“Agora desenho planos para o futuro”
Ao participar do Engaja, Tamires Petronilho aprendeu a confiar em si mesma e agora sonha em mudar vidas. Ela foi uma dos 300 participantes da iniciativa realizada pelo UNICEF, a Saint-Gobain e o Cieds em São Paulo
Jardim Paraná
aonde o sol bate mais forte
aonde o vento é mais gelado
a parede é madeirite
e o nosso chão é barro
Quando não nos falta água, falta iluminação
Becos e vielas
crianças perdidas
no Jumbo da vida deixam de sonhar
Jardim Paraná, onde você tá
Jardim Paraná, onde vai chegar
Nem no mapa a gente consegue te achar
(Tamires Petronilho)
Ruas sem pavimentação, constante falta de água e luz, risco de incêndios nos barracos e na fiação, crianças fora da escola. É assim que Tamires Cauane Petronilho descreve o Jardim Paraná, região onde mora na Brasilândia, populosa periferia da Cidade de São Paulo. E é a falta de estrutura que mobiliza a adolescente de 17 anos a sonhar com um bairro melhor para seus vizinhos. “Quero abrir uma ONG para ajudar as pessoas daqui. Gosto de conversar e dar conselhos. Também gosto de moda, de compor músicas, desenhar, fazer cabelo e maquiagem. Se eu juntar tudo isso, vira uma profissão. E o Engaja me permitiu isso”, diz.
Compreender os desafios e as potencialidades do local onde mora foi uma das discussões que nortearam os trabalhos do Engaja, iniciativa realizada pelo UNICEF em parceria com a Saint-Gobain e o Cieds. Com o objetivo de diminuir a distância entre o jovem morador da periferia e o mundo do trabalho, o projeto buscou a inclusão produtiva de meninas e meninos na sociedade, indicando caminhos e oferecendo capacitação para que eles acessem novas oportunidades. Tamires se inscreveu e incentivou o irmão e mais três vizinhas a participar. Com eles, cerca de 300 jovens de cinco regiões da capital paulista, incluindo Brasilândia, Cidade Tiradentes, Grajaú, Jardim Ângela e Tremembé, fizeram parte da iniciativa.
Por meio do projeto, Tamires participou de uma formação de 80 horas que promoveu debates sobre identidade, território e futuro. Os encontros temáticos tiveram como base a educação entre pares, já que os 50 primeiros jovens capacitados na primeira etapa do Engaja replicaram o que aprenderam para outros 250 participantes.
Em referência a alguns dos conhecimentos adquiridos no projeto, Tamires contou sobre a linguagem neutra e como se sentiu confortável para trocar experiências. “Falamos muito sobre diversidade, sobre a comunidade. Eu aprendi umas palavras novas, tipo ‘todes’. Agora eu falo ‘todes’ sempre. É muito interessante. Eu sou muito tímida. Mas lá eu não tinha vergonha de falar”.
Muito do que aprendeu dessa troca, Tamires compartilhou com a família e com a vizinhança. Para ela, é gratificante ver as pessoas aprendendo e sendo motivadas a buscar novas possibilidades de mudança.
“O Engaja me deu muita força e me fez dar força para as pessoas. Eu não achava que tinha capacidade, mas agora eu sei que tenho e que todo mundo tem capacidade também.”
Na Brasilândia, a adolescente mora com a mãe, o padrasto e dois irmãos. Desde os 14 anos, Tamires trabalha fazendo trabalhos informais. Já trabalhou em gráfica e papelaria. Viu muitas crianças da região precisar interromper os estudos e pedir esmola na rua. Já foi reprovada em um ano escolar por não conseguir chegar à escola na época de chuvas. Ela conta que se inspira na tia e na mãe, exemplos de pessoas que se esforçam para conseguir melhorar a vida a partir do trabalho.
Com o Engaja, a adolescente se envolveu em rodas de conversas online sobre educação financeira, acesso ao ensino superior e profissões do futuro, aprendeu a ter confiança em si mesma e encontrou motivação para empreender as mudanças que tanto sonha para ela e para a sociedade. Agora desenha planos para o futuro. Cursando o segundo ano do ensino médio numa escola pública da região, Tamires hoje pensa em tentar um trabalho como jovem aprendiz e ingressar na universidade para estudar moda ou assistência social.
“Quando eu olho para meu futuro, eu penso que vai dar certo. É isso que eu coloco na minha mente”, diz.