Guiné-Bissau: tornar os partos mais seguros
-
- English
- Portuguese
Quando a Djara Fati, 33 anos, deu à luz os quatro primeiros filhos em casa, com a ajuda da mãe, teve a sorte de não ter nenhuma complicação. Mas esta quinta gravidez foi arriscada.
Fati foi diagnosticada com anemia, o que pode provocar hemorragias fatais durante o parto, se o parto não for realizado por um profissional de saúde qualificado. É uma das muitas doenças evitáveis que contribuem para a alta taxa de mortalidade materna do país, de 667 por 100.000 nascimentos vivos, muito acima da meta dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de menos de 70 mortes maternas por 100.000 nascimentos vivos. A anemia também pode levar a partos prematuros e a bebés com baixo peso ao nascer, o que também aumenta a probabilidade de morte infantil. Na Guiné-Bissau, cerca de 22 bebés por 1.000 nascimentos vivos morrem durante os primeiros 28 dias de vida, a maioria durante a primeira semana de vida, o que também está bem acima da meta dos ODS, de menos de 12 mortes por 1.000 nascimentos vivos.
Fati vive longe do hospital, numa zona pouco habitada da região nordeste de Gabu. Se Fati entrasse em trabalho de parto prematuro e tivesse hemorragia, as suas chances de sobrevivência seriam baixas. A única ambulância na região é muito requisitada e pode demorar até quatro horas a chegar a algumas áreas. Durante a época de chuva, a ambulância pode nem sequer chegar, pois as estradas tornam-se intransitáveis. Cerca de 40% dos partos na região não são assistidos por profissionais de saúde.
Por isso, Fati foi aconselhada a mudar-se para a Casa das Mães, uma casa de acolhimento temporário para mulheres grávidas criada pelo Governo da Guiné-Bissau em parceria com a ONG Caritas, construída no terreno pertencente ao hospital. Fati partilhou a casa com cerca de 20 outras mulheres grávidas, uma delas sendo Wazeline Da Costa, 23 anos, que sofreu dois abortos espontâneos, um aos dois meses de gestação e outro aos quatro meses. O marido trouxe-a à Casa das Mães a pé. "Demorei uma hora e meia, pois estava com dores e tinha de andar devagar", diz Da Costa, que está agora grávida de oito meses.
Mamasaliu Jalo, que supervisiona a Casa das Mães, explica que enquanto as mulheres grávidas ali estão ele repete e reforça o que os agentes comunitários de saúde ensinam às mães nas visitas domiciliares regulares, incluindo a importância de uma boa nutrição durante a gravidez, higiene, amamentação na primeira hora e amamentação exclusiva, imunização e registo de nascimentos. A Casa das Mães assegura todas as suas necessidades básicas, incluindo comida nutritiva. Além disso, estão prestes a começar e dar aulas de literacia, pois muitas das mulheres não sabem ler nem escrever. Jalo diz que adora o seu trabalho. “Ganho amizades, sinto-me valorizado e sinto que estou a ajudar a comunidade,” diz ele.
Jalo está sem fôlego, pois saiu a correr do seu escritório quando soube que uma das mulheres grávidas que ele acompanhou à maternidade, há algumas horas, tinha dado à luz uma menina saudável. Ele partilha a notícia com as mulheres grávidas que estão por perto. Há um burburinho de excitação.
No entanto, a maioria das mulheres em áreas rurais não consegue usufruir deste apoio. Há apenas cinco unidades da Casa das Mães no país. Ao invés, as mulheres têm de depender fortemente dos agentes comunitários de saúde, que desempenham um papel fundamental na saúde materno-infantil. A missão dos agentes comunitários de saúde inclui registar as mulheres grávidas, verificar o seu estado nutricional através da medição da circunferência do braço, e encaminhá-las para centros de saúde. Mulheres com gravidezes de risco são aconselhadas a mudar-se para perto de instalações de saúde com cuidados obstétricos, mas muitas vezes isso não é possível, pois ou não têm família na cidade ou são persuadidas, geralmente pelas sogras ou cunhadas, a ter o parto em casa. Para ajudar a prevenir a mortalidade neonatal, incluindo das crianças que nascem em casa, os agentes de saúde comunitária visitam regularmente durante a primeira semana de vida, que é crítica para o bebé.
O UNICEF apoia a formação de agentes comunitários de saúde e dá apoio técnico para melhorar as competências das parteiras, pois em alguns casos a má qualidade dos cuidados obstétricos tem contribuído para altas taxas de mortalidade materna. Além disso, “o UNICEF tem apoiado estas casas temporárias para mães grávidas e está a trabalhar em ampliá-las para todas as regiões,” diz Renato Pinto, Chefe de Saúde do UNICEF na Guiné-Bissau.
Quando as mulheres grávidas chegam ao hospital, a probabilidade de morrerem é grandemente reduzida. Desde que Jalo assumiu o seu cargo na Casa das Mães, em 2014, ele recorda apenas uma perda humana, em 2021. Tratava-se de uma mulher de 23 anos que, tal como a Fati, sofria de anemia. Foi encaminhada para a Casa das Mães dois meses antes da data prevista para o parto, onde foi tratada por anemia grave e monitorizada. Durante o parto, tudo parecia correr bem. Ela deu à luz um bebé saudável mas, três horas mais tarde, a mãe começou a sangrar abundantemente e, apesar de todos os esforços para a salvar, acabou por falecer. Um trágico lembrete de que um parto pode ser arriscado.
Mas para a maioria das mulheres na Casa das Mães, incluindo a Fati, os finais são felizes. Fati está no escritório de Jalo a aconchegar a sua bebé, que nasceu no hospital há cinco dias após uma estadia de um mês na casa. "Ainda não escolhi o nome dela," conta Fati, sorrindo. A sua bebé pesava 3,60 quilos ao nascer e Fati levou-a para a sua primeira vacinação. "Vamos dar alta à Fati amanhã," diz Jalo, admirando o recém-nascido da Fati.