" Violência contra crianças: Assistentes Sociais da Saúde quebram o silêncio”
Assistentes sociais nos serviços de saúde na Guiné-Bissau identificam e ajudam a reportar casos de violência contra crianças e mulheres.
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Naquela manhã, a jovem mãe estava visivelmente angustiada, sentada ao lado da cama do filho no Hospital Regional de Bafatá, na Guiné-Bissau. O seu recém-nascido, com apenas dois dias de vida, tem sépse neonatal, uma infecção muito grave na corrente sanguínea, e ela não tem dinheiro para pagar o tratamento médico necessário. Quando o desespero da mãe começava a instalar-se, apareceu Sana Fati, um assistente social de 45 anos. Ele começava naquele momento as rondas nas movimentadas enfermarias do hospital para falar com os novos pacientes. Sana conseguiu aliviar uma parte do seu sofrimento.
"Os serviços de saúde precisam de ter um assistente social por causa da carência económica da população em geral", explica Sana. Na Guiné-Bissau, 69% da população vive abaixo da linha da pobreza, e 33% em pobreza extrema. Como assistente social no maior hospital de Bafatá, no leste da Guiné-Bissau, Sana dá aos pacientes informações sobre quais são os serviços a que podem aceder gratuitamente e como fazê-lo, quando justificado. Ele age como um defensor dos pacientes. "Em outras palavras, os assistentes sociais ajudam os pacientes a entender os seus direitos de saúde", resume.
O projecto "Reforçando a Coesão Social através da Promoção de uma Governação, Gestão e Administração Inclusiva e Eficaz do Sector da Saúde Pública", implementado pelo UNICEF, Organização Mundial da Saúde (OMS), e Interpeace/Voz di Paz, com financiamento do Fundo de Consolidação da Paz, reconhece que os assistentes sociais nos serviços de saúde são essenciais para promover o acesso a serviços de saúde de qualidade, imparciais e inclusivos. Como tal, tem investido em actividades de capacitação, incluindo no apoio à saúde mental e psicossocial a crianças vítimas de violência e abuso e violência baseada no género, e no fortalecimento do sistema de saúde.
"Eu gosto de ser assistente social e faço-o com amor. Escolhi esta profissão porque eu naturalmente gosto de ajudar os outros", diz Madi Gassi, 38 anos, assistente social no Hospital Regional de Gabu, na parte oriental do país. Infelizmente, neste tipo de serviço, é comum deparar-se com crianças em sofrimento. "Recebemos vários casos de violência contra crianças, e os mais frequentes são os casos de abuso sexual", comenta Madi. "É muito frequente aqui, e as vítimas são sempre meninas", acrescenta.
Ao identificar um caso de violência, os assistentes sociais de saúde podem dar "apoio para cobrir o custo dos serviços médicos e até assistência para cobrir os custos alimentares", se a família não puder arcar com a despesa, explica Sana. O essencial é "o apoio psicossocial para a vítima e o aconselhamento para a família sobre como apoiar a vítima", continua Sana.
Mesmo após as vítimas receberem a alta do hospital, "tentamos realizar visitas domiciliares para monitorar a situação da criança", diz Madi, explicando que "uma criança que sofre violência é fica emocionalmente afectada e a família também fica em choque". Este ano, o projecto entregou um carro e três motas ao Ministério da Saúde, para apoiar os serviços sociais na resposta eficaz, com cuidado psicossocial e de saúde mental, para mulheres e crianças vítimas de violência.
Neste pequeno país da África Ocidental subdesenvolvido, a saúde é um sector constantemente subfinanciado e serviços de saúde de qualidade estão raramente disponíveis. Para apoiar a população vulnerável, a Guiné-Bissau conta com 52 assistentes sociais que servem hospitais regionais, locais e centros de saúde pequenos, mas 16 deles estão na capital, Bissau. O projecto também entregou tablets e equipamentos informáticos para apoiar o bom funcionamento destes serviços, contribuindo para o fortalecimento da gestão de informações sobre violações dos direitos da criança e violência baseada no género.
"Agora, vejo a violência de forma diferente", diz Inácia Ventura, 37 anos, que recentemente começou a trabalhar no Hospital Regional de Tombali, na região sul do país. Ela está a participar numa formação para assistentes sociais nos serviços de saúde sobre como identificar e encaminhar casos de violência contra crianças e como reportá-los na plataforma digital Kobo Collect, gerida pelo Ministério da Mulher, Família e Solidariedade Social (Instituto da Mulher e da Criança). As formações foram realizados em todo o país para assistentes sociais de saúde, com feedback positivo desses profissionais. "Vou mudar a forma como trabalho e colocar em prática o que aprendi", continua Inácia.
Na formação, Ussumane Embalo, 39 anos, formador e coordenador do sistema de gestão de informações sobre violência contra crianças no Instituto da Mulher e da Criança, começa por enfatizar a importância de sempre respeitar a dignidade das vítimas. Ele continua explicando detalhadamente os tipos de violência contra crianças e o que se espera dos assistentes sociais. Casamento infantil, mutilação genital feminina, tráfico de seres humanos, negligência, violência psicológica, abuso sexual e exploração são algumas das práticas mencionadas. Nesta altura, Inácia admite que não sabia que algumas dessas práticas eram crime.
Na última parte do treinamento, os assistentes sociais aprendem a usar o Kobo Collect, uma ferramenta criada para melhorar a recolha de dados sobre violência, abuso, exploração e negligência contra crianças na Guiné-Bissau. A plataforma digital "ajudou a compreender a dinâmica das violações dos direitos das crianças através de dados estatísticos", diz Ussumane, do Instituto da Mulher e da Criança.
O Instituto da Mulher e da Criança visa produzir dados de qualidade e confiáveis sobre as tendências de violência para influenciar políticas nacionais, informar os decisores e estimular o debate público. Para isso, a contribuição dos assistentes sociais no sistema de saúde é inestimável, pois frequentemente estes profissionais têm conhecimento de casos de violência contra crianças que de outra forma não seriam denunciados. Com o apoio do projecto, e graças às formações, o número de assistentes sociais que reportam e encaminham casos de violência contra crianças aumentou de 6 para 28. O objectivo é alcançar um maior número de denúncias de incidentes e gestão de casos até o final de 2024.
Inácia acredita que a sensibilização de médicos, enfermeiros e todos os trabalhadores de saúde é crucial para lidar com a violência contra crianças e aumentar as denúncias. "Precisamos explicar aos adultos como as crianças devem ser tratadas porque as pessoas não percebem que as crianças têm direitos", diz ela.
Ainda na enfermaria pediátrica, Sana pergunta às mães se precisam de alguma assistência. Ele aproveita a oportunidade para questioná-las se as crianças já têm registo de nascimento. Após discutir com a pediatra, Sana promete encontrar uma maneira de ajudar a jovem mãe e o seu menino recém-nascido.