"Ela come bem agora"

Melhorar a nutrição infantil em Gabú, Guiné-Bissau

Yasmina Silva
Djiba Seidi, 19-mo and her mother Aissato Baldé, 25, at Nutritional Recovery Centre in Gabú
UNICEF Guinea-Bissau/2021/Yasmina Silva
11 Janeiro 2022

Gabú, Guiné-Bissau, 17 de junho de 2021 – Djiba Seidi não engourdou desde o seu último peso no Centro de Recuperação Nutricional (CRN), no hospital central do Gabú. Mas mesmo assim, com 8,5 quilos, Djiba é a mais saudável que já foi segundo a sua mãe Aissato Baldé de 25 anos, "acabamos de terminar o seu check-up, e os médicos dizem que ela está saudável". 

"A minha filha era muito pequena quando chegámos aqui pela primeira vez. Viemos porque ela ficava frequentemente doente; corria sempre a altas temperaturas", continuou Aissato enquanto a Djiba murmurava em afirmação. Ela e Djiba tinham estado no centro de nutrição apenas um ano antes e permaneceram lá durante quatro semanas.

Inicialmente, Djiba teve dificuldades em se adaptar ao novo ambiente e aos novos alimentos que lhe foram introduzidos. Como muitos dos bebés que frequentam o CRN, Djiba não estava habituada a comer papas e resistia com força. Preferia comer arroz e carne como as crianças mais velhas e os adultos à sua volta. 

Irmã Florinda Costa e Sá, a supervisora do programa implementado pela Cáritas e facilitado pela UNICEF, confirma que a maioria dos bebés lutam com suas mães durante a alimentação. Muitas vezes choram e rejeitam as papas que lhes são dadas. "É sempre muito difícil no início", disse irmã Florinda, "mas uma vez habituados, é a única coisa que querem comer." Enquanto falava, a irmã Florinda passeava pelo centro ocupado que ressoava com gritos tanto como risos, sempre a corrigir as técnicas de alimentação das mães para que tornasse em uma experiência mais fácil para elas e para os seus filhos. Também celebrou com elas enquanto os bebés se acostumavam lentamente a papa, muitos dos quais até balbuciavam em queixa quando foi interrompido o pequeno-almoço. 

Djiba é a mesma coisa, provocou Aissato, "agora ela só quer comer papa, em vez do arroz". Então, apesar de não ter ganhado peso desde o seu último check-in, há esperança de que Djiba recupere totalmente da sua desnutrição, "ela come bem agora, e engordou. Pode-se ver que ela está melhor agora que costumava estar".

13-month-old twin sisters Seni and Sata eating at the CRN, Gabú
UNICEF Guinea-Bissau/2021/Yasmina Silva Irmãs gémeas Seni e Sata de 13 meses de idade a comer no CRN, Gabú

A desnutrição infantil é uma grande preocupação para o UNICEF, e tem consequências para todos os setores do desenvolvimento. Muitas vezes resulta em nanismo, em que crianças correm o risco de não alcançarem a sua altura máxima ou o seu potencial cognitivo. Também pode resultar em desperdício que causa enfraquecimento da imunidade e aumenta o risco de morte. Gabú é uma das regiões da Guiné-Bissau com as mais elevadas taxas de nanismo e mortalidade de crianças de menos de cinco anos, e mais de um terço dessas mortes atribuem-se à desnutrição. 

Acredita-se que a desnutrição é a maior causa de mortalidade infantil, porque compromete o seu sistema imunitário. A Guiné-Bissau tem uma elevada prevalência de má nutrição, atribuível à ameaça recorrente de insegurança alimentar para parte da população - até 20% dos agregados familiares rurais foram considerados em situação de insegurança alimentar no Inquérito de Monitorização da Segurança Alimentar do Programa Alimentar Mundial (PAM) e menos de 17% das crianças entre 6 e 23 meses receberam o requisito mínimo para a diversidade alimentar.

Para melhorar a saúde nutricional das crianças no país, o UNICEF tem trabalhado incansavelmente para promover a amamentação exclusiva de bebés com menos de 6 meses de idade, e tem trabalhado em colaboração com a Cáritas para ajudar na diversificação da dieta diária das crianças quando são introduzidos alimentos complementares. Apesar de melhorias constantes em todo o país, Gabú continua a ser uma região desafiante, com apenas 33% das mães a amamentar exclusivamente. Em termos de diversidade alimentar, apenas uma em cada doze crianças na Guiné-Bissau consome refeições com alimentos diversos. A grande maioria das dietas das crianças bissau-guineenses é composta principalmente por arroz com pouco mais para o suplementar. Os alimentos que ajudariam a diversificar as dietas infantis e a aumentar a nutrição, como vegetais, frutas e carne, são frequentemente produzidos para venda e não para consumo.  

No centro de recuperação nutricional, são fornecidos às crianças alimentos que ajudam a complementar as suas dietas e as mães são ensinadas a preparar os melhores alimentos para os seus filhos com produtos locais e baratos, para que, uma vez terminado o seu tempo no centro, os bebés não caiam de novo na desnutrição. "Ensinaram-me a fazer papas enquanto eu estava aqui para que a minha filha pudesse ser forte," confirmou Aissato. Os facilitadores do centro também ensinam às mães a importância de manter o ambiente e a comida dos seus filhos limpos, para evitar doenças.    

Djiba and Aissato after the weekly check-in
UNICEF Guinea-Bissau/2021/Yasmina Silva Djiba e Aissato após o check-in semanal

O centro de recuperação nutricional tem sido capaz de resumir os trabalhos lentamente desde o início da pandemia da COVID-19, e de acordo com a irmã Florinda, tentam o seu melhor para aderir a medidas sanitárias. Nestes tempos difíceis, é especialmente importante garantir que as crianças e as mães estejam bem alimentadas e cuidadas de modo a serem suficientemente fortes para combater as doenças. Aissato vai todas as semanas ao centro para ser abastecida com farinha de milho e para que Djiba possa ser monitorizada. Por vezes, até as crianças recebem chocolate.

Mas mais do que isso, o CRN tornou-se um lugar para a comunidade; assim como as visitas de monitorização a que assistem, as mães e os seus filhos - alguns dos quais têm até oito anos, e que ainda gostam de comer papas de vez em quando! - continuam a frequentar o centro para apoiar a equipa, dado que acumularam experiência na preparação de alimentos nutricionais, e para apoiar as mães e as crianças que ainda estão a tentar melhorar a sua saúde.

O projeto visou cinco países da região da África Ocidental onde se verificaram elevadas taxas de nanismo, incluindo a Guiné-Bissau. Com o apoio da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS), que representou 80% do orçamento nutricional da UNICEF Guiné-Bissau, a UNICEF concebeu e implementou um plano de ação de 2018 a Março de 2021 para apoiar os esforços do governo bissau-guineense para reduzir a desnutrição e melhorar a sobrevivência das crianças.