Covid-19, a ‘maior crise global para as crianças nos nossos 75 anos de história’ – UNICEF
No seu 75º aniversário, o UNICEF avisa que a COVID-19 está a reverter praticamente todos os progressos para a infância, incluindo 100 milhões de crianças levadas à pobreza
BISSAU, 10 de Dezembro de 2021 - A COVID-19 afetou meninas e meninos numa escala sem precedentes, tornando-se a pior crise para as crianças nos 75 anos de história do UNICEF, disse a agência da ONU para a infância em um relatório divulgado hoje.
O relatório Preventing a lost decade: Urgent action to reverse the devastating impact of COVID-19 on children and young people (Prevenindo uma década perdida: Ação urgente para reverter o impacto devastador da COVID-19 nas crianças e jovens – disponível apenas em inglês) destaca as várias maneiras pelas quais a COVID-19 está a colocar em perigo décadas de progresso em desafios-chave da infância, tais como a pobreza, saúde, acesso à educação, nutrição, proteção infantil e bem-estar mental. Ele adverte que, quase dois anos após o início da pandemia, o impacto generalizado da COVID-19 continua a aprofundar-se, aumentando a pobreza, consolidando a desigualdade e ameaçando os direitos das crianças em níveis nunca vistos.
“Ao longo de nossa história, o UNICEF ajudou a moldar ambientes mais saudáveis e seguros para as crianças em todo o mundo, com ótimos resultados para milhões”, disse a Diretora-Executiva do UNICEF, Henrietta Fore. “Esses ganhos agora estão em risco. A pandemia da COVID-19 tem sido a maior ameaça ao progresso das crianças nos nossos 75 anos de história. Enquanto o número de crianças com fome, fora da escola, que sofrem abusos, vivendo na pobreza ou forçadas ao casamento está a aumentar, o número de crianças com acesso a cuidados de saúde, vacinas, alimentação suficiente e serviços essenciais está a diminuir. Em um ano em que deveríamos estar a olhar para frente, estamos a retroceder”.
Segundo o relatório, estima-se que 100 milhões de crianças a mais estejam agora a viver em pobreza multidimensional por causa da pandemia, um aumento de 10% desde 2019. Isso corresponde a aproximadamente 1,8 crianças a cada segundo desde meados de março de 2020. Além disso, o relatório adverte sobre um longo caminho para recuperar o terreno perdido – mesmo na melhor das hipóteses, serão necessários de sete a oito anos para a recuperação e o retorno aos níveis de pobreza infantil de antes da pandemia.
Citando mais evidências de retrocesso, o relatório diz que cerca de 60 milhões de crianças adicionais estão agora a viver em famílias pobres, em comparação com a situação antes da pandemia.
Além disso, em 2020, mais de 23 milhões de crianças não tiveram acesso a vacinas essenciais – um aumento de quase 4 milhões em relação a 2019, o qual é o maior número em 11 anos.
Mesmo antes da pandemia, cerca de 1 bilhão de crianças em todo o mundo sofriam pelo menos uma privação grave, sem acesso a educação, saúde, moradia, nutrição, saneamento ou água. Esse número está a aumentar agora, à medida que a recuperação desigual acentua as disparidades crescentes entre crianças ricas e pobres, com as mais marginalizadas e vulneráveis sendo as mais afetadas. O relatório observa:
- No seu pior momento, mais de 1,6 bilhões de estudantes estiveram fora da escola devido ao encerramento dos estabelecimentos de ensino nos seus países. As escolas permaneceram encerradas em todo o mundo durante cerca de 80% do ano letivo no primeiro ano da crise.
- As condições relacionadas com a saúde mental afetam mais de 13% de meninas e meninos de 10 a 19 anos em todo o mundo. Em outubro de 2020, a pandemia tinha interrompido ou suspendido serviços essenciais de saúde mental em 93% dos países em todo o mundo.
- Até 10 milhões de casamentos infantis adicionais podem ocorrer antes do final da década como resultado da pandemia da COVID-19.
- O número de crianças em situação de trabalho infantil aumentou para 160 milhões em todo o mundo – um aumento de 8,4 milhões de crianças nos últimos quatro anos. Um adicional de 9 milhões de crianças correm o risco de ser forçadas para o trabalho infantil até o final de 2022 como resultado do aumento da pobreza desencadeado pela pandemia.
- No auge da pandemia, 1,8 bilhões de crianças viviam nos 104 países onde os serviços de prevenção e resposta à violência foram seriamente interrompidos.
- 50 milhões de crianças sofrem de desnutrição aguda, a forma mais letal de desnutrição, e esse número pode aumentar em 9 milhões até 2022 devido ao impacto da pandemia na dieta infantil, nos serviços de nutrição e nas práticas alimentares.
Além da pandemia, o relatório alerta para outras ameaças às crianças que representam ameaças extremas aos seus direitos. Em todo o mundo, 426 milhões de crianças – quase uma em cada cinco – vivem em zonas de conflitos que se estão a tornar mais intensos e a cobrar um preço mais alto aos civis, afetando desproporcionalmente as crianças. Mulheres e meninas correm o maior risco de violência sexual relacionada a conflitos. Oitenta por cento de todas as necessidades humanitárias são motivadas por conflitos. Da mesma forma, aproximadamente 1 bilhão de crianças – quase metade das crianças do mundo – vivem em países que correm um "risco extremamente alto" com os impactos das mudanças climáticas.
Para responder, recuperar e reimaginar o futuro de cada criança, o UNICEF continua a pedir:
- Investimento na proteção social, capital humano e gastos para uma recuperação inclusiva e resiliente;
- O fim da pandemia e o reverso do retrocesso alarmante na saúde e nutrição das crianças – inclusive por meio do aproveitamento do papel vital do UNICEF na distribuição da vacina contra a COVID-19;
- Uma reconstrução mais forte, garantindo educação de qualidade, proteção e boa saúde mental para todas as crianças;
- A construção da resiliência para melhor prevenir, responder e proteger as crianças das crises – incluindo novas abordagens para acabar com a fome, proteger as crianças das mudanças climáticas e reimaginar os gastos com desastres.
“Numa era de pandemia, os conflitos crescentes e mudanças climáticas cada vez piores, nunca uma abordagem que prioriza a criança foi mais crítica do que hoje”, disse Fore. “Nós estamos numa encruzilhada. À medida que trabalhamos com governos, doadores e outras organizações para começar a traçar nosso caminho coletivo para os próximos 75 anos, crianças devem ser as primeiras a receber investimentos e as últimas a sofrer cortes. A promessa do nosso futuro depende das prioridades que definimos no nosso presente”.
Na Guiné-Bissau, por ocasião dos seus 75 anos de trabalho em prol das crianças ao nível mundial, e 45 anos de presença no país, o UNICEF colabora com o Governo e com a Embaixada de Portugal para realizar uma cerimónia de celebração desta data.
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