Guiné-Bissau: A educação inclusiva cria uma experiência mais rica para todos

Aprendendo todos juntos

Por: Ruth Ayisi
Guinea-Bissau – Inclusive education brings a richer experience for all
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi
10 Agosto 2024

Quando Nádia Cá, de 15 anos, e Fatumata Candé, de 12 anos, se expressam, fazem-no com mais autoconfiança do que a maioria dos adolescentes. Elas falam com entusiamo sobre os seus planos para o futuro, as suas aulas favoritas e passatempos. Elas também cuidam muito bem da sua aparência. Estão vestidas com jeans modernos e t-shirts, e no cabelo trazem as tranças da moda. No entanto, as primeiras impressões escondem as lutas que elas enfrentam. Nádia é surda e Fatumata é cega.

Nádia começou a estudar quando tinha 8 anos, numa escola onde nenhuma outra criança tinha deficiências visíveis. Na altura, a professora não a incluía nas actividades. 

"Eu só me sentava lá e não entendia nada," explica Nádia em língua gestual. 

Os seus grandes olhos focam-se intensamente nos gestos de uma professora sentada ao seu lado que desempenha o papel de intérprete. "Foi só quando estava a ir buscar água para casa que uma vizinha me falou sobre esta escola."

Nadia Ca, 15, demonstrates the sign language she uses to communicate
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Nadia Ca, 15, demonstrates the sign language she uses to communicate.

A escola, situada em amplos terrenos com plantas exuberantes e edifícios bem conversados no coração da capital, Bissau, foi inaugurada em 2010. Apoiada pela Cooperação Portuguesa para o Desenvolvimento, a escola tem cerca de 450 alunos, a maioria dos quais são surdos. No entanto, apenas nos 11.º e 12.º anos é que os alunos com e sem deficiência auditiva aprendem juntos, devido à falta de intérpretes de língua gestual para português para os outros anos. Cada aluno paga 1.500 CFA (US$ 2,50) por mês, mas as famílias pobres que não conseguem pagar as propinas não são rejeitadas.

Nádia, agora no 5.º ano, é a melhor da sua turma. “A minha disciplina favorita é matemática,” gesticula Nádia. 

Ela conseguiu mostrar como a sua mente é rápida na matemática numa competição interescolar, chamada Ka Nô Para Aprendi - Mostra bu Djiressa, organizada no ano passado pelo Ministério da Educação e pelo UNICEF, em que a sua equipa ficou em primeiro lugar. “Também adoro a língua gestual.” Ela gesticula com confiança, muitas vezes enfatizando um ponto ao acenar ou abanar a cabeça enfaticamente.

Nádia, que vive com a mãe o pai e quatro irmãos e irmãs, é a única surda da família. “Se eu precisar de lhes explicar algo, apenas escrevo, pois eles não conhecem todas as palavras em língua gestual.” Ela faz uma pausa e reflecte, antes de acrescentar: “Às vezes fico frustrada quando não consigo entender um programa de televisão que todos estão a ver juntos e a gostar, então vou para a cama. Acho que é mais fácil para mim comunicar na escola.”

Numa escola próxima, Fatumata frequenta uma turma de crianças com e sem deficiência visual. Sentada ao lado de uma menina sem deficiência visual, Fatumata ouve a professora e escreve com o apoio do instrumento de pauta de braille. Fatumata, que está no 4.º ano, não frequentava a escola antes de chegar a esta escola inclusiva, aos 9 anos. “A minha mãe levou-me à Gâmbia para uma operação aos olhos, mas a operação falhou,” diz ela sem qualquer traço de autocomiseração.

Tal como a escola para surdos, a escola inclusiva para cegos também foi criada pela Cooperação Portuguesa para o Desenvolvimento. Dos seus 380 alunos, 56 são cegos, e há um total de 30 professores, 12 dos quais são cegos.

O director da escola, Elísio Mário Gomes, explica que apenas os alunos cegos são internos na escola. Isto deve-se ao facto de muitas das crianças terem sido abandonadas ou viverem longe. Mesmo para aquelas crianças que vivem perto da escola, seria perigoso fazer o caminho diário por passeios e estradas que não estão adaptados para elas.

Fatumata in the school grounds
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Fatumata in the school grounds

Nádia e Fatumata, assim como as outras crianças nas suas escolas, são mais afortunadas do que a maioria das crianças com deficiências nesta nação da África Ocidental. Embora não existam dados precisos sobre quantas crianças com deficiência estão fora da escola, no geral, um número enorme de crianças, com e sem deficiência, não tem o seu direito à educação respeitado. Cerca de 27,7 por cento – quase um terço – das crianças em idade primária estão fora da escola. Evidências anedóticas sugerem que muitas crianças com deficiência são mantidas escondidas em casa ou são abandonadas.

Tem havido progressos recentes para melhorar a inclusão no sector da educação. Notavelmente, no ano passado, o Governo aprovou a primeira Estratégia Nacional para a Educação Inclusiva, que orientará a educação das crianças mais vulneráveis, incluindo aquelas com deficiência. O UNICEF apoiou o desenvolvimento tanto da política quanto do plano de acção junto com a ONG Humanity and Inclusion.

Ainda há muito a ser feito. "Embora durante as minhas visitas às escolas consiga ver que algumas estão gradualmente a tornar-se mais inclusivas, todas as escolas precisam de fornecer instalações acessíveis, os professores precisam de ser treinados sobre como prestar um apoio especializado, e as comunidades precisam de se tornar mais conscientes sobre a educação inclusiva, com um foco particular em como abordar adequadamente as necessidades das crianças com deficiências,” diz Lígia Baldé, o Ponto Focal da Educação Inclusiva do UNICEF na Guiné-Bissau, que é surda de um ouvido. 

“E é crucial a mudança de atitudes na sociedade em relação às crianças com deficiências.”

O professor de matemática de Nádia, Marcos Miguel José de Barros, que é surdo, conhece muito bem os desafios que as crianças com deficiências enfrentam. Ele ficou surdo após um acidente de carro quando tinha 5 anos e lembra-se do seu pai dizer: “Já não precisas de ir à escola, porque não consegues ouvir.” Barros agradece a um amigo do pai por ter tido uma educação.

Barros diz que o principal desafio que enfrenta agora como professor é que não há materiais visuais suficientes. “Como não tenho muitos recursos visuais, passo demasiado tempo a escrever no quadro-negro.” Ele acrescenta que a escola também precisa de mais intérpretes de língua gestual para português, a língua nacional, para que todas as aulas possam ser mistas, com crianças que ouvem e crianças surdas.

Fatumata on the right in the second row reads braille
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Fatumata on the right in the second row reads braille

A professora de Fatumata, Mariazinha Pocole, é uma professora sem deficiência, que acolhe com entusiasmo a oportunidade de ensinar numa escola inclusiva. "Adoro ensinar esta turma com crianças videntes e cegas, e estou a aprender braille," diz ela. "As crianças cegas e as crianças que veem aprendem e brincam juntas," afirma. "Acho que as crianças cegas aprendem mais rapidamente do que as que têm visão, pois tendem a manter melhor o foco."

Elísio Mário Gomes, o director da escola, aponta que a procura por vagas está a aumentar e que precisam de mais carteiras para as crianças. Ele diz que a AGRICE, uma ONG nacional para a reabilitação e inclusão dos cegos, realiza actividades de consciencialização nas comunidades e resgata crianças que foram abandonadas. "Eu sou apaixonado por este trabalho," diz Gomes. "As nossas crianças têm diferentes ambições, por exemplo, algumas querem ser professoras, outras advogadas." Ele acrescenta que um menino que a AGRICE encontrou abandonado num monte de lixo está agora a estudar no Brasil. Ainda assim, muitas crianças cegas estão à espera de uma oportunidade na vida.

Quanto à Nádia e Fatumata, elas têm a certeza de que vão conseguir seguir os seus sonhos. Nádia diz que quer ser professora e Fatumata quer trabalhar num jardim de infância. "Adoro crianças pequenas," conta Fatumata. Ela já passa algum tempo com crianças pequenas no jardim de infância da escola e adora cantar para elas. Antes de Fatumata ir embora, oferece-se para cantar uma das suas músicas favoritas. A sua voz é melódica e ela canta o refrão com o coração. "Baby, não chores, tudo vai ficar bem."

Children at the inclusive school for the blind wash their hands
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Children at the inclusive school for the blind wash their hands