelli, estudante de 7 anos da escola.
Processo de formação e qualificação
A partir de um processo contínuo de mobilização, formação e apoio técnico às comunidades escolares, a iniciativa mobilizou escolas do campo do município em um processo de formação, apoio técnico e fortalecimento de capacidades em água, saneamento e higiene.
Das 70 escolas rurais do município, 62 participaram das atividades formativas, que incluíram autodiagnósticos das condições das unidades e a construção de propostas de melhoria pelas próprias comunidades escolares. Ao longo do processo, gestores e professores receberam mentorias e acompanhamento técnico para o desenvolvimento dos projetos.
Esse trabalho resultou na submissão de 61 propostas elaboradas pelas próprias escolas, fortalecendo a autonomia das equipes na construção de soluções para seus territórios.
“Eu não tinha computador, impressora, nada disso. A única coisa que eu tinha era uma caneta e bastante papel com pauta”, lembra Lívian. “Sentamos uma tarde, eu, as funcionárias e os alunos, e escrevemos o projeto à mão, juntos. Por isso, esse projeto tem um pedacinho de cada um de nós”, diz.
A proposta da escola Jupariquara foi uma das 25 selecionadas para receber melhorias estruturais no município.
As intervenções incluíram a instalação de um sistema de captação e tratamento de água da chuva, além de melhorias em saneamento, banheiros, bebedouros e estações de lavagem de mãos. Em um território amazônico marcado por altos índices de chuva ao longo do ano, a solução foi pensada para dialogar com as características ambientais e logísticas da comunidade.
Hoje, a água captada é suficiente para abastecer as atividades da escola e apoiar famílias do entorno.
Elaine Rodrigues, mãe de uma estudante da EMEIF Jupariquara, é uma das moradoras da comunidade que se beneficiam com a água captada na escola.
Dignidade menstrual
Além das melhorias de infraestrutura, o projeto também promoveu oficinas sobre higiene, lavagem das mãos e dignidade menstrual, fortalecendo o acesso à informação e contribuindo para a permanência escolar de meninas e adolescentes.
“Havia um balde improvisado dentro do banheiro para uso coletivo. Quando as adolescentes estavam menstruadas, era comum que não quisessem vir para a escola por que não havia água”, relata Dinair Rodrigues, auxiliar de serviços gerais da escola.
“Quando minha filha estava menstruada, ela deixou de ir à aula por causa disso várias vezes. Hoje fico mais tranquila sabendo que as crianças estão em um ambiente mais saudável e seguro”, afirma Elaine Rodrigues, moradora da comunidade e mãe de uma das estudantes da EMEIF Jupariquara.
Ao todo, o projeto impactou diretamente 1.751 crianças e adolescentes em Barcarena, contribuindo para a construção de ambientes escolares mais seguros, saudáveis e adequados ao aprendizado.
A implementação do projeto em Barcarena foi realizada pelo Instituto Peabiru e contou com apoio institucional da Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Educação (SEMED), e do Governo do Estado do Pará, via Secretaria de Estado de Educação (SEDUC).
Para ações de Água, Saneamento e Higiene em escolas nos municípios de Barcarena (PA), Caucaia (CE) e Manaus (AM), o UNICEF no Brasil conta com a parceria estratégica do Instituto Aegea.


