" Empoderar para mudar: A história de uma heroína da saúde comunitária"

Mulheres agentes comunitárias de saúde criam uma ponte para os serviços de saúde e desafiam as normas sociais na Guiné-Bissau

Ana Ernesto
Lariza visita Francisca Silva na Tabanka de Clonato.
UNICEF Guinea-Bissau/2023/Ernesto
04 Março 2024

Em Clonato, outro dia comum nasce. Esta pequena comunidade vibrante, um pilar da região de Biombo, é uma mistura de características urbanas e rurais, onde as dinâmicas socioeconómicas e culturais da Guiné-Bissau se encontram com um modo de vida moldado pela natureza e tradição.

A hora do almoço traz vida à casa de Francisca Silva. As gargalhadas e os choros dos seus cinco filhos enchem o ar, dando as boas-vindas a Lariza Cabral, de 36 anos, a agente de saúde comunitária de Clonato. A sua missão estende-se para além de meras visitas; Lariza dedica-se a acompanhar o bem-estar das famílias, trazendo conhecimentos sobre saúde e educando os vizinhos sobre práticas de saúde preventivas. Ela pergunta sobre alterações no número de membros da família e o seu estado de saúde, conduz uma série de testes de rastreio para identificar problemas de saúde precocemente e discute quaisquer preocupações de saúde que a família possa ter. Lariza também assumiu a tarefa vital de informar as famílias sobre a importância da vacina contra a COVID-19, garantindo que a comunidade permanece protegida contra os longos e duros impactos da pandemia.

O seu compromisso com o bem-estar das famílias, marcado por visitas regulares às casas, faz de Lariza uma pessoa de confiança, uma figura que transcende o papel de uma simples trabalhadora de saúde. Ela é alguém que presta conselhos e serviços essenciais, não apenas para Francisca, mas para muitas outras famílias da comunidade. Caso precisem de qualquer tratamento nos serviços de saúde, eles poderão contar com o apoio dela.

No entanto, a jornada de Lariza para se tornar uma pessoa confiável no coração da comunidade incluiu uma boa dose de obstáculos.

"No início foi difícil porque as pessoas não queriam ouvir-me e às vezes faziam comentários desagradáveis", - ela conta. No entanto, superando os momentos de desânimo e dúvida, Lariza perseverou, conquistando a confiança e o respeito da comunidade ao longo do tempo. O seu trabalho de sensibilização foca-se em temas como higiene, nutrição e prevenção de doenças - especialmente malária, diarreia e pneumonia. Lariza adapta as suas mensagens para ressoarem com as preocupações de mães, mulheres grávidas e cuidadores.

"É mais fácil falar com as mulheres porque elas são mais pacientes e são elas que cuidam dos outros, especialmente das crianças." - explica Lariza - "As mulheres sentem-se à vontade para falar comigo".

"As mulheres sentem-se à vontade para falar comigo".

Lariza fala com a família sobre a alimentação das crianças e responde a perguntas. As raparigas e as mulheres sentem-se à vontade com ela.
UNICEF Guinea-Bissau/2023/Ernesto Lariza fala com a família sobre a alimentação das crianças e responde a perguntas. As raparigas e as mulheres sentem-se à vontade com ela.

Os agentes de saúde comunitária desempenham um papel crucial na Guiné-Bissau, onde a qualidade e o acesso aos cuidados de saúde primários são um desafio significativo para a população. Existem cerca de 2400 agentes de saúde comunitária neste pequeno país da África Ocidental, um número que fica drasticamente aquém, especialmente considerando que a maioria das comunidades (66%) está situada em áreas rurais remotas e de difícil acesso, onde é comum ter de caminhar mais de uma hora para chegar ao centro de saúde mais próximo. Este trabalho transcende o corriqueiro, tornando-se uma missão no verdadeiro sentido. Os agentes de saúde comunitária servem como um elo vital entre as comunidades e os serviços de saúde formais, promovendo a confiança num sistema de saúde primário que está apenas agora a começar a recuperar após décadas de negligência.

Para além destes desafios, outra questão profundamente enraizada complica ainda mais o panorama. Lariza é uma excepção na sua área: ela parte da minoria de 16% de agentes de saúde comunitários que são mulheres, um contraste acentuado com a média global de 70%, destacando um acentuado desequilíbrio de género. Ela está empenhada em servir a comunidade como voluntária, apesar da modesta compensação financeira de apenas 10.000 XOF (aproximadamente 16 USD) por mês. A falta de autonomia económica e incentivos financeiros representa sérios constrangimentos, e Lariza, mãe solteira, complementa os seus deveres comunitários vendendo vinho de palma e bolos caseiros para sustentar a filha. No entanto, isto não a desencoraja. Como ela enfatiza com orgulho, a sua motivação vem do desejo de servir a comunidade e não do ganho financeiro, um sentimento que enche de orgulho a filha e a família.

A paridade de género é ainda uma utopia na Guiné-Bissau, limitada por normas sociais enraizadas, tradições e papéis de género estereotipados. Isto é demonstrado por dados preliminares de um estudo de avaliação do UNICEF sobre o "Plano de Comunicação Estratégica do Programa Alargado de Imunização da Guiné-Bissau". Este estudo, juntamente com o apoio à integração da vacina contra a COVID-19 nos programas de imunização de rotina, representa uma importante realização fruto da subvenção financeira do Governo do Canadá. O mesmo revela que as perceções dos parceiros podem influenciar significativamente o sucesso das mulheres agentes de saúde comunitária, servindo como uma barreira ou um catalisador. O casamento, influenciado por pressões sociais e normas de género enraizadas, muitas vezes torna-se um obstáculo, com algumas mulheres obrigadas a abandonar os seus papéis de agentes comunitárias após o casamento devido a estes factores. Esta questão é ainda exacerbada pela falta generalizada de autonomia entre as mulheres.

O processo de seleção para os agentes de saúde comunitária ilustra claramente estes desafios baseados no género. As decisões são tomadas pelos líderes tradicionais, conhecidos como o Chefe da Tabanca ou o Comité, e muitas vezes refletem as normas de género e preconceitos predominantes. Estes líderes tendem a selecionar homens em vez de mulheres, influenciados pela preocupação de que as responsabilidades associadas à função de agente de saúde comunitária possam entrar em conflito com as expectativas sociais impostas sobre as mulheres.

Quando Lariza foi nomeada pelo Chefe da Tabanka, sentiu uma mistura de cepticismo racional e esperança instintiva. Apesar de estar perfeitamente consciente das barreiras tradicionais, o seu entusiasmo e a esperança ardente de contribuir activamente para o bem-estar da sua comunidade permaneceram inabaláveis.

No entanto, o destino interveio de forma positiva, abrindo caminho para a sua inusitada nomeação quando os candidatos indigitados, ambos homens, desistiram da posição. Agora, após quatro anos com este papel, o Chefe da Tabanka de Clonato reconhece sem reservas os feitos de Lariza.  "Ela tem ajudado muitos doentes que não vão ao centro de saúde e ficam em casa" - diz Inácio Cabral, de 56 anos. As mudanças no comportamento e na saúde da comunidade desde que Lariza começou o trabalho são evidentes para todos.

Os agentes de saúde comunitária desempenham um papel crucial na Guiné-Bissau, onde a qualidade e o acesso aos serviços de saúde primários constituem frequentemente desafios significativos para a população.

 

 

O líder tradicional da comunidade de Clonato, Inácio Cabral, notou mudanças positivas desde que Lariza começou o trabalho.
UNICEF Guinea-Bissau/2023/Ernesto O líder tradicional da comunidade de Clonato, Inácio Cabral, notou mudanças positivas desde que Lariza começou o trabalho.

O UNICEF tem apoiado o Governo da Guiné-Bissau no desenvolvimento de estratégias e políticas para programas de saúde comunitária no âmbito do sistema nacional de saúde. Agora, com o generoso apoio canadiano, o UNICEF pretende abordar os condicionalismos relacionados com o género enfrentados pelas mulheres agentes de saúde comunitária e reforçar o papel delas no sistema de saúde. Através da promoção de mudanças sociais e comportamentais, o UNICEF procura integrar serviços de cuidados de saúde primários sensíveis ao género na Guiné-Bissau, capacitando mulheres como Lariza, para desempenharem o seu papel vital.

Contando com o apoio dos agentes comunitários de saúde, o UNICEF está também a defender a integração da vacinação contra a COVID-19 nos programas nacionais de imunização de rotina, para que todos possam ter acesso à vacina. Graças ao apoio canadiano, o objectivo é não só aumentar o acesso equitativo e a adesão à vacina contra a COVID-19, mas também reforçar a resiliência do sistema de saúde nacional, ao mesmo tempo que se atinge o nível global recomendado de vacinação.

De volta a casa de Francisca, Lariza continua o seu trabalho, rodeada por uma sinfonia de olhos dos pequenos curiosos que observam com admiração esta figura de autoridade na comunidade. Francisca pede-lhe conselhos sobre a amamentação, porque a filha de um ano ainda não foi desmamada. Lariza explica-lhe pacientemente como introduzir outros alimentos na dieta da bebé, cuidando das suas necessidades nutricionais. São pequenos toques como estes que mostram como o seu apoio é personalizado. Um membro importante da sua comunidade, uma agente comunitária de saúde destemida.

 

Lariza é uma raridade na Guiné-Bissau. No país, apenas 16% dos agentes comunitários de saúde são mulheres.
UNICEF Guinea-Bissau/2023/Ernesto Lariza é uma raridade na Guiné-Bissau. No país, apenas 16% dos agentes comunitários de saúde são mulheres.