Educação Pré-Escolar: Pequenos Passos para um Grande Futuro
Novo currículo de educação pré-escolar prepara crianças na Guiné-Bissau para o futuro
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Quando chega ao Jardim de Infância de Plubá, em Bissau, capital da Guiné-Bissau, Beneciana, de 5 anos, pega no cartão com o seu nome e pendura-o numa corda com uma mola. É assim que as crianças da turma da professora Zinaida Imbana assinalam a sua presença na sala de aula de educação pré-escolar. Este gesto simples ajuda a criança a aprender sobre responsabilidade, a treinar a coordenação entre o olho e a mão e a praticar movimentos finos que, mais tarde, a ajudarão, por exemplo, a segurar corretamente um lápis. Mas, antes de tudo, Beneciana tem de dizer a primeira ‘palavra mágica’ do dia aos colegas e às professoras: "Bom dia".
Aqui, no Jardim de Infância de Plubá, tudo é pensado para promover a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças.
“As pessoas pensam que, no jardim de infância, as crianças só cantam e brincam, mas é muito mais do que isso e faz uma enorme diferença no seu desenvolvimento”, conta Zinaida, de 29 anos.
O que muitos chamam de brincadeiras, a educadora chama de atividades. “Quando uma criança enche uma garrafa com areia, está a exercitar a concentração e a motricidade fina”, explica Zinaida, gesticulando para ilustrar. “Quando uma criança bate em latas como se fossem tambores, aprende sobre ritmo e coordenação motora. E quando inventa canções ou canta com a professora, pratica a linguagem, a imaginação e a criatividade”, continua, com entusiasmo.
“As crianças têm de brincar.”
Nas suas aulas, Zinaida segue o novo currículo para a educação pré-escolar de crianças de 5 anos. Desenvolvido em 2024, em parceria com a Universidade do Minho e a Fundação Calouste Gulbenkian, este currículo visa uniformizar o ensino da primeira infância na Guiné-Bissau. Com o apoio do UNICEF Espanha e financiamento da Deloitte, 550 educadores de infância, incluindo Zinaida, receberam formação em Janeiro sobre como tirar melhor proveito desta nova ferramenta de ensino.
“Aprendi muito sobre a organização do ambiente educativo e como explorar as áreas de conteúdo do currículo”, partilha a professora. “Isto vai ajudar muito as crianças”, acrescenta, sorridente.
“A formação trouxe princípios novos que vão ter um impacto positivo na vida das crianças de 5 anos”, afirma Ensa Camará, técnico da Rede Nacional de Jardins de Infância (RENAJI). Ensa recebeu formação de formadores e, depois, transmitiu os conhecimentos a um grupo de educadores em Biombo. A RENAJI tem participado no processo de criação do novo currículo desde o início, apoiando o trabalho do Ministério da Educação Nacional, Ensino Superior e Investigação Científica (MENESIC) e do Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação (INDE).
Nesta fase-piloto, graças à formação de 550 educadores, cerca de 13 mil crianças já estão a beneficiar do novo currículo. O objetivo é observar os primeiros resultados, avaliar a aceitação do currículo e recolher as experiências de professores e alunos, para depois expandir a sua aplicação a todos os jardins de infância do país. Para apoiar este processo, o projeto conta com uma ferramenta de avaliação da qualidade da aprendizagem na primeira infância, chamada BEQI (Brief Early Childhood Quality Inventory), que fornece dados fundamentais para a tomada de decisões informadas sobre educação e o desenvolvimento das crianças. Na Guiné-Bissau, apenas 14% das crianças com menos de 5 anos têm acesso a educaçao pré-escolar.
Para Ensa, a educaçao pré-escolar “não é um investimento sem retorno”. Pelo contrário, é um “depósito a longo prazo” no futuro. “Uma criança que frequenta o jardim de infância adapta-se melhor ao ambiente escolar, é mais autónoma, sabe comportar-se em sociedade, desenvolve melhor a motricidade fina, o que lhe permite, por exemplo, segurar corretamente um lápis, e tem um melhor aproveitamento escolar”, explica Ensa, com entusiasmo. E confessa que fica feliz quando os pais notam a diferença na aprendizagem dos filhos.
Além disso, no jardim de infância, as crianças também aprendem a “saber estar, respeitar e ser respeitadas”, acrescenta Zinaida. Um exemplo perfeito disso são as ‘palavras mágicas’ que as crianças da educadora já sabem de cor. “Bom dia, boa tarde, desculpa, com licença, por favor, obrigado, seja bem-vindo e até logo”, dizem, em uníssono
Com o novo currículo, “as crianças vão estar melhor preparadas”, reforça Zinaida. “O que aprendemos na formação é que devemos dar mais liberdade às crianças para aprenderem ao seu próprio ritmo e prestar atenção individual a cada uma.”
"Com uma última 'palavra mágica', Beneciana despede-se, sorrindo, da educadora e dos colegas no final do dia. Talvez ainda não saiba, mas estes pequenos gestos e momentos de aprendizagem vividos no Jardim de Infância de Plubá estão a abrir portas para o seu futuro — um futuro onde poderá crescer, aprender e sonhar mais alto. Zinaida, por sua vez, observa-a regressar a casa com ternura e um sorriso. “Eu amo o meu trabalho”, diz, enquanto arruma a sala. Amanhã, Beneciana e os colegas voltarão a encher aquele espaço de cor, sons e alegria.