Guiné-Bissau: Promover a aprendizagem na primeira infância em bairros desfavorecidos

Aprendizagem precoce para cada criança

Por Ruth Ayisi
Anssumane a tocar bateria no seu jardim de infância.
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi
10 Agosto 2024

Quando Nené Mané Anssumane estava grávida, ela tinha esperanças de poder levar o filho ao jardim de infância. “Antes do meu filho nascer, eu via mães a levarem os filhos ao jardim de infância e sonhava que um dia eu faria o mesmo”, diz Nené.

Nené nunca tomou a educação como algo garantido. 

Ela explica: “Eu nunca fui à escola, porque o meu pai não acreditava na educação. Ele achava que todos deveríamos trabalhar na sua terra.”

Três anos depois, Nené participa numa reunião mensal de pais e professores no Jardim Ajuam, um jardim de infância nos subúrbios urbanos de Bissau, a capital, uma área de famílias maioritariamente pobres.

Nené chega cedo para a reunião. Enquanto espera, ela senta-se com seu filho de três anos, Anssumane, em um centro de recursos bem equipado que fica ao lado das salas de aula. Os grandes olhos de Anssumane examinam a sala repleta de brinquedos coloridos. Deram-lhe elefantes de fantoche para brincar, mas ao invés, ele prefere tentar tirar a bola de futebol que está na prateleira de cima. Nené o repreende suavemente e ele se contenta, a princípio relutantemente, com blocos de construção coloridos.

Então, quando Anssumane ouve a professora, Aramata Mané, soletrar o nome dele, ele levanta a cabeça dos blocos e repete cada letra de seu nome, enquanto a mãe sorri para ele. “O jardim de infância ensinou-lhe muito”, diz Nené. “Ele mudou. Ele cumprimenta-nos em casa e conta-nos o que fez naquele dia.”

Anssumane brinca com blocos de construção.
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Anssumane brinca com blocos de construção.

Nené acrescenta que também ela está a aprender coisas com o jardim de infância. 

“Antes eu não variava a nossa alimentação, agora cozinho mais vegetais e comemos frutas”, ela diz. 

“Também aprendi a disciplinar melhor o Anssumane, embora às vezes sinta a tentação de dar-lhe uma palmada, porque ele mexe em tudo. Mas se o faço, sinto-me culpada, porque ele fica tão triste.”

Quando a reunião começa, Nené toma o seu lugar, preferindo sentar-se no fundo de um semicírculo de cadeiras colocadas do lado de fora, no pátio do jardim de infância. Enquanto isso, Anssumane acompanha a professora, Mané, para a sala de aula, onde há ainda mais brinquedos para mantê-lo ocupado, incluindo um tambor tradicional, em que ele bate com vigor.

Cerca de 30 cuidadores, na sua maioria mães, chegam com os filhos. O facilitador tem um barril de água no centro do semicírculo, que usa como apoio para iniciar uma discussão animada em criolo sobre boa higiene. As mães revezam-se para compartilhar experiências; por exemplo, algumas famílias não têm água canalizada em casa e lutam para pagar outras necessidades.

Nené Mané, sentado em segundo plano, participa na reunião de pais e professores.
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Nené Mané, sentado em segundo plano, participa na reunião de pais e professores.

Além da reunião mensal de pais e professores, os professores também fazem visitas domiciliares, explica a professora Aramata Mané. “Damos atenção especial a como a criança está a ser tratada em casa e como ela se relaciona com a família”, ela diz. 

“Dizemos aos pais que eles nunca devem bater na criança e que precisam conversar com a criança e mostrar o que é certo e o que é errado.”

O apoio à educação infantil é uma prioridade do UNICEF. Durante os primeiros cinco anos, os cérebros das crianças pequenas crescem a um ritmo acelerado, moldando o seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social. O cérebro é nutrido através de experiências positivas precoces, especialmente através de relacionamentos estáveis com pais ou cuidadores carinhosos e responsivos, ambientes seguros e de apoio, e nutrição adequada. Esta janela crítica de cinco anos é quando a criança tem a chance de desenvolver o seu potencial. Além disso, pesquisas mostram que crianças preparadas para a escola têm mais chances de ter sucesso escolar.

Na Guiné-Bissau, apenas cerca de 14,3 por cento das crianças pequenas estão em programas organizados de educação infantil. A parceria do UNICEF com o Ministério da Educação e a Rede Nacional de Jardins de Infância (RENAJI) está a mudar isto gradualmente. Carla Jauad, a oficial de educação da Guiné-Bissau que supervisiona a educação na primeira infência, destaca: “A RENAJI agora alcança cerca de 600 pré-escolas em todo o país e temos apoiado a melhoria das habilidades dos educadores, beneficiando cerca de 17.000 crianças. Continuaremos a expandir esse apoio em todo o país, especialmente nas áreas rurais remotas, para mudar a trajectória de desenvolvimento de uma criança, melhorar os resultados para as crianças, famílias e comunidades, e garantir que todas as crianças tenham acesso a uma educação pré-escolar de qualidade.”

O UNICEF também apoiou dois centros de recursos educacionais, um em Bissau e outro na região de Oio, equipando-os com materiais educacionais actualizados, que os professores de jardim de infância podem levar emprestados. “Gostaríamos de ter esses centros de recursos em todas as regiões”, diz o Coordenador Nacional da RENAJI, Quecuta Indja. “Os professores vêm de longe para pegar esses materiais tão necessários.”

Enquanto isso, a reunião de pais e professores chega ao fim. Anssumane quer continuar a brincar mas, depois de alguma persuasão de sua mãe, ele acena para os amigos e professores, e então segura a mão de sua mãe. Nené vira-se e sorri. Agora, ela está a viver o seu sonho.

Nené Mané de saída com o seu filho Anssumane
@UNICEF Guinea-Bissau/2024/Ayisi Nené Mané de saída com o seu filho Anssumane