Da aldeia à nuvem: a língua Mawé conectada
Em Maués, AM, o Projeto Territórios Conectados fortalece a educação, amplia o protagonismo dos estudantes e incentiva o desenvolvimento de material didático em língua materna
Com apenas 15 anos, Hanna Sophia dos Santos já se destaca como uma voz firme e inspiradora entre os adolescentes e jovens do povo Sateré-Mawé, no Amazonas. Criada na Aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena Andirá-Marau, em Maués/AM, ela cresceu cercada pela sua língua materna e pela cultura de seu povo. Hoje, estudante do 1º ano do ensino médio indígena, não hesita em afirmar sua identidade: “nossa língua é muito importante para nós, do povo Sateré-Mawé”, diz com convicção.
O cotidiano de Hanna reflete o que o Territórios Conectados vem fortalecendo: a união entre tradição e inovação. Há muitos anos, o povo Sateré-Mawé luta para manter viva sua língua materna. Como conta Hanna, a comunicação é quase toda em Sateré-Mawé, sendo falada entre amigos e professores, e no convívio escolar. Faltavam, no entanto, materiais didáticos e conteúdos produzidos no idioma.
Foi aí que entrou o Territórios Conectados. O projeto busca melhorar a aprendizagem e o desenvolver competências digitais de professores, estudantes e gestores, oferecendo acesso à internet e incentivando práticas pedagógicas inovadoras com o uso de tecnologias, de acordo com os saberes e vocações de cada comunidade. Por meio do projeto, escolas de Maués usam a plataforma Passaporte para Aprendizagem para desenvolver materiais didáticos e paradidáticos para o ensino fundamental das escolas indígenas na língua Sateré-Mawé, e para acessá-los, mesmo em situações de baixa ou nenhuma conectividade.
O Territórios Conectados em Maués foi concebido para dialogar com as especificidades culturais e linguísticas do povo Mawé, respeitando suas tradições e valorizando sua identidade. Mais do que levar tecnologia para dentro das salas de aula, a iniciativa vem buscando fortalecer o papel da educação como ponte entre gerações, garantindo que os saberes tenham herança e, ao mesmo tempo, que crianças e adolescentes se preparem para os desafios do mundo contemporâneo.
Tecnologia como visibilidade à cultura indígena
Na visão de Hanna, o projeto contribui para que os estudantes sejam protagonistas na preservação da língua e cultura. Ao unir redes pedagógicas, lideranças locais e recursos digitais, o Territórios Conectados garante que o idioma Mawé siga vivo e fortalecido, e que crianças e adolescentes tenham acesso a materiais escolares na língua materna.
Hanna não é apenas uma participante: ela se tornou um exemplo de protagonismo. A adolescente se engajou ativamente no projeto e ajudou outros adolescentes que sentiam vergonha de falar a língua, por viverem na cidade de Maués, e não nas comunidades indígenas. “Quando tive a oportunidade de falar com esses adolescentes, falei e cantei na minha língua. A partir disso, eles acreditaram em mim, também quiseram aprender e cantamos juntos. Minha mensagem é de que não podemos ter vergonha de quem somos”, reforça Hanna. Esse gesto simples, mas poderoso, transformou percepções, já que outros adolescentes passaram a se sentir motivados a resgatar sua própria voz.
Para Hanna, a língua Mawé não é apenas memória. É resistência, é identidade e é o caminho para um futuro em que uma cultura indígena segue florescendo, sem medo e com muito orgulho.
Sobre a iniciativa Territórios Conectados
O UNICEF atua no Brasil para fortalecer o direito de cada menina e cada menino de estar na escola, aprendendo. E, mais do que nunca, reconhece que o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes exige o acesso à conectividade e a uma educação integral que considere e integre as novas tecnologias digitais de informação e comunicação (TDICs).
Desde 2021, com o projeto Territórios Conectados, o UNICEF tem atuado em parceria com organizações da sociedade civil no desenvolvimento e registro de experiências em escolas das diferentes regiões do Brasil. A iniciativa faz parte do programa global do UNICEF Learning Passport ou Passaporte para a Aprendizagem que serve como a acelerador técnico e digital para vários outros projetos com foco na promoção do acesso contínuo à educação digital.
Em 2024, o projeto atuou em 50 escolas nos estados do Amazonas, Roraima, Ceará, Pernambuco, Maranhão e Rio Grande do Norte. Para 2025, o Territórios Conectados estará presente em 105 escolas, sendo 47 indígenas, 28 quilombolas, 6 em áreas de assentamento e 24 em pequenos municípios.
Em Maués, o primeiro ciclo de atividades trouxe resultados expressivos: com 275 professores, gestores, estudantes e comunidades participando de seis formações em letramento digital; duas formações em comunicação e ativismo juvenil; 26 materiais paradidáticos produzidos, a maioria na língua Sateré-Mawé em dez escolas do território; e 284 professores e lideranças capacitados, alcançando 994 estudantes.
No Amazonas, o projeto é desenvolvido em parceria com o consórcio Makira E’Ta e Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (FOREEIA). Em Maués, é executado em parceria com a Prefeitura e com a Secretaria de Educação.
Para essa iniciativa o UNICEF é apoiado por uma parceria global com F1 e Adyen.
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