Assistindo as famílias mais vulneráveis da Guiné-Bissau durante a pandemia COVID-19

Programa de transferências monetárias para atingir 1.587 famílias vulneráveis em todo o país

Venicio de Carvalho, com apoio voluntário da Yasmina Silva
Azevedo Gomes with UNICEF's Monitoring & Evaluation Specialist, Bessa Vitor Da Silva
UNICEF/GuineBissau/Mendes
07 Maio 2021

O senhor Azevedo Gomes pertence a uma comunidade rural habitada por cerca de 500 pessoas, a qual se situa cerca de trinta quilómetros ao sul da cidade de Cacheu. Aos 98 anos, mantém-se firme e cultiva frutos e vegetais na sua quinta e até se lembra de ter sido um migrante sazonal na Gâmbia, onde trabalhou como estivador. Mas com o início da COVID-19 na Guiné-Bissau, o senhor Gomes, como muitos outros trabalhadores agrícolas do país, foram afetados negativamente pelas medidas de mitigação postas em prática para prevenir a transmissão da doença.

O estado de emergência declarado em 27 de março de 2020, fez com que as fronteiras e escolas fossem encerradas, os mercados, onde as colheitas de agricultores como o senhor Gomes eram anteriormente vendidas, enfrentaram restrições drásticas e o movimento entre as diferentes regiões foi limitado. A introdução da COVID-19 no país também coincidiu com a campanha do caju, que não teve sucesso com a diminuição da procura global.

O senhor Gomes e outros guineenses vulneráveis, que dependiam das receitas da castanha de caju e da venda de outros produtos, tanto a nível nacional como internacional, enfrentaram ameaças crescentes aos seus meios de subsistência e à insegurança alimentar.

Visando aliviar algumas das mais acentuadas consequências da pandemia nas populações mais vulneráveis da Guiné-Bissau, o UNICEF, apoiado pelo Fundo Fiduciário de Múltiplos Parceiros para a COVID-19, em coordenação com o PAM e o PNUD, interveio para garantir que essas famílias tivessem acesso a mecanismos de proteção social e económica, segurança alimentar e até mesmo apoio aos produtores de caju. Uma das aldeias identificadas para o programa foi a de Bianga, onde reside o senhor Azevedo Gomes.

Azevedo Gomes with his son and great-grandchildren
UNICEF/GuineBissau/Mendes

Recentemente acordado da sua sesta, ele deu as boas-vindas à equipa de implementação do programa sorrindo e perguntando sobre de onde eles haviam viajado. Muito feliz por receber a sua transferência de dinheiro, equivalente a dois terços do salário mínimo nacional, Gomes expressou que tem ajudado a melhorar a sua alimentação: “Eu compro peixe todos os dias. Gosto de peixe, é o meu prato favorito”. Ele acrescentou que o dinheiro também o tem ajudado a pagar as suas contas, incluindo as taxas escolares dos seus bisnetos.

Azevedo Gomes showing the SMS of payment
UNICEF/GuineBissau/Mendes

Ele pertence a uma das 1.587 famílias que receberam apoio em todo o país por meio da distribuição de transferências monetárias. O programa foi implementado distribuindo às famílias identificadas telefones e cartões SIM para permitir que as mesmas tivessem acesso aos fundos por meio de transferências monetárias via telefone. Os telefones celulares também eram essenciais, pois eram usados para conduzir pesquisas para informar os dados de linha de base e resultados alcançados. O acesso aos telefones também facilitou o mecanismo de feedback entre o UNICEF e os beneficiários, permitindo aos últimos as suas opiniões acerca do programa e apresentarem reivindicações, caso tivessem. O programa também avaliou o seu impacto por meio de medições tais como a diversidade da dieta alimentar de mulheres e crianças, grupos demográficos desproporcionalmente afetados pela pandemia. Dos domicílios identificados para o programa de transferência de renda, 66 por cento deles tinham como chefes de família as mulheres e a grande maioria tinha cinco ou mais dependentes. Com as escolas encerradas fechadas como forma de contenção, causas de stress adicionais foram colocadas nos principais cuidadores das crianças.

Azevedo Gomes
UNICEF/GuineBissau/Mendes

Mas o senhor Gomes continua esperançoso, “Tive a felicidade de viver uma vida longa e produtiva e cheia de experiência”, afirma.

Ele espera passá-lo para as gerações mais novas, assim como espera aprender com elas. O senhor Gomes renova-se a cada dia, apesar das precariedades da aldeia que fica isolada por estradas traiçoeiras e das adversidades em tempos de pandemia. Ele fica grato por encontrar um pouco de apoio para a sua subsistência, para que possa continuar sobrevivendo às piores consequências da COVID-19 e transmitir a sua sabedoria onde puder.