Meninas empoderadas empoderam as meninas
Educação das adolescentes, empoderamento e a participação em Bafatá
- English
- Portuguese
Bafatá, Guiné-Bissau, junho 2021 – Muitas precaridades impedem a autodeterminação de meninas e mulheres neste pequeno país da África Ocidental. Desde a propensão de abandono de escola, a conhecimentos limitados sobre higiene do período, como a frequência com que devem ser mudados os pensos higiénicos, ao casamento infantil e à mutilação genital feminina (MGF), as manifestações de desigualdade de género são interligadas e refletem uma sociedade em que a discriminação contra as raparigas e as mulheres é uma norma social.
A análise estatística na Guiné-Bissau sugere que até 52% das mulheres e raparigas entre os 15 e os 49 anos de idade foram submetidas à MGF, e existe uma coocorrência do casamento infantil, com até 37% das raparigas na Guiné-Bissau a serem casadas antes dos 18 anos. Apesar dos números desconcertantes, nota-se uma diminuição da ocorrência de ambos os fenómenos. Então, presente-se uma oportunidade para utilizar o desejo de mudança social e comportamental para continuar a investir na educação das meninas e usá-lo como meio de transformação nos agregados familiares, nas aldeias e no país inteiro.
Um consórcio de organizações, a Organização Guineense para o Desenvolvimento (OGD), a Ação Nacional para o Desenvolvimento (ANADEC) e a Rede de Combate à Violência Baseada no Género e Criança (RENLUV), implementaram um projeto de três anos voltado para 2500 meninas de idade escolar de 30 comunidades nas regiões de Bafatá e Gabú – regiões com a maior proporção de meninas fora da escola - financiados pela UNICEF através do Comité Nacional do UNICEF para França.
O projeto visa apoiar meninas entres as idades de 12 e 19 anos a completarem os seus ciclos de educação básica e depois prosseguir seus estudos. Combinado com programas desportivos, de liderança, capacitação e outras competências de vida, o projeto foi implementado através de centros de aprendizagem acelerados e através de diálogos comunitários, conhecidos localmente como djumbais.
Durante dois dias, no Centro de Formação de Professores Domingos Ramos, em Bafatá, adolescentes de 17 aldeias de Bafatá reuniram-se para aprender sobre seus direitos enquanto meninas e sobre os obstáculos que elas têm que enfrentar. Através de três seminários seguidos por apresentações, as meninas foram capacitadas para identificar os problemas em suas comunidades, e como poderiam ser as líderes de mudança.
O lema da conferência, Força di Badjuda sta na si Djiressa (a força de uma menina está em sua inteligência) reconhece que o investimento nas meninas é um investimento no desenvolvimento.
"Queria fazer parte do projeto para que pudesse aprender coisas que ainda não sabia."
Iama Mané, uma adolescente confiante de 19 anos, que também foi representante das meninas durante a cerimónia de encerramento, diz que apreciou os dias que passou na capital da região. "Os seminários acrescentaram nosso conhecimento, e gostaria de levar estes conhecimentos para casa e partilhar com nossos amigos que não puderam participar da sessão," explicou, sorridente. Ela está particularmente orgulhosa das músicas que gravaram juntas, cantando o lema da conferência, um método frequentemente usado na comunicação social no país.
Iama acrescenta, "em partilhar o conhecimento que tenho, outros também poderão o divulgar nas suas próprias comunidades. Se todos formos capazes de sensibilizar os outros e fazer mudanças em nossas aldeias, eventualmente espalhará por todo o país. Poderá até chegar ao governo, e os governantes saberão que pedimos a construção de escolas nas nossas aldeias, que pedimos água limpa, e que pedimos hospitais e médicos.”
"Queria fazer parte do projeto para que pudesse aprender coisas que ainda não sabia," explica a Iama. Segundo ela, o projeto de educação e empoderamento fez uma diferença real em sua aldeia de Gã-Tauda. "Voltei para a escola agora. O meu pai tinha-me tirado da escola porque não podia pagar as minhas aulas, mas agora, estou no 11º ano."
Como em muitos outros lugares de Bafatá e do país, decisões importantes nas aldeias e os seus membros são tomadas sem a inclusão e contribuição de jovens, muito menos das meninas. "Mas agora os nossos anciãos nos ouvem," diz ela, e a sua contribuição ajudou a erradicar práticas que eram comuns em Gã-Tauda, como o casamento forçado e a MGF.
Diz que o projeto também as ensinou sobre os seus deveres cívicos. Ter os mesmos direitos que os meninos é crucial para o desenvolvimento do país, mas tem outras questões que não devem ser esquecidas, por exemplo, a maneira de tratar as pessoas e o meio ambiente respeitosamente e saber como se prevenir de doenças. Durante o painel de encerramento, exprimiu que agora, ela e suas colegas poderiam falar com confiança sobre a pandemia de COVID-19 porque entendam de como se proteger do vírus.
"Conhecemos o nosso valor e nossa coragem enquanto meninas. Conhecemos nossos direitos enquanto crianças, bem como nossos deveres. Estou feliz que tivemos a oportunidade de fazer parte deste projeto e minha esperança é que será estendido ainda mais a outras aldeias."
A representante do UNICEF, Nadine Perrault, concluiu a conferência com uma mensagem para as meninas, "Seu futuro está em suas próprias mãos, e espero que em alguns anos quando eu voltar, vejo-vos sentado aqui no meu lugar, trabalhando para capacitar outras meninas para que elas também possam conhecer sua força."