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Uma vida para os outros

O Viva Melhor Sabendo Jovem foi um dos maiores desafios para a Associação Gold, coordenada por Déborah Sabará, em Vitória

UNICEF Brasil
15 julho 2020
Na foto, Déborah olha para a câmera sorrindo.
Arquivo pessoal A ativista Déborah Sabará, da Gold: “Tem que ter muita luta, muita persistência”

Ao abrir seu perfil em uma rede social, Déborah lê a mensagem recebida de uma desconhecida. É a tia de um homem que está preso em uma penitenciária do Espírito Santo, e que precisa de ajuda – ele está sendo abusado sexualmente por colegas de cela. “O ideal agora é transferi-lo para um presídio que possua galeria especial para gays, bissexuais, travestis e transsexuais”, ela comenta, já imaginando providências necessárias.

Déborah Sabará, 42 anos, está acostumada a receber pedidos de ajuda e denúncias o tempo todo. Desde que assumiu a Associação Gold (Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade), em 2016, suas preocupações passaram a ser mais sobre os outros do que sobre si mesma. Antes conhecida como ativista atuante na cena cultural capixaba, tornou-se uma referência nacional das causas ligadas à população LGBTQIA+.

Não à toa, a Gold tornou-se parceira do UNICEF para realizar o projeto Viva Melhor Sabendo Jovem, junto com a Prefeitura de Vitória e a Secretaria Estadual de Saúde do Espírito Santo. Durante nove meses, o projeto buscou prevenir HIV/aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) entre adolescentes e jovens na capital capixaba, além de promover a testagem rápida e o acesso ao atendimento adequado de saúde de novos casos.

A Gold foi fundada na cidade de Colatina, em 2005, a duas horas de distância de Vitória. Naquela época, a associação ainda não tinha um espaço físico. Fazia no máximo um projeto por ano. Isso mudou radicalmente após a aprovação de uma emenda parlamentar na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, já na presidência de Déborah, que garantiu apoio para pagar o aluguel de uma sala no centro de Vitória – hoje são três salas.

“Tem que ter muita luta, muita persistência. Já tirei dinheiro do bolso e tive que fazer projetos de graça para poder comprovar experiência, e assim participar de editais de patrocínio”, conta, relembrando o começo de sua trajetória. “A parte mais difícil era explicar para os colaboradores que faríamos trabalho voluntário até conseguir respirar”.

Déborah foi a primeira travesti a assumir a presidência do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Espírito Santo. Até hoje, quando entra em um presídio, a população carcerária a respeita, pois conhece seu trabalho na defesa dos direitos humanos.

Ela nasceu em uma família evangélica, mas seguiu outros caminhos na fé. A mãe, Mariana Sabará, tem 78 anos. O pai, Jurandir Alves, “morreu de cansaço de trabalho”, segundo Déborah, após uma vida inteira como pedreiro, profissão que sustentou a família de nove filhos. Durante a adolescência, ela teve que sair de casa e morar de favor.

“As travestis sofrem muitas agressões na vida, físicas, verbais e psicológicas, no núcleo familiar, social, escolar e de políticas públicas. Saímos de casa sem concluir os estudos, 90% acaba na prostituição para sobreviver”, diz Déborah. “Mas entendo a violência como uma repetição construída socialmente. Todos da minha família hoje têm orgulho de quem eu sou. Precisamos perdoar para seguir em frente”.

Déborah conheceu os perigos que as profissionais do sexo enfrentam nas ruas de Vitória (“quando a sociedade rejeita você, só a rua te abraça”, afirma). Mas logo conseguiu entrar no mundo do carnaval e das festas juninas. Foi aderecista, porta-bandeira, coordenou barracão de fantasias e de alegorias, e tornou-se a primeira porta-bandeira travesti do Brasil, pela escola de samba Imperatriz do Forte. “Por isso, defendo tanto a inserção cultural, assim como o acesso à educação”, ela fiz

Ano passado, começou a viver segundo ela o “maior desafio da Gold”: o Viva Melhor Sabendo Jovem, em parceria com o UNICEF. Maior desafio pela complexidade e importância do projeto, do qual Déborah participou de cada etapa ao longo dos sete meses de trabalho. Coordenava tudo do escritório e, ao mesmo tempo, ia para a rua junto com os agentes de prevenção. Teve a ideia de trazer uma enfermeira para a equipe, “enriquecendo” a experiência da testagem, ela diz.

Déborah formou uma equipe que respeitou critérios de diversidade étnica e sexual. Escolheu pessoas que morassem nos bairros onde o trabalho de campo seria feito. Obteve, ao fim do projeto, um alto número de testes realizados (915 para HIV, 405 para sífilis, 350 para hepatite B e 405 para hepatite C). Onze pessoas testaram positivo para HIV/aids e 32 para sífilis. Quando a pandemia começou, o trabalho passou a ser remoto, e só parou quando as atividades foram finalizadas, em abril.

Cada pessoa que fazia a testagem ganhava uma caneca personalizada, panfletos (foram distribuídos 160 mil) e três preservativos. Sempre que estava presente no momento do resultado, Déborah fez questão de dar a notícia aos que testaram positivo para alguma infecção sexualmente transmissível.

Ela se entusiasma ao lembrar da emoção de toda a equipe com o trabalho. “Quando nossa equipe chegava à rua, parava tudo”, recorda. “A gente trabalhava feliz”.

“Conseguimos atingir nossas metas mesmo com a pandemia. Fiquei honrada com a oportunidade de trabalhar com o UNICEF e desconstruir essa ideia de que testar positivo é o fim da linha. Na verdade, pode ser o começo de uma nova vida. Se conseguimos dialogar com as pessoas, é possível ajudá-las a compreender a questão e se aceitar. Saber o diagnóstico é o primeiro passo”, afirma Déborah.