“Quero fazer mais pelas pessoas do meu território”

Thalita Nogueira tem 17 anos e, apesar da pouca idade, projeta um futuro de mobilização e ativismo nas favelas do Rio de Janeiro

UNICEF Brasil
Foto mostra uma adolescente sorridente olhando para a câmera. Ela tem os braços levantados e aos mãos projetadas para a frente. Ela usa uma camiseta preta com o logo do projeto Zona Nossa.
UNICEF/BRZ/Douglas Lopes
28 outubro 2021

Violências, preconceitos, saúde e direitos: esses são os temas que Thalita Nogueira julga essenciais em debates nas favelas. A menina de 17 anos é moradora da Nova Holanda, comunidade localizada no Complexo da Maré, Rio de Janeiro, e participou do Zona Nossa, projeto do UNICEF em parceria com a Luta pela Paz. Nascida e criada na favela, Thalita mora com os pais, a irmã e a avó e demonstra muito orgulho de suas raízes. “É incrível se sentir representada em outras pessoas”, afirma a adolescente.

Thalita cursa o segundo ano do ensino médio em uma escola federal no Rio de Janeiro e sonha em ser pesquisadora. Durante o Zona Nossa, esteve em contato com meninas da Maré e da Pavuna e participou de inúmeras discussões sobre temas que atingem diretamente os moradores dessas regiões. Dividido em duas etapas, o projeto contou com a participação de 20 meninas, no primeiro semestre de 2021, e 20 meninos, na segunda metade do ano. Violência baseada em gênero, racismo, identificação territorial e saúde mental foram alguns dos assuntos debatidos nos encontros online. Para Thalita, falar sobre essas questões com jovens que compartilham vivências semelhantes foi um ponto alto dessa experiência.

“Poder estar em um grupo de pessoas falando e conversando na mesma língua é como estar em casa, eu me sentia totalmente compreendida. Todos os debates e temas, por mais sensíveis e delicados que fossem, foram abordados da forma mais confortável e respeitosa possível”, conta.

Entre os principais assuntos debatidos no projeto, estava a violência baseada em gênero. Um levantamento feito pelo Núcleo de Estudos ISPMulher e pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), revela que, entre março e dezembro de 2020, mais de 73 mil mulheres foram vítimas de violência no Rio de Janeiro. Thalita afirma que esse número pode ser maior, mas muitas mulheres não sabem identificar quando sofrem esse tipo de violência.

“Eu acredito que, quanto mais a gente falar, mais fácil vai ser para combater. A gente precisa explicar, se expressar e fazer a informação chegar até as pessoas. Principalmente, levando em conta o lugar em que a gente mora. Nas periferias e favelas, muitas vezes, a informação não chega da forma correta”, pontua a adolescente. Essa afirmação de Thalita vai ao encontro dos planos no Zona Nossa. No decorrer do projeto, as turmas de meninas e meninos elaboraram uma campanha de comunicação abordando os principais temas debatidos. Com uma linguagem clara e estratégias de identificação, podcasts e capítulos de uma websérie foram produzidos pelos jovens e vão ao ar no fim de 2021.

Thalita também chama atenção para o fato de que favelados e periféricos estão em constante situação de vulnerabilidade e destaca a importância de projetos como o Zona Nossa e do debate sobre saúde mental.

“Quem mora em favela está sempre preocupado com mil coisas ao mesmo tempo. É a insegurança de ter uma operação, do filho não voltar da rua, de não ter garantia de que o emprego será mantido. Essas situações afetam a gente, o nosso psicológico. Então, essa também é a importância dos projetos que nos fazem olhar para o que está acontecendo e pensar no que pode ser feito para reduzir os impactos negativos dessa realidade”.

Essa motivação para pensar soluções e colocá-las em prática reflete a coragem e a força de uma adolescente grata ao seu território e às pessoas que vivem nele. “Eu pretendo continuar na mobilização. Com tudo que eu aprendi no Zona Nossa e observando as situações que acontecem na minha vida, eu quero fazer mais pelas pessoas do meu território. Quero levar informação a elas, assim como alguém trouxe para mim um dia”.