Da passagem do silêncio ao diálogo: as vozes jovens estão a impulsionar a mudança para pôr fim à MGF
REGIÃO DE GABU, GUINÉ-BISSAU
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Na região de Gabú, no leste da Guiné-Bissau, um número significativo de encontros comunitários sobre a prevenção da mutilação genital feminina (MGF) tem criado espaços para conversas abertas e impactantes, alcançando raparigas adolescentes em risco de MGF.
Para Ramatulai Bodjan, uma jovem ativista, estas conversas tornaram-se parte da vida quotidiana.
"Quando estou com as minhas amigas, falamos de questões como a MGF e o casamento forçado", diz. "Cada vez mais, começamos a questionar estas práticas."
Numa região onde a MGF continua profundamente enraizada e altamente prevalente, estas conversas informais marcam um ponto de viragem silencioso, mas significativo. Gabú destaca-se como uma das regiões mais afetadas pela MGF no país. Dados recentes do Inquérito de Indicadores Múltiplos MICS) VI, 2018-2019 mostram que cerca de 96% das mulheres entre os 15 e os 49 anos foram submetidas à prática, um valor muito superior à média nacional de cerca de 52%.
Esta prática nociva persiste também entre as gerações mais jovens: mais de 70% das raparigas entre os 0 e os 14 anos são afetadas, mais do dobro da taxa nacional, estimada em aproximadamente 30%. Estes números sublinham a urgência de ações comunitárias sustentadas, capazes de abordar as causas profundas da prática e promover mudanças duradouras.
Apesar da dimensão do desafio, começam a surgir sinais de mudança. Cada vez mais membros da comunidade participam em atividades de conscientização que aprofundam a compreensão das consequências físicas, psicológicas e sociais da MGF. Para as gerações mais jovens, estas trocas criam espaço para a reflexão e abrem, gradualmente, caminhos para mudanças a longo prazo.
Para Ramatulai, o impacto destas conversas vai além das sessões formais.
“"Estas sessões de consciencialização são realmente importantes", explica. "Ajudam-nos a compreender o que a MGF realmente significa, e levamos essas conversas aos nossos amigos."
Através do intercâmbio entre pares, adolescentes como Ramatulai estão a ampliar o alcance dos diálogos comunitários a um número crescente de jovens, para além dos espaços formais. Temas sensíveis, antes considerados tabu, são hoje discutidos abertamente em conversas do dia a dia, criando novas oportunidades de reflexão.
Os diálogos comunitários continuam a desempenhar um papel central nesta transformação. Reunindo mulheres, homens, líderes religiosos e jovens, estes espaços seguros permitem questionar crenças e conceções erradas profundamente enraizadas, incluindo a ideia errada de que a MGF é uma obrigação religiosa, de forma aberta e respeitosa.
Estes diálogos estão a romper o silêncio histórico em torno da MGF, criando espaço para que mulheres e sobreviventes partilhem as suas experiências, um passo essencial para desafiar normas sociais profundamente enraizadas que sustentam a prática ao longo das gerações.
O progresso, no entanto, permanece desigual. As expectativas sociais associadas ao casamento, à pureza e à aceitação social continuam a influenciar as decisões em torno da MGF; raparigas que não são submetidas à prática podem enfrentar estigmatização ou exclusão. De acordo com um estudo sobre a MGF realizado pelo UNICEF em 2025 nas regiões de alta prevalência, muitos homens continuam a desempenhar um papel central na tomada de decisões nas famílias e comunidades e a apoiar a prática.
Ao mesmo tempo, estas conversas estão a abrir espaço para abordar questões relacionadas, como o casamento infantil e a violência doméstica, refletindo padrões mais amplos de desigualdade de género.
"A MGF coloca raparigas e mulheres em risco e pode prejudicá-las de muitas formas", afirma Cadija Baldé, membro da comunidade. "Agora compreendo como é realmente prejudicial e é algo que precisa de acabar."
O Programa Conjunto UNFPA–UNICEF para a Eliminação da MGF apoia uma abordagem centrada na comunidade na Guiné-Bissau, particularmente em regiões de elevada prevalência como Gabú e Bafatá. Os esforços concentram-se no reforço dos diálogos comunitários em curso, no envolvimento de líderes religiosos e tradicionais e no fortalecimento das capacidades de profissionais da linha da frente em diferentes setores.
Persistem desafios estruturais, incluindo a coordenação limitada entre setores e sistemas frágeis de registo e monitorização de casos de MGF, o que dificulta a estimativa da verdadeira dimensão da prática.
O fortalecimento destes sistemas está a ser promovido através da integração da MGF no novo sistema nacional de Identificação, referenciamento e gestão de casos para responder à violência contra crianças. Esta integração é essencial para garantir respostas baseadas em evidências, coordenadas e sensíveis às necessidades das comunidades.
O investimento contínuo no reforço de capacidades permanece fundamental. Profissionais de saúde, educadores e atores comunitários desempenham um papel vital na identificação e resposta aos casos, bem como na promoção da conscientização e da mudança de comportamentos nas comunidades. Criar ambientes seguros onde as sobreviventes se sintam apoiadas e capacitadas para falar continua a ser um elemento central deste esforço.
“Se queremos construir uma sociedade mais justa, temos de começar nas escolas", afirma Umaro Djaquite, Facilitador Comunitário. "Precisamos de falar mais sobre a MGF, a violência doméstica e o casamento infantil."
Em Gabú, jovens como Ramatulai estão a desempenhar um papel cada vez mais ativo na forma como as suas comunidades compreendem e falam sobre a MGF. Estas ações individuais fazem parte de um movimento comunitário mais amplo, apoiado pelo Programa Conjunto UNFPA–UNICEF para a Eliminação da MGF na Guiné-Bissau (Fase IV – 2022–2030).
O programa visa transformar normas sociais prejudiciais enraizadas na desigualdade de género e avançar a Promessa Global para pôr fim à MGF, através da sensibilização, do reforço de capacidades e do envolvimento de raparigas, rapazes, mulheres e homens. Por meio deste esforço coletivo, apoia o abandono progressivo da MGF e capacita mulheres e raparigas para participarem nas decisões que afetam as suas vidas.
Vozes como a de Ramatulai sinalizam o surgimento de uma nova geração — uma geração que não só questiona o passado, como contribui ativamente para moldar um futuro diferente.
"Ainda temos um longo caminho pela frente", reflete Sónia Polónio, Gestora de Proteção da Criança da UNICEF, em nome do Programa Conjunto. "Mas agora, as pessoas estão a começar a pensar de forma diferente. É aí que começa a mudança."