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Para Letícia, saúde mental

Aos 15 anos, Letícia superou os sofrimentos da pandemia ao encontrar atendimento psicológico gratuito em sua comunidade na Maré, no Rio de Janeiro

UNICEF Brasil
Foto mostra uma adolescente olhando para a foto e sorrindo. A foto está por trás de uma moldura azul com o logo do UNICEF e o texto Dia Mundial da Criança - 20 de novembro.
UNICEF/BRZ/Fabio Teixeira
19 novembro 2021

Letícia voltou a sorrir. “No começo deste ano, eu não tinha certeza de que conseguiria chegar até aqui”, diz com lágrimas nos olhos – emoção de quem conseguiu superar uma fase inesperada de sua vida.

Desde sempre, Letícia Correia Pereira vive na favela da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Tem 15 anos e mora com o pai, a mãe e a irmã mais nova, além dos cachorrinhos Sofia e Ariel, que ela adora. É estudante do 1º ano do ensino médio numa escola pública federal, que fica em São Cristóvão, frequentada por adolescentes de vários lugares da cidade. Na Maré mesmo, Letícia tem poucos amigos. Sua turma é principalmente da escola. Mas gosta muito de conhecer pessoas novas.

Por isso, foi tão difícil ficar longe de tudo com a pandemia. “Sentia muitas saudades dos meus amigos, de poder sair, de ir para a escola”. Ela ficou o ano todo de 2020 sem aula, apenas com algumas poucas atividades a distância.

“Comecei a me sentir mal e comentei com minha mãe que gostaria de fazer terapia. Eu já tinha feito acompanhamento psicológico aos nove anos, pois tinha medo do escuro, e gostei muito”. A mãe de Letícia soube então que a ONG Luta pela Paz, perto de onde elas moram, estava oferecendo atendimento psicológico gratuito. Entre 2020 e 2021, como parte do projeto Zona Nossa, a Luta pela Paz, em parceria com UNICEF, ofereceu atendimento psicológico a jovens e adolescentes da Maré e da Pavuna, além de atividades de formação de profissionais e mobilização de adolescentes, com objetivo de promover a saúde mental e fortalecer a prevenção de violências durante a pandemia.

“Comecei então a fazer atendimento individual toda quarta-feira. No início foi presencial, mas a pandemia se agravou e passamos para o remoto”. O que já estava difícil piorou com a virada do ano.

No início de 2021, a escola de Letícia começou finalmente as aulas remotas. A proposta seria fazer duas séries de forma compacta num mesmo ano. “Começamos a ter atividades síncronas e assíncronas todos os dias, tudo online. Isso me quebrou. Foi muito difícil me adaptar”.

“Entrei em depressão. Fiquei muito fechada e não conseguia falar nem com minha mãe. Só consegui me abrir com a minha psicóloga, a Mônica. Naquele momento, não pensava que conseguiria chegar até aqui”. O apoio psicológico foi crucial.

Foto mostra uma adolescente de máscara, em pé em frente a uma parede grafitada. Ela está mexendo no celular.
UNICEF/BRZ/Fabio Teixeira

Além do duro impacto da pandemia, Letícia conta dos desafios contínuos de preservar a saúde mental como adolescente na Maré. “A gente vê o tempo todo muitas pessoas armadas. Com certeza, isso afeta muito a gente”. Como menina, os desafios se multiplicam. Andar pela rua sozinha, por exemplo, representa sempre um risco de assédio ostensivo.

A falta de oportunidades também faz sofrer. “Não saio muito. Não conheço quase nada do Rio. Antes da pandemia, quando saía com minha família, era sempre para os mesmos lugares. Com a pandemia, tudo parou”. Mas, aos poucos, Letícia vai se animando. “Outro dia, fui com minhas amigas para o Palácio do Catete pela primeira vez, foi muito bom. Eu gosto de conhecer pessoas e quero passear mais”.

Fortalecida, Letícia está retomando as alegrias e os sonhos. “Quero voltar a me dedicar mais aos estudos e também à minha família, pois me isolei bastante. Quero voltar a fazer academia e, claro, manter as consultas com a psicóloga”. Letícia sabe com todas as letras a importância de ter um serviço de atendimento psicológico gratuito, de qualidade, no seu território.

“As pessoas ainda não dão muita importância para a saúde mental. Acham que é frescura, maluquice.... Por isso, o que eu desejo para as outras meninas da Maré é que elas tenham a mesma oportunidade que eu tive de me cuidar e ser cuidada”.

Para Letícia e para cada criança, saúde mental.

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