Sintonizar o Futuro: Aulas de Rádio Empoderam Gerações na Guiné-Bissau

Meninas e jovens melhoram competências e aprendem os seus direitos em projecto de reforço escolar e prevenção da Mutilação Genital Feminina e Casamento Infantil

Ana Ernesto
Na Escola de Cutame, em Gabú, as crianças ouvem a aula de rádio. Sentam-se em círculo na sala de aula, em completo silêncio, a ouvir atentamente uma história. No centro, no lugar habitual do professor, encontra-se um pequeno rádio, que assume hoje o papel principal
UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ernesto
18 Dezembro 2024

Na Guiné-Bissau, aulas pré-gravadas fazem parte do programa “Educação Infantil através da Rádio”, adoptado pelo Ministério da Educação Nacional, Ensino Superior e Investigação Científica (MENESIC) desde 2020. Este ano, com financiamento do Comité Nacional Francês para a UNICEF, mais de 200 aulas estão a ser transmitidas em comunidades escolares das regiões de Gabú e Bafatá para melhorar as competências essenciais de literacia e numeracia das crianças e criar uma rotina educativa que promove a participação activa de pais e cuidadores. Há módulos para crianças com conhecimentos equivalentes ou inferiores ao 3.º ano, bem como para crianças com níveis de literacia equivalentes ou superiores ao 4.º ano, incluindo aquelas fora do sistema escolar.

Esta manhã, os alunos mais novos da Escola de Sonaco e outras crianças fora do sistema escolar na região de Gabú, no leste da Guiné-Bissau, participam numa aula de reforço, seguindo atentamente as lições gravadas. Estas aulas não só despertam o interesse das crianças pela aprendizagem, como também as ajudam a compreender melhor disciplinas essenciais, como matemática e língua portuguesa, enquanto exploram tópicos importantes como direitos humanos, cidadania e igualdade de género. Um facilitador voluntário da ONG Ação Nacional para o Desenvolvimento Comunitário (ANADEC) está por perto, pronto para esclarecer quaisquer dúvidas que as crianças possam ter.

Depois, será a vez dos alunos mais velhos, que também se juntarão ao redor do rádio. 

“A rádio explica bem, e consigo perceber tudo”, diz Amadeu Baldé, um rapaz de 13 anos, do 5.º ano de Ensino Básico na Escola de Cutame, em Gabú. 

Embora goste muito do seu professor, Amadeu, por vezes tem dúvidas, especialmente sobre a língua portuguesa. É durante as aulas de reforço, realizadas duas vezes por semana, que aproveita para esclarecer essas questões com o facilitador.

Amadeu não é o único nesta situação. Dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos (MICS) de 2019 revelam que apenas 12% das crianças dos sete (7) aos 14 anos na Guiné-Bissau tinham competências básicas de leitura, e apenas 7% competências básicas de numeracia. Além disso, apenas 27% das crianças concluíram o 6.º ano.

“Na semana passada, o rádio passou uma lição de matemática — adição, subtracção e multiplicação — e na anterior foi sobre divisão,” conta Amadeu, entusiasmado. “Gosto mais da adição porque é mais fácil”, acrescenta, rindo. Mas, para Amadeu, a melhor parte da escola e das aulas de reforço é sempre o intervalo, quando joga futebol com os amigos.

O programa “Empoderamento da Juventude como Agentes de Mudança pela Educação” vai além do apoio à educação. Inclui uma forte componente de consciencialização e mobilização comunitária focada no empoderamento de meninas e raparigas e na proteção contra a violência baseada no género, particularmente a mutilação genital feminina (MGF) e o casamento infantil, através do programa conjunto UNFPA-UNICEF para a Eliminação da MGF — uma prática que continua alarmantemente prevalente na Guiné-Bissau.

Estas atividades vêm acrescentar aos esforços iniciados em 2019, com o projeto “Educação, Empoderamento e Participação de Raparigas Adolescentes”, financiado pelo Comité Nacional Francês para a UNICEF. O objectivo era dotar raparigas e mulheres adolescentes de competências, garantindo o acesso a oportunidades de aprendizagem e criando um ambiente propício ao seu pleno desenvolvimento.

O impacto da consciencialização comunitária já é visível. Desde o projeto de 2019, o número de raparigas a frequentar a Escola de Cutame aumentou significativamente. Este progresso continua a ser fortalecido pelo atual programa “Empoderamento da Juventude como Agentes de Mudança pela Educação”.

A 17-year-old Uma Embalo is happy that her parents allow her to continue her studies
UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ernesto: Uma Embaló, de 17 anos, está feliz por os seus pais permitirem que continue os estudos

A Uma Embaló, por exemplo, começou a participar nas reuniões semanais organizadas pela ANADEC, o parceiro implementador, na Escola de Cutame, Gabú, quando estava no 5.º ano. Hoje, aos 17 anos, está feliz por ver a sua família apoiar a sua educação, em vez de a pressionar para se casar. Está agora no 7.º ano e sonha ser médica.

“Homens e mulheres têm os mesmos direitos. Ouvi na rádio,” diz Djenabu Candé.

Aos 17 anos, Djenabu participa activamente nas sessões de recuperação na Escola de Sonaco, em Gabú, e agora sente-se pronta para começar o 7.º ano. Graças à mobilização comunitária do projecto, a aprendizagem  vai além das matérias escolares; Djenabu compreende agora conceitos como empoderamento das mulheres e da juventude, igualdade de género, higiene menstrual e violência baseada no género.

Quero Cande, 15, and Djenabu Cande, 17, take part in all the radio classes
UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ernesto: Quero Candé, de 15 anos, e Djenabu Candé, de 17, participam em todas as aulas de rádio

Na região vizinha de Bafatá, Fatumata Djau, de 18 anos, consegue até enumerar os direitos humanos. “O direito à vida, saúde, educação, identidade...” diz, orgulhosamente. A jovem de Sintchã Farba participa em sessões de diálogo comunitário e aprendeu muito sobre práticas prejudiciais, como o casamento infantil e a mutilação genital feminina, bem como outras formas de violência baseada no género. “Não é preciso ser excisada para ser pura,” afirma confiante.

O diálogo comunitário é especialmente crucial ao considerar que 52% das mulheres e raparigas dos 15 aos 49 anos na Guiné-Bissau foram submetidas à MGF. Nas regiões de Bafatá e Gabú, estas taxas são ainda mais alarmantes, atingindo 87% e 96%, respetivamente.

Para complementar estes esforços, o programa inclui sessões dedicadas aos pais e cuidadores. Durante estes encontros, os facilitadores apresentam aos pais o conteúdo das aulas de rádio para que possam acompanhar a aprendizagem dos seus filhos e explicar a importância de proteger as crianças, especialmente as raparigas, de normas e práticas culturais prejudiciais.

Parental education sessions are valuable for the project
UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ernesto: Sessões de educação parental são valiosas para o projeto

“Isso ajuda a proteger as minhas irmãs,” diz Duá Sano, um rapaz de 16 anos, de Duá Sano. “As minhas irmãs são mais novas, e se alguém disser que elas devem casar, eu não vou permitir porque elas ainda precisam de estudar,” acrescenta o jovem de Gã Tauda, em Bafatá.

Nesta tarde, Duá deveria estar a jogar futebol com os amigos, mas escolheu participar no diálogo comunitário. Aqui, gerações mais velhas e mais novas reúnem-se à sombra da maior árvore da aldeia para conversar. Para ele, a melhor parte é o conselho que os facilitadores dão sobre como tratar as mulheres, como os casais devem comunicar e como prevenir a violência doméstica. “Estas são coisas que não nos ensinam na escola,” diz Duá, com firmeza.

Quando regressa aos treinos de futebol, Duá partilha com os amigos o que foi discutido na reunião comunitária. “Alguns não levam a sério e riem, mas outros já começaram a vir às sessões comigo,” diz com um sorriso.