A voz ativa dos adolescentes fortalece a vacinação contra o HPV
Em Jucás, no Ceará, adolescentes do NUCA transformaram a própria voz em uma ferramenta para mobilizar outros jovens, combater a desinformação e fortalecer a vacinação
"O que a gente faz é usar a nossa voz enquanto adolescentes para conscientizar outros adolescentes". A frase surgiu durante uma conversa com nove adolescentes e jovens de Jucás, município de pouco mais de 20 mil habitantes no interior do Ceará. Dita por um deles e logo completada pelos demais, ela resume o papel que desempenharam na mobilização pela vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) na cidade, no fim de 2025.
Mais do que participar da campanha, eles passaram a ocupar um papel central na mobilização, ajudando a aproximar a informação de outros adolescentes e de suas famílias. Em vez de serem apenas o público das ações promovidas pela Secretaria Municipal de Saúde, gravaram vídeos para as redes sociais, produziram cartazes, participaram de palestras nas escolas e incentivaram colegas a verificar o cartão de vacinação e procurar uma unidade de saúde.
Em Jucás, esse protagonismo aconteceu por meio do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA), espaço de participação cidadã previsto na metodologia do Selo UNICEF para garantir que adolescentes possam identificar desafios do município, dialogar com o poder público e participar da construção de soluções para suas comunidades. Foi assim que a vacinação contra o HPV entrou na pauta do grupo.
"No começo de cada edição do Selo UNICEF, a gente faz um plano de ação e escolhe quais assuntos quer trabalhar. A vacinação contra o HPV foi um deles porque percebemos que ainda existiam muitas dúvidas sobre o tema", explica Alana Penha, de 17 anos.
A decisão não foi por acaso. Embora a vacina contra o HPV seja oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos e seja uma das principais formas de prevenir diferentes tipos de câncer, ela ainda enfrenta resistência, especialmente pela desinformação.
"Algumas pessoas acham que tomar essa vacina incentiva o início da vida sexual. A gente veio justamente para mostrar que não é isso. É prevenção", ressalta Antonio Dariel, de 15 anos.
Para Savana Oliveira, de 15 anos, o primeiro desafio foi pensar em como conversar sobre um tema que ainda desperta dúvidas entre adolescentes e adultos. "A gente queria explicar de um jeito que outros adolescentes entendessem. Por isso fizemos vídeos, participamos das palestras e usamos uma linguagem mais próxima da nossa realidade”, lembra.
Davi Pereira, de 18 anos, conta que a campanha também mudou sua própria percepção. "Antes eu conhecia pouco sobre a vacina. Participando das ações, fui entendendo melhor por que ela é importante. Hoje consigo explicar isso para outras pessoas”, reconhece.
Daphny, de 12 anos, percebeu a mesma coisa. "Muita gente tinha medo porque não conhecia a vacina. Quando a gente explicava que ela ajuda a prevenir vários tipos de câncer, as pessoas começavam a entender de outro jeito”, conta.
A participação dos adolescentes vai além da divulgação. Eles acompanharam as equipes de saúde durante as atividades nas escolas, conversaram com colegas nos intervalos das aulas e lembraram os amigos sobre os dias de vacinação. “Não é uma ação pronta. Nós construímos juntos, do zero", resume João Lucas, 13 anos.
Quando a conversa continua em casa
Essa proximidade também ajudou a enfrentar um dos principais desafios da campanha: levar informação para dentro das casas.
Para Ludmila Alves, mobilizadora do NUCA em Jucás, esse envolvimento é justamente o que diferencia a iniciativa. "Quando o assunto é vacinação para adolescentes, eles precisam estar envolvidos. Quando um adolescente conversa com outro adolescente, a mensagem chega de um jeito diferente. Eles se sentem mais à vontade para perguntar, tirar dúvidas e compartilhar experiências”, destaca. Segundo ela, muitas perguntas que os jovens não fariam a um adulto acabam surgindo quando a conversa acontece entre pares.
"Os adolescentes dependem da autorização dos responsáveis para tomar a vacina. Por isso a informação precisava chegar também aos pais”, explica Luanderson Pereira, 16 anos.
Foi exatamente o que aconteceu.
Maria Gerda, mãe de Rhaniely Alves, conta que foi a filha quem levou o assunto para casa. “Ela chegou dizendo que precisava procurar o cartão de vacinação. Eu nem sabia que a vacina era justamente para prevenir antes do início da vida sexual. Hoje digo para qualquer família que vacinar também é um ato de amor”, recorda.
Na casa de Antonio Dariel, o movimento foi parecido. "Ele sempre participa das atividades do NUCA e chega contando tudo o que aprendeu. Acho muito importante combater esse preconceito contra a vacina. Quanto mais informação a gente tiver, melhor", observa Maria das Dores.
Segundo Mary Elle, coordenadora municipal de imunização, o envolvimento do NUCA fortaleceu uma estratégia construída conjuntamente pelas secretarias municipais de Saúde, Educação e Assistência Social. "Quando os adolescentes passaram a participar da campanha, a informação começou a circular de maneira muito mais natural entre outros jovens”, pontua.
Ao longo da campanha, 415 adolescentes foram vacinados contra o HPV em Jucás. As ações promovidas também trouxeram resultados para 2026: até o mês de julho, 561 adolescentes receberam a vacina. Para o município, o avanço reflete uma estratégia que combinou vacinação nas escolas, busca ativa, atuação integrada entre Saúde, Educação e Assistência Social e o protagonismo dos adolescentes na mobilização de colegas e familiares.
Os resultados fazem parte de um esforço nacional para ampliar a cobertura vacinal contra o HPV. No Brasil, a vacina protege contra os principais tipos do HPV, responsáveis por diferentes tipos de câncer do colo do útero, além de outros cânceres, como os de pênis, ânus, vulva, vagina e orofaringe. Entre 2021 e 2025, a cobertura vacinal passou de 79,1% para 86,1% entre as meninas e de 41,1% para 74,5% entre os meninos.
No Ceará, essa mobilização integra a Aliança pela Vacinação contra o HPV, liderada pelo UNICEF em parceria com os governos do Ceará e do Rio Grande do Norte, secretarias de Saúde e outras instituições. A iniciativa busca alcançar cobertura vacinal de 90% entre meninas e meninos de 9 a 14 anos até 2026, fortalecendo estratégias como a mobilização de adolescentes, o trabalho intersetorial e o diálogo entre pares para enfrentar a desinformação e ampliar o acesso à imunização.
“A pauta da saúde integral e integrada de adolescentes está muito presente na atual edição do Selo UNICEF. Estamos reforçando especialmente o direito à imunização. Na Aliança Contra o HPV, o UNICEF reuniu parceiros, como secretarias de Saúde e o Grupo Mulheres do Brasil, com foco na convergência de ações pela saúde adolescente, e os resultados dessa articulação já começam a ser vistos”, reforça Madeline Abreu, oficial de Saúde e Proteção Social do escritório do UNICEF no Ceará e Rio Grande do Norte.
Ao transformar adolescentes em protagonistas da campanha, Jucás mostrou que fortalecer a vacinação contra o HPV também passa por reconhecer que meninas e meninos têm voz — e que, quando essa voz encontra espaço para ser ouvida, ela é capaz de mobilizar colegas, aproximar famílias e ampliar a proteção de toda a comunidade.
Para que crianças, mães, adolescentes e jovens tenham acesso a serviços de saúde de qualidade, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de Pfizer. Para ações gerais de Saúde, o UNICEF no Brasil conta com a parceria estratégica de Infinis e Takeda. Além disso, o UNICEF tem XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil.